Da esquerda para a direita: Sarah Clegg, Benjamin Gallezot, Helen Belgrave, Matthew Lowe e Sophie Davies
Da esquerda para a direita: Sarah Clegg, Benjamin Gallezot, Helen Belgrave, Matthew Lowe e Sophie Davies (Foto: Vale)

Potências globais apontam Brasil como parceiro estratégico em minerais críticos

Representantes de Estados Unidos, França, Canadá e Austrália destacam o potencial brasileiro para além da extração, cobram segurança regulatória e oferecem cooperação para o refino local.

Por Viviane Kulczynski*, 3 min de leitura

Publicado em 26/08/2026

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Em um cenário geopolítico marcado pela urgência da transição energética e pela necessidade de diversificar as cadeias de suprimento, o Brasil se consolida como um ator indispensável no mercado global de minerais críticos. Essa foi a principal conclusão do painel “A visão estratégica dos países para os minerais e materiais críticos”, realizado no segundo dia da Exposibram 2026, em Belo Horizonte.

A discussão foi moderada por Sarah Clegg, representante sênior para Minerais Críticos na Embaixada do Reino Unido, e evidenciou um “forte alinhamento” entre as nações ocidentais na avaliação dos participantes: o mundo não busca apenas garantir matéria-prima, mas desenvolver cadeias de valor resilientes e alinhadas aos padrões ESG. Com uma matriz energética limpa — vantagem competitiva mencionada no evento por Rohitesh Dhawan, presidente do ICMM —, o Brasil desponta como o parceiro ideal para essa nova era.

O papel dos Estados Unidos e os alertas regulatórios

Matthew Lowe, conselheiro econômico da Embaixada dos Estados Unidos, detalhou o esforço norte-americano para diversificar fornecedores de maneira segura e fortalecer nações aliadas. Segundo ele, a visão americana para o mercado brasileiro é abrangente.

Um homem de terno azul e gravata está sentado, segurando alguns papéis e usando fones de ouvido pretos grandes, em frente a uma tela colorida.

Os Estados Unidos apoiam uma cadeia de suprimentos completa no Brasil para minerais críticos”

Lowe citou o envolvimento de agências de fomento, como a Corporação Financeira para o Desenvolvimento Internacional (DFC), mas expressou ressalvas sobre o marco regulatório em discussão no Senado brasileiro. “Preocupa-me que o projeto de lei não tenha incentivos suficientes e, na verdade, tenha desincentivos”, alertou. O conselheiro destacou ainda que um eventual mecanismo de triagem de investimentos, se não for “apolítico, previsível e transparente”, pode inibir a entrada de capital produtivo no país.

A aposta francesa na transferência de tecnologia

Pela França, o foco absoluto está na agregação de valor. Benjamin Gallezot, delegado interministerial para o Abastecimento de Minerais e Metais Estratégicos no gabinete do Primeiro-Ministro francês, Sébastien Lecornu, explicou que o objetivo do país passa longe da simples importação. “O que precisamos em nossa estratégia de minerais críticos é desenvolver novas fontes de metais para o mercado”, declarou.

Avaliando os “fortes ativos” do parque industrial brasileiro, Gallezot detalhou a proposta de transferir tecnologia de ponta para o refino de terras raras, mercado que a França domina desde 1948. “Estamos propondo a transferência de tecnologia para empresas brasileiras para refiná-los aqui no Brasil. É uma situação ganha-ganha”, explicou. O delegado fez questão de desmistificar o processo de industrialização local: “Não há nada mágico no processo. A transferência de tecnologia não é um grande problema”, garantindo que a descentralização do refino é “totalmente realista no Brasil”.

O modelo canadense e a previsibilidade

Helen Belgrave, cônsul-geral interina do Canadá no Rio de Janeiro, ressaltou que as duas nações possuem “objetivos muito similares” na construção de cadeias robustas e defendeu que, diante de uma demanda global explosiva, a colaboração supera a concorrência. “O desafio é como fazer isso juntos”, pontuou.

Com um histórico de investimentos de cerca de US$ 3 bilhões no setor mineral brasileiro até 2025, o Canadá agora foca em programas de formação com universidades para apoiar a gestão de projetos no Brasil. Belgrave, no entanto, deixou um recado claro sobre o que determina o destino do capital internacional na mineração: “Se você quer ser uma nação que atrai investimentos, precisa manter o ambiente estável e previsível a longo prazo”.

Austrália: presença maciça e cooperação inevitável

Tratando os minerais críticos como “ativos estratégicos”, Sophie Davies, embaixadora da Austrália no Brasil, destacou que as políticas públicas australianas miram resultados estruturais. “Não queremos apenas ser rápidos, queremos ser duradouros”, afirmou, traçando um forte paralelo entre a vocação mineral de ambos os países:

Uma mulher de cabelos cacheados, usando fones de ouvido e um blazer claro por cima de um vestido estampado, está sentada com as mãos cruzadas no colo. Uma tela colorida e um código QR são visíveis ao fundo.

Vemos o Brasil e a Austrália como muito importantes para o setor.”

Davies revelou que mais de 90 empresas australianas já operam no território brasileiro. “A cada semana ouço falar de outro investidor australiano chegando. E esses mineradores, eles se sentem realmente em casa aqui”, comentou a embaixadora. Ela reforçou ainda que parcerias tecnológicas conjuntas, como as lideradas pela agência nacional de ciência da Austrália (CSIRO) com o Brasil, são a única saída para mitigar vulnerabilidades globais: “Nenhum país pode resolver este problema sozinho”.

A janela de oportunidade

​A mensagem deixada pelas potências globais na Exposibram deste ano é inequívoca: a era da simples extração ficou para trás. O Brasil tem diante de si a oportunidade de absorver tecnologias de refino, integrar-se em cadeias de altíssimo valor agregado e atrair capital de longo prazo. O desafio, agora, é garantir a segurança regulatória necessária para transformar esses diálogos diplomáticos em projetos industriais reais e escaláveis.