Caminhão de mineração amarelo carregando ferro em uma pedreira
Foto: Parilov / Shutterstock

Mineração de ferro pode impulsionar mercado de hidrogênio verde no Brasil

Abundância do mineral de alta qualidade pode ajudar o país a se tornar hub global de hidrogênio verde

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 19/03/2026

Baixar PDF Copiar link
  • A indústria global de aço emite 1,9 tonelada de CO₂ por tonelada produzida, principalmente via altos-fornos a carvão, criando demanda por rotas de descarbonização como a redução direta com hidrogênio verde.
  • O Brasil possui reservas de minério de ferro de alto teor (acima de 65%) e matriz elétrica renovável com potencial técnico de 18,9 milhões de toneladas anuais de hidrogênio verde, especialmente no Nordeste.
  • A integração entre mineração, hidrogênio verde e siderurgia de baixo carbono permite ao Brasil capturar maior valor agregado, gerar empregos industriais e competir globalmente, mas depende de marco legal, financiamento e infraestrutura portuária.
Resumo revisado pela redação.

O setor de ferro e aço responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂, segundo o Relatório Steel Outlook 2025, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).  Para cada tonelada de aço são emitidas, em média, 1,9 tonelada de CO₂. 

A maior parte das emissões está associada à produção primária de aço por meio de altos-fornos que utilizam carvão metalúrgico como agente redutor do minério de ferro. 

Nesse cenário, duas vantagens podem redefinir a posição do Brasil na indústria global do aço: grandes reservas de minério de ferro de alto teor e uma matriz elétrica majoritariamente renovável, capaz de viabilizar a produção competitiva de hidrogênio verde (H2V). 

Na rota de redução direta do minério de ferro (DRI, na sigla em inglês), portanto, pode estar a substituição do carvão por gás natural ou mesmo por H2V. Em outras  palavras, a combinação destes fatores abre caminho para integrar mineração, H2V e siderurgia de baixo carbono, conectando a extração mineral à descarbonização do aço (steelmaking).

Minérios com teores superiores a 65% de ferro são considerados mais adequados para a produção de ferro de redução direta, pois demandam menos energia no beneficiamento e geram menos impurezas no processo siderúrgico.

Potencial nacional

Versões de frascos de vidro contendo amônia verde, representando pesquisa e sustentabilidade
Foto: Arpon Pongkasetkam / Shutterstock

A viabilidade do H2V como agente redutor na produção de aço depende de energia elétrica renovável em larga escala e a preços competitivos. Nesse quesito, o Brasil tem vantagens estruturais, com matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis (hidrelétrica, eólica, solar e biomassa).

Estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostra que o Nordeste brasileiro concentra alguns dos melhores fatores de capacidade para geração eólica e solar do mundo, condição que pode reduzir o custo do hidrogênio produzido por eletrólise da água. 

O levantamento aponta que o Brasil tem um potencial técnico de produção de H2V de 18,9 milhões de toneladas por ano, com participação de fontes renováveis como solar e eólica no cálculo dessa capacidade.

Estados como Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte vêm estruturando hubs portuários voltados à produção e exportação de H2V. O Complexo de Pecém, por exemplo, firmou memorandos de entendimento com empresas interessadas em produzir hidrogênio e derivados, como a amônia verde.

A competitividade do hidrogênio verde ganha escala quando combinada à oferta doméstica de minério adequado à redução direta. As reservas minerais brasileiras se destacam por possuírem minério de ferro com alto teor de pureza, especialmente nas províncias minerais de Carajás (Pará) e em algumas cidades do Quadrilátero Ferrífero (área de 7 mil km² que abrange as cidades mineiras de Ouro Preto, Mariana, Itabira e Sabará). 

O diferencial estratégico brasileiro está nesta integração: o país tem a capacidade de produzir o minério com elevado teor de ferro, gerar H2V com energia renovável e atrair plantas de redução direta e siderurgia próximas aos portos ou às áreas de mineração.

Hoje, grande parte do minério brasileiro é exportada in natura, principalmente para a Ásia. Ao internalizar parte da cadeia — transformando minério em DRI ou aço verde — o país pode capturar maior valor agregado, gerar empregos industriais e reduzir a exposição às oscilações de preços das commodities.

A experiência internacional aponta para esse movimento. Na Europa, projetos-piloto vêm substituindo o carvão por hidrogênio na redução direta, apoiados por metas climáticas e por mecanismos como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia. A tendência é de que compradores globais passem a exigir aço com menor pegada de carbono.

Desafios

Imagem de pequenas pedras de ferro com diferentes tonalidades de marrom e amarelo, utilizadas na construção
Foto: Warley Neves Soares / Shutterstock

Apesar das condições estruturais, o Brasil enfrenta entraves regulatórios e de infraestrutura. A definição de um marco legal claro para o hidrogênio, incentivos de financiamento e garantias de demanda são os principais deles. Além disso, a produção de DRI exige minério com especificações técnicas rigorosas, o que pode demandar investimentos adicionais em beneficiamento e logística dedicada.

Outro ponto é o custo do capital. Países concorrentes, como Austrália e nações do Oriente Médio, também disputam a liderança na produção de hidrogênio verde e contam com políticas industriais agressivas e acesso facilitado a financiamentos.

Dúvidas mais comuns

A mineração de ferro de alto teor pode impulsionar o hidrogênio verde através da integração da cadeia produtiva. O Brasil possui grandes reservas de minério de ferro com pureza superior a 65%, uma matriz elétrica majoritariamente renovável e potencial técnico de produção de 18,9 milhões de toneladas de H2V por ano. Ao combinar esses fatores, o país pode internalizar a cadeia de produção, transformando minério em ferro de redução direta (DRI) ou aço verde, capturando maior valor agregado e reduzindo a dependência de exportações de commodities.

Sim, o Brasil possui condições estruturais para produzir hidrogênio verde competitivamente. O país tem uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis, especialmente no Nordeste, que concentra alguns dos melhores fatores de capacidade para geração eólica e solar do mundo. Atualmente, existem 111 empreendimentos em curso no país com investimentos anunciados de R$ 454 bilhões, e estados como Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte estão estruturando hubs portuários voltados à produção e exportação de hidrogênio verde.

O Brasil tem um potencial técnico de produção de hidrogênio verde de 18,9 milhões de toneladas por ano, conforme estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Esse potencial é calculado considerando a participação de fontes renováveis como solar e eólica, especialmente concentradas no Nordeste brasileiro, que oferece condições ideais para reduzir o custo do hidrogênio produzido por eletrólise da água.

Minérios com teores superiores a 65% de ferro são mais adequados para a produção de ferro de redução direta porque demandam menos energia no beneficiamento e geram menos impurezas no processo siderúrgico. Essa característica reduz custos operacionais e melhora a eficiência da produção, tornando o aço verde mais competitivo economicamente quando combinado com hidrogênio verde como agente redutor.

Os principais desafios incluem a falta de um marco legal claro para o hidrogênio, insuficiência de incentivos de financiamento e garantias de demanda. Além disso, a produção de DRI exige investimentos adicionais em beneficiamento e logística dedicada, e o custo do capital é elevado. Países concorrentes como Austrália e nações do Oriente Médio possuem políticas industriais agressivas e acesso facilitado a financiamentos, criando competição acirrada pelo mercado global.

O setor de ferro e aço responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂, segundo a OCDE. Para cada tonelada de aço produzida são emitidas, em média, 1,9 tonelada de CO₂. A maior parte dessas emissões está associada à produção primária de aço por meio de altos-fornos que utilizam carvão metalúrgico como agente redutor do minério de ferro.

As principais reservas de minério de ferro de alto teor estão localizadas nas províncias minerais de Carajás, no Pará, e no Quadrilátero Ferrífero, uma área de 7 mil km² que abrange as cidades mineiras de Ouro Preto, Mariana, Itabira e Sabará. Essas regiões se destacam por possuírem minério de ferro com alto teor de pureza, essencial para a produção competitiva de ferro de redução direta.

Na Europa, projetos-piloto vêm substituindo o carvão por hidrogênio na redução direta, apoiados por metas climáticas e mecanismos como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia. A tendência global é que compradores passem a exigir aço com menor pegada de carbono, criando oportunidades para países como o Brasil que conseguirem produzir aço verde de forma competitiva.