- O setor mineral brasileiro apresentou na COP30 cinco compromissos climáticos quantificados, incluindo aumento de 15% em energia limpa e redução de 10% no consumo de água, com projeção de US$ 75 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos.
- Líderes de mineradoras como Vale e Anglo American defendem que a sustentabilidade se tornou central na estratégia de negócio, não acessória, exigindo financiamento, tecnologia e pessoas para acelerar a transição energética e a descarbonização.
- O Brasil busca consolidar cadeias de maior valor agregado em minerais críticos como lítio, demandando marcos regulatórios atualizados, combate à mineração ilegal e transparência de dados para conquistar licença social e exercer soberania geopolítica.
Executivos do setor mineral se reuniram hoje em um debate coordenado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) na COP30, em Belém. Em foco, uma agenda unificada para a mineração: assumir compromissos climáticos claros e, ao mesmo tempo, cobrar os marcos regulatórios necessários para posicionar o Brasil como líder na cadeia de minerais críticos.
Participaram do painel “Agenda de Implementação: Compromissos do Setor Mineral” a CEO da Anglo American no Brasil, Ana Sanches, a vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, Grazielle Parenti, a CEO Global da PLS, Dale Henderson, além de Fernando Azevedo, vice-presidente do Ibram, e Rinaldo Mancin, diretor de Sustentabilidade e Assuntos Associativos do instituto. Eles debateram sobre ações que unem metas ESG quantificadas, combate à mineração ilegal e um chamado à colaboração público-privada. O objetivo é claro: garantir a centralidade dos minerais na transição energética e na competitividade industrial do país.
O pacote climático: 5 compromissos centrais

O pilar da nova estratégia do setor brasileiro é um conjunto de cinco compromissos climáticos aprovados pelo Conselho do Ibram, detalhados por Fernando Azevedo e Rinaldo Mancin. Essas metas estão acopladas à agenda ESG da mineração, já estruturada em 12 pilares e 36 indicadores:
- Energia: Ampliar em 15% o uso de energia limpa e renovável.
- Água: Reduzir em 10% o ingresso de água nova, expandindo o reuso (no ferro, por exemplo, o índice já supera 85%).
- Biodiversidade: Incrementar em 10% os indicadores de “natureza positiva” nas áreas de influência.
- Adaptação Territorial: Financiar ações de resiliência climática em 30 municípios vulneráveis.
- Descarbonização: Acelerar tecnologias de baixa emissão, com foco em minerais críticos (como lítio) e ferro.

Para sustentar essa agenda, o setor projeta cerca de US$ 75 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos, direcionados à modernização operacional, novos empreendimentos e à própria transição energética.
Sustentabilidade como estratégia de negócio
A visão dos líderes é a de que a sustentabilidade deixou de ser acessória para se tornar central na estratégia de negócio. Ana Sanches, também presidente do Conselho do Ibram, foi enfática ao afirmar que a aceleração da transição depende de três vetores: financiamento, tecnologia e pessoas. Para ela, as metas ESG devem ser “não negociáveis” e integradas às decisões diárias.

Grazielle Parenti, da Vale, reforçou a necessidade de voltar ao tripé original da sustentabilidade (social, ambiental e econômico), associando a descarbonização a ganhos operacionais. Ela destacou o potencial do Brasil em combustíveis renováveis (etanol, biodiesel, hidrogênio) para abater emissões de escopo 1, especialmente em modais difíceis como ferrovias e navegação.

Inovação no lítio: da mina à calcinação elétrica
O australiano Dale Henderson, CEO da PLS, usou o lítio para ilustrar a inovação em curso, elogiando o Brasil como jurisdição de classe mundial. Ele descreveu duas frentes: a substituição de diesel por híbridos nos sites (tecnologia já madura) e o grande desafio da “calcinação elétrica” no processamento do lítio — a etapa mais intensiva em energia. Uma planta de demonstração para essa tecnologia pode alterar radicalmente as emissões e os custos da cadeia.

A fala de Henderson reforçou a necessidade estratégica de o Brasil consolidar cadeias de maior valor agregado, reduzindo a dependência global do processamento concentrado em poucos países.
O desafio da confiança: transparência e combate à ilegalidade
Para que essa agenda avance, o setor reconhece a urgência de reconquistar a confiança pública. Rinaldo Mancin, do Ibram, citou avanços em transparência, como a futura plataforma aberta para reportar os 36 indicadores setoriais.
Ana Sanches resumiu o sentimento ao afirmar que a “licença social para operar” é tão essencial quanto a segurança jurídica. Nesse ponto, os líderes foram unânimes em defender uma separação nítida entre a mineração formal, que opera sob conformidade, e a mineração ilegal. O setor propõe apoiar o Estado na fiscalização e no reforço legal para combater o garimpo.
Soberania, regulação e talentos
A geopolítica reposicionou a mineração no centro das discussões globais, como destacou Fernando Azevedo. Para que o Brasil exerça sua soberania em terras raras e outros minerais críticos, o Ibram defende a atualização de marcos regulatórios que deem previsibilidade e celeridade aos investimentos, sem reduzir o rigor técnico do licenciamento.
O ciclo se fecha com o impacto local e a qualificação de pessoas. A agenda de adaptação para 30 municípios busca “ir além dos muros” das operações. Paralelamente, a formação e retenção de talentos em engenharia de minas e sustentabilidade foram apontadas como condições essenciais para a competitividade futura.

O setor mineral brasileiro quer ser o alicerce da transição energética. Para isso, entende que precisa executar metas de descarbonização, investir em inovação e garantir o apoio do Estado e da sociedade, provando sua legitimidade com dados abertos e impacto local positivo.
*Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

