- A indústria global de aço emite 1,9 tonelada de CO₂ por tonelada produzida, principalmente via altos-fornos a carvão, criando demanda por rotas de descarbonização como a redução direta com hidrogênio verde.
- O Brasil possui reservas de minério de ferro de alto teor (acima de 65%) e matriz elétrica renovável com potencial técnico de 18,9 milhões de toneladas anuais de hidrogênio verde, especialmente no Nordeste.
- A integração entre mineração, hidrogênio verde e siderurgia de baixo carbono permite ao Brasil capturar maior valor agregado, gerar empregos industriais e competir globalmente, mas depende de marco legal, financiamento e infraestrutura portuária.
O setor de ferro e aço responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂, segundo o Relatório Steel Outlook 2025, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para cada tonelada de aço são emitidas, em média, 1,9 tonelada de CO₂.
A maior parte das emissões está associada à produção primária de aço por meio de altos-fornos que utilizam carvão metalúrgico como agente redutor do minério de ferro.
Nesse cenário, duas vantagens podem redefinir a posição do Brasil na indústria global do aço: grandes reservas de minério de ferro de alto teor e uma matriz elétrica majoritariamente renovável, capaz de viabilizar a produção competitiva de hidrogênio verde (H2V).
Na rota de redução direta do minério de ferro (DRI, na sigla em inglês), portanto, pode estar a substituição do carvão por gás natural ou mesmo por H2V. Em outras palavras, a combinação destes fatores abre caminho para integrar mineração, H2V e siderurgia de baixo carbono, conectando a extração mineral à descarbonização do aço (steelmaking).
Minérios com teores superiores a 65% de ferro são considerados mais adequados para a produção de ferro de redução direta, pois demandam menos energia no beneficiamento e geram menos impurezas no processo siderúrgico.
Potencial nacional

A viabilidade do H2V como agente redutor na produção de aço depende de energia elétrica renovável em larga escala e a preços competitivos. Nesse quesito, o Brasil tem vantagens estruturais, com matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis (hidrelétrica, eólica, solar e biomassa).
Estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostra que o Nordeste brasileiro concentra alguns dos melhores fatores de capacidade para geração eólica e solar do mundo, condição que pode reduzir o custo do hidrogênio produzido por eletrólise da água.
O levantamento aponta que o Brasil tem um potencial técnico de produção de H2V de 18,9 milhões de toneladas por ano, com participação de fontes renováveis como solar e eólica no cálculo dessa capacidade.
Estados como Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte vêm estruturando hubs portuários voltados à produção e exportação de H2V. O Complexo de Pecém, por exemplo, firmou memorandos de entendimento com empresas interessadas em produzir hidrogênio e derivados, como a amônia verde.
A competitividade do hidrogênio verde ganha escala quando combinada à oferta doméstica de minério adequado à redução direta. As reservas minerais brasileiras se destacam por possuírem minério de ferro com alto teor de pureza, especialmente nas províncias minerais de Carajás (Pará) e em algumas cidades do Quadrilátero Ferrífero (área de 7 mil km² que abrange as cidades mineiras de Ouro Preto, Mariana, Itabira e Sabará).
O diferencial estratégico brasileiro está nesta integração: o país tem a capacidade de produzir o minério com elevado teor de ferro, gerar H2V com energia renovável e atrair plantas de redução direta e siderurgia próximas aos portos ou às áreas de mineração.
Hoje, grande parte do minério brasileiro é exportada in natura, principalmente para a Ásia. Ao internalizar parte da cadeia — transformando minério em DRI ou aço verde — o país pode capturar maior valor agregado, gerar empregos industriais e reduzir a exposição às oscilações de preços das commodities.
A experiência internacional aponta para esse movimento. Na Europa, projetos-piloto vêm substituindo o carvão por hidrogênio na redução direta, apoiados por metas climáticas e por mecanismos como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia. A tendência é de que compradores globais passem a exigir aço com menor pegada de carbono.
Desafios

Apesar das condições estruturais, o Brasil enfrenta entraves regulatórios e de infraestrutura. A definição de um marco legal claro para o hidrogênio, incentivos de financiamento e garantias de demanda são os principais deles. Além disso, a produção de DRI exige minério com especificações técnicas rigorosas, o que pode demandar investimentos adicionais em beneficiamento e logística dedicada.
Outro ponto é o custo do capital. Países concorrentes, como Austrália e nações do Oriente Médio, também disputam a liderança na produção de hidrogênio verde e contam com políticas industriais agressivas e acesso facilitado a financiamentos.