Locomotiva a diesel na Estrada de Ferro Vitória a Minas usando etanol, promovendo a descarbonização do transporte na mineração e mostrando inovação sustentável
Locomotiva da Wabtec na Estrada de Ferro Vitória a Minas (Foto: Cristiano Oliveira/ Vale)

Mineradoras têm ativos valiosos de infraestrutura para captar recursos

Monetização de ferrovias e energia pode liberar US$ 80 bilhões para investimentos das mineradoras, mostra Goldman Sachs

Por Redação, 5 min de leitura

Publicado em 01/04/2026 | Atualizado em 31/03/2026

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  • Mineradoras podem monetizar ativos de infraestrutura como ferrovias, portos e energia sem perder controle operacional, liberando até US$ 80 bilhões para investimentos conforme análise do Goldman Sachs.
  • Estruturas financeiras similares ao acordo entre BHP e Global Infrastructure Partners permitem que fundos especializados participem economicamente desses ativos, reduzindo custo de capital das mineradoras.
  • Disciplina na alocação de capital e eficiência logística tornaram-se fatores competitivos críticos no setor mineral, especialmente para financiar projetos de transição energética como mineração de cobre.
Resumo revisado pela redação.

A infraestrutura construída pelas grandes mineradoras ao longo de décadas começa a ganhar um novo papel estratégico no setor. Redes de ferrovias, portos e sistemas energéticos, tradicionalmente tratadas como parte operacional das minas, passam a ser vistas como ativos capazes de liberar capital e ampliar o acesso a financiamento.

Um relatório do Goldman Sachs estima que o maior aproveitamento desses ativos pode liberar até US$ 80 bilhões para investimentos, abrindo espaço para expansão de projetos, aquisições e retorno aos acionistas.

O movimento ocorre em um contexto no qual a disciplina de capital volta a ganhar peso nas decisões estratégicas das mineradoras. Com o aumento do custo de novos projetos, especialmente em minerais ligados à transição energética, como o cobre, a capacidade de financiar crescimento sem pressionar o balanço se torna um diferencial competitivo.

Valor dos ativos de infraestrutura das mineradoras

Segundo o estudo, seis das principais mineradoras globais concentram cerca de US$ 95 bilhões em ativos de infraestrutura, incluindo portos, ferrovias, usinas de energia e sistemas de água. Parte relevante desse montante pode ser monetizada sem que as empresas precisem vender ou perder o controle operacional dessas estruturas.

Usina entre montanhas arborizadas, ilustrando a operação de usinas de energia e sistemas de água.
Foto: lzf / Shutterstock

A estimativa é que até US$ 38 bilhões possam ser convertidos em capital por meio de estruturas financeiras que atraiam investidores de infraestrutura para participações econômicas nos ativos. O modelo transforma estruturas já amortizadas em fonte de financiamento de longo prazo.

Entre as empresas com maior potencial de destravar valor estão Rio Tinto e Vale. Em alguns casos, redes logísticas e energéticas representam até 20% do valor de mercado dessas companhias, o que indica espaço para valorização caso esses ativos sejam reestruturados financeiramente.

No segmento de minério de ferro, o banco calcula que apenas os sistemas logísticos de empresas como BHP, Rio Tinto, Vale, Fortescue e Anglo American poderiam liberar até US$ 25 bilhões em capital.

Conforme os analistas do banco de investimentos, ativos de infraestrutura adjacentes à atividade-fim, como sistemas de energia ou transporte das mineradoras costumam ser subavaliados pelo mercado em comparação aos de concessionárias ou empresas dedicadas exclusivamente a logística. Ao atrair fundos especializados para participações nesses ativos, as mineradoras podem reduzir o custo de capital, melhorar indicadores de retorno e reforçar sua avaliação no mercado.

Um exemplo citado pelos analistas é o acordo firmado entre a BHP e o fundo Global Infrastructure Partners. Na operação, a mineradora recebeu cerca de US$ 2 bilhões ao transferir 49% da participação econômica em sua rede de energia no Pilbara, Austrália.

A companhia manteve o controle operacional do sistema, enquanto o investidor passou a receber uma remuneração previsível e indexada à inflação. Estruturas semelhantes, comparáveis a contratos de longo prazo, podem ser replicadas em portos e ferrovias, ampliando as fontes de financiamento do setor.

Operação do porto de Vitória com grandes navios, armazéns industriais e vista panorâmica da cidade e montanhas ao horizonte.
Foto: Vale

A estratégia de maior disciplina na alocação de capital também aparece na avaliação de mercado sobre as mineradoras. No final de janeiro, o Goldman Sachs reiterou recomendação de compra para as ações da Vale, estimando potencial de valorização de cerca de 6% para os ADRs da companhia. Além da estratégia de capital, a  análise considera fatores como desempenho operacional e evolução do portfólio de commodities da empresa, em linha com a estratégia de disciplina de capital. 

Logística como fator de competitividade

A eficiência logística é um dos fatores que sustentam a competitividade do setor mineral e das cadeias de commodities. Nesse contexto, a expansão de ferrovias e portos continua sendo decisiva para reduzir custos e aumentar a previsibilidade das operações.

Reportagem do Radar Mineração, publicada em dezembro passado, mostra como a infraestrutura logística de escoamento torna o Brasil competitivo na geopolítica do minério de ferro. O material também detalha estratégias de transporte marítimo capaz de reduzir pela metade o tempo de traslado da commodity para a China (leia a íntegra).

Já uma reportagem do Globo Rural sobre logística nas regiões Centro-Oeste e Norte, menciona o porto de Itaqui, no Maranhão, que se diferencia por receber cargas transportadas por duas ferrovias, a Transnordestina e a Estrada de Ferro Carajás. Nessa matéria, é explicado que o uso intensivo do modal ferroviário reduz a dependência de caminhões e melhora a eficiência do escoamento. Afinal, um único trem pode transportar o equivalente à carga de 150 caminhões, o que contribui para diminuir congestionamentos nas estradas, reduzir emissões e melhorar a segurança logística.

O Porto do Itaqui localizado na cidade de São Luis
Porto do Itaqui localizado na cidade de São Luis (Foto: Valdemar Medeiros / Wikipedia)

A operação também aumenta a capacidade de movimentação do porto. O complexo do Itaqui movimentou mais de 13 milhões de toneladas de soja e milho, sendo cerca de 40% desse volume transportado por trilhos. A maior previsibilidade do transporte ferroviário reduz gargalos típicos do transporte rodoviário em períodos de pico de safra, quando filas de caminhões e atrasos elevam custos logísticos.

Investimentos confirmam tendência

O fortalecimento da infraestrutura logística também se reflete em novos projetos no país. A holding Cedro Participações anunciou um plano de R$ 5 bilhões em investimentos em logística até 2031, incluindo projetos ferroviários, portuários e uma planta industrial em Minas Gerais. Entre as iniciativas está a implantação da Shortline Serra Azul, ferrovia de curta distância que deve retirar cerca de 5 mil carretas por dia da BR-381, além do desenvolvimento de um terminal portuário privado em Itaguaí.

Os investimentos reforçam a avaliação de que a infraestrutura logística passou a ser um ativo primordial para a competitividade na mineração ao reduzir custos de transporte, aumentar eficiência operacional e ampliar a capacidade de exportação.

Eficiência operacional e sustentabilidade influenciam financiamento

A agenda ambiental também influencia diretamente o acesso a financiamento de infraestrutura.  Prova disso é que o governo federal decidiu condicionar a emissão de debêntures incentivadas para projetos ferroviários à comprovação de práticas ambientais estruturadas.

A medida foi definida pelo Ministério dos Transportes e pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e exige que concessionárias que pretendam captar recursos por meio desses títulos comprovem adesão ao Programa de Sustentabilidade para Infraestrutura (PSI). Na prática, empresas que buscarem esse tipo de financiamento precisarão demonstrar políticas ambientais organizadas e apresentar relatórios auditados por verificadores independentes.

Como as debêntures incentivadas são hoje um dos principais instrumentos de financiamento de obras no país, tendo movimentado cerca de R$ 178 bilhões em 2025, a exigência reforça a conexão entre sustentabilidade, acesso a capital e competitividade no setor de infraestrutura.

Nesse cenário, ganhos de eficiência logística, melhor gestão de ativos e compromissos ambientais passam a atuar de forma combinada, criando condições mais favoráveis para investimento e valorização das mineradoras ao longo do ciclo.

Dúvidas mais comuns

As mineradoras podem monetizar ativos como ferrovias, portos e sistemas energéticos através de estruturas financeiras que atraem investidores especializados em infraestrutura. Um exemplo é o acordo entre BHP e Global Infrastructure Partners, no qual a mineradora recebeu US$ 2 bilhões ao transferir 49% da participação econômica em sua rede de energia, mantendo o controle operacional. Essas estruturas funcionam como contratos de longo prazo com remuneração previsível indexada à inflação, podendo ser replicadas em outros ativos.

Segundo relatório do Goldman Sachs, o maior aproveitamento dos ativos de infraestrutura das mineradoras pode liberar até US$ 80 bilhões para investimentos. Especificamente, estima-se que US$ 38 bilhões possam ser convertidos em capital através de estruturas financeiras, enquanto apenas os sistemas logísticos de empresas como BHP, Rio Tinto, Vale, Fortescue e Anglo American poderiam liberar até US$ 25 bilhões no segmento de minério de ferro.

A infraestrutura logística reduz custos de transporte, aumenta a eficiência operacional e amplia a capacidade de exportação. Um único trem pode transportar o equivalente a 150 caminhões, reduzindo congestionamentos, emissões e melhorando a segurança. Além disso, o transporte ferroviário oferece maior previsibilidade, reduzindo gargalos típicos do transporte rodoviário em períodos de pico, o que diminui custos logísticos e melhora a competitividade no mercado global.

Segundo o estudo do Goldman Sachs, seis das principais mineradoras globais concentram cerca de US$ 95 bilhões em ativos de infraestrutura, incluindo portos, ferrovias, usinas de energia e sistemas de água. Em alguns casos, essas redes logísticas e energéticas representam até 20% do valor de mercado dessas companhias, indicando significativo espaço para valorização caso esses ativos sejam reestruturados financeiramente.

O governo federal condicionou a emissão de debêntures incentivadas para projetos ferroviários à comprovação de práticas ambientais estruturadas. As empresas que buscam esse tipo de financiamento precisam demonstrar adesão ao Programa de Sustentabilidade para Infraestrutura (PSI) e apresentar relatórios auditados por verificadores independentes. Como as debêntures incentivadas movimentaram cerca de R$ 178 bilhões em 2025, essa exigência reforça a conexão entre sustentabilidade, acesso a capital e competitividade no setor.

Rio Tinto e Vale estão entre as empresas com maior potencial para destravar valor através de seus ativos de infraestrutura. Essas companhias possuem redes logísticas e energéticas que representam parcela significativa de seu valor de mercado, criando oportunidades para reestruturação financeira e atração de investidores especializados em infraestrutura.

A disciplina de capital ganhou peso nas decisões estratégicas das mineradoras devido ao aumento do custo de novos projetos, especialmente em minerais ligados à transição energética como o cobre. A monetização de ativos de infraestrutura permite que as empresas financiem crescimento sem pressionar o balanço, reduzindo o custo de capital e melhorando indicadores de retorno, o que reforça sua avaliação no mercado.

A holding Cedro Participações anunciou um plano de R$ 5 bilhões em investimentos em logística até 2031, incluindo projetos ferroviários, portuários e uma planta industrial em Minas Gerais. Entre as iniciativas está a implantação da Shortline Serra Azul, ferrovia de curta distância que deve retirar cerca de 5 mil carretas por dia da BR-381, além do desenvolvimento de um terminal portuário privado em Itaguaí.