- O Mining Hub consolidou um ecossistema de inovação aberta na mineração brasileira com 25 mineradoras associadas, 2.000 startups inscritas e 160 provas de conceito realizadas desde 2019.
- O modelo operacional funciona identificando problemas aplicados das mineradoras, selecionando startups com capacidade técnica e desenvolvendo POCs em seis verticais estratégicas: eficiência operacional, descarbonização, gestão de resíduos, saúde, água e desenvolvimento social.
- A propriedade intelectual permanece 100% com as startups, permitindo que soluções validadas sejam replicadas entre mineradoras-membros e gerando entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões em negócios com impacto em sustentabilidade e responsabilidade socioambiental.
Desde a sua criação, o Mining Hub consolidou-se como um dos principais espaços de inovação aberta no setor mineral, transformando desafios em oportunidades reais de negócio. Ao longo dos últimos anos, já foram mapeados mais de 1.300 desafios (400 amadurecidos) e realizadas mais de 160 provas de conceito (POCs), envolvendo cerca de 2.000 startups inscritas.
A rede conta hoje com 25 mineradoras associadas e 26 parceiros, formando um ecossistema que já promoveu mais de 2.800 conexões de negócios e conectou aproximadamente 400 players do setor. Os impactos dessa atuação são visíveis: dezenas de startups contratadas, mais de 150 eventos promovidos, 800 horas de mentoria realizadas e R$ 150 milhões a R$ 300 milhões em negócios gerados.
O primeiro hub de inovação da mineração no Brasil nasceu em 2019, criado e gerido pelas empresas do setor. Para Leandro Rossi, diretor-executivo da instituição, o Mining Hub é uma iniciativa privada, mas o objetivo não é criar e vender produtos ou serviços e, sim, buscar as melhores soluções para o setor.
Como um hub exclusivo, ele tem uma agenda estratégica de longo prazo, como Rossi explica nesta entrevista. “Buscamos o pragmatismo, razão pela qual temos de fazer conexões reais e negócios acontecerem, pois só assim há sustentação de valor”, define o especialista. Acompanhe a conversa de Leandro Rossi com o Radar Mineração:

Como o Mining Hub desenvolve e orquestra os projetos?
Partimos de um problema aplicado. O problema real é fundamental. Pegamos as mineradoras, selecionamos esses principais problemas e priorizamos os tipos de verticais em que vamos atuar, de acordo com o que é definido pelo conselho das mineradoras. As mineradoras trazem esses problemas, nós selecionamos, organizamos e vamos ao mercado buscar solução por meio de startups. Buscamos as startups via edital ou através de pesquisas da nossa equipe. Uma vez selecionada, a startup não precisa ter uma solução pronta, mas sim capacidade ou potencial para resolver o problema. Com cerca de dez startups que apresentam essa capacidade, desenvolvemos uma prova de conceito (POC). A partir daí, o desafio muda para tentar escalar essa solução se ela for minimamente viável. Como o hub é de inovação aberta, uma solução desenvolvida para uma mineradora pode ser usada por outras. Atualmente, o Mining Hub já contabiliza mais de 160 POCs realizadas, muitas delas replicadas entre mineradoras associadas, fortalecendo o modelo colaborativo.
Você poderia falar um pouco mais sobre essas verticais?
A atuação por verticais facilita muito e aproveita a capacidade de colaboração e cooperação do nosso setor. Nós evitamos dois extremos. O primeiro são os assuntos sensíveis e estratégicos, tratados internamente pelas mineradoras. Não queremos esses assuntos aqui devido a razões concorrenciais. O segundo são os assuntos rotineiros e simples. Esses também não queremos. Onde a inovação aberta prospera é no intervalo entre esses dois extremos. Temos problemas que não são tão simples, mas que não são sensíveis e estratégicos, abrindo uma área de grande colaboração e cooperação.
Quais são as verticais de trabalho?
Eficiência operacional e inteligência operacional, descarbonização e transição energética, gestão de resíduos e rejeitos (circularidade), saúde e segurança operacional, gestão de água e desenvolvimento social e local. No caso do desenvolvimento social, o fato de a mina estar ligada a um território, torna o tema muito importante. A lógica do Mining Hub é usar a lente da inovação para colaborar na resolução de problemas socioeconômicos e ambientais, muitas vezes já conhecidos, mas de uma maneira diferente. Isso ajuda a mineração a conseguir sua licença social. Essas temáticas compõem a base de programas como o M-Start — que já mapeou mais de 730 desafios comuns — e o M-Spot, que lançou mais de 280 desafios personalizados para mineradoras e fornecedores.
Como você resume o modelo operacional do Mining Hub?
Temos quatro “avenidas”de atuação e a desenvolvimentista é a primeira, considerando que a mineradora (o grande) desenvolve com as startups (o pequeno) problemas aplicados. A segunda é a da agenda de impacto social, que foca em como a inovação trabalha problemas dos territórios, também desenvolvendo soluções com startups. A esteira de escala é a terceira avenida, uma vez que desenvolvemos algo, precisamos fazer isso crescer. Já os problemas de alta capacidade formam a quarta avenida. Não resolvemos esses problemas apenas com uma mineradora e uma startup. Temos de trabalhar em arranjos e formatos diferentes. Nos programas de descarbonização e circularidade (rejeitos), por exemplo, envolvemos 11 mineradoras e fornecedores, centros de pesquisa internacionais e centros do Brasil. Quebramos essa complexidade, e depois podemos direcionar alguns deles para as startups atuarem. Esses arranjos colaborativos reforçam o caráter global do hub, que já recebeu inscrições de startups de 17 países diferentes.
Você pode falar de projetos que impactaram a comunidade?
A mineração responsável — e não estou falando de garimpo ilegal, que condenamos veementemente — lida com uma narrativa forte, mas temos muitos exemplos éticos e de responsabilidade socioambiental. Um dos problemas trazidos pelos territórios era a coleta seletiva e reciclagem. Inicialmente, parecia um problema de organização, não de inovação. Mas começamos a provocar o problema, e uma startup desenvolveu um sistema de bancarização da coleta de reciclagem. Funciona assim: a mineradora é uma grande geradora de material reciclável. Para cada performance de reciclagem que o catador apresenta (1 kg ou 1 tonelada, por exemplo), a mineradora adiciona uma contribuição equivalente. Isso é usado por meio de um cartão de crédito que o catador pode consumir no comércio local. Isso sim é inovação, pois transforma um problema conhecido.
Outro trabalho de impacto envolveu o uso de água para a comunidade, conseguindo uma cobertura de acima de 90% por meio de uma tecnologia de outra startup que gerencia a captação e o manejo. Os problemas dos territórios da mineração se repetem, então, quando temos soluções sincronizadas e compartilhamos boas táticas, elas se replicam, criando uma corrente de boas iniciativas. Projetos como esses compõem o portfólio de mais de 150 ações e eventos já realizados pelo Mining Hub, fortalecendo sua agenda de impacto social e sustentabilidade.
Como o hub enxerga a gestão de água na mineração?
A mineração no Brasil é diferente de países secos como Chile e Austrália, pois temos regiões com excesso e outras com falta de água. O setor trabalha muito com o circuito fechado de produção, onde a água é reciclada e reutilizada no processo. A gestão da água de processo melhora a cada dia e buscamos reduzir a necessidade do que chamamos de “água nova”. Além disso, o setor tem um cuidado com o balanço hídrico nas comunidades onde está inserido. A inovação busca soluções de baixo consumo. Um grande fator de mudança foi a transição para o empilhamento a seco por causa de acidentes e tragédias, o que retira ainda mais água do processo. O debate constante é se será possível ter processos tão sustentáveis que possamos eliminar o uso de água. Acreditamos que sim.
Falando de startups na mineração, de onde elas vêm?
O Mining Hub estimula startups nacional e internacionalmente. Somos um hub global, fomos o primeiro e maior hub de inovação aberta do mundo no setor. Já tivemos startups de quase 17 países enviando soluções. Nossa relação com a startup é aberta e ela não precisa ser cadastrada ou conhecer ninguém: basta ter capacidade técnica para propor uma solução. Passamos para uma fase de imersão onde a mineradora e a startup se entrevistam diretamente. Também incentivamos startups que já são experientes em outros setores, mas que nunca trabalharam na mineração. O processo de prova de conceito é essencial para que elas demonstrem que a solução é viável para a mineração, dando-lhes a oportunidade de entrar no mercado. O conceito de inovação aberta significa que aceitamos capacidade de onde ela vier. Desde 2019, o hub já conectou mais de 2.800 negócios e validou dezenas de POCs, transformando o Brasil em referência internacional de inovação no setor mineral.

Como é a estrutura de inovação nas mineradoras?
No hub, temos diferentes níveis de maturidade de inovação. As empresas com maior apetite a risco, orçamento e estrutura são aquelas que mais puxam a inovação. As outras mineradoras têm capacidade de implementar e replicar aquilo que as mais estruturadas desenvolvem, depois que o risco foi minimizado. É uma relação ganha-ganha. A estrutura da mineradora tem de responder à sua maturidade. Não existe certo ou errado. O importante é que a inovação não pode ser controlada ou “infantilizada”: ela tem de conversar com o C-level, com o alto comando e a estratégia da empresa. O sucesso depende de se ter um modelo operacional vencedor, o engajamento das pessoas certas das equipes internas e o apoio da camada estratégica da empresa. Ter ou não uma diretoria de inovação não garante o sucesso. O que importa é que ela funcione, alinhada à estratégia.
As startups podem trabalhar em mais de um projeto?
O ideal é que a startup tenha um único projeto por vez, para não dissipar sua energia e foco. No entanto, a mesma dor ou desafio pode ser conduzido com mais de uma mineradora. Se a startup validar a tecnologia com uma mineradora, o desafio depois é replicar.
Como funciona o compartilhamento de projetos bem-sucedidos e a propriedade intelectual?
O conceito fundamental é que a propriedade intelectual tem de ficar 100% nas mãos do empreendedor, da startup. Temos um modelo operacional e um contrato de membro único aprovado por todos que condiciona que o grande (a mineradora) não pode comprar o pequeno (a startup) durante os ciclos de desenvolvimento, pois isso fecharia a inovação. E mais: a propriedade intelectual é da startup para que ela possa crescer.
O setor da mineração tem uma visão diferente de setores como as fintechs (startups da área financeira). Ele prefere que a startup ganhe musculatura e prove a viabilidade, mesmo que pague um pouco mais caro na frente. Em termos de compartilhamento, tudo é bem resolvido. Durante o período de cinco meses da prova de conceito, qualquer mineradora-membro pode acompanhar o que está acontecendo. Fazemos pontos de encontro frequentes para revisar o desenvolvimento. Além disso, se um problema já foi resolvido por uma empresa, organizamos benchmarking e troca de aprendizado para que outras não precisem refazer todo o ciclo de desenvolvimento.
O que está no radar do Mining Hub atualmente?
A mineração nunca foi tão falada e desejada globalmente. Ela está no centro da discussão geopolítica e dos fluxos financeiros globais, pois não há como fazer muita coisa sem ela. Temos de usar isso para nos posicionarmos cada vez melhor. As principais demandas e prioridades atuais estão na busca por eficiência e digitalização operacional, entre eles os modelos que utilizam inteligência artificial para aumentar a eficiência. Outro ponto é a circularidade e transição energética, com foco em como a mineração se descarboniza e, sendo um setor de base no início da cadeia, como ela ajuda a economia na transição. A segurança e autonomia de operação também estão na lista, assim como a gestão de água, com bons processos, cada vez mais seguros.
Ou seja, o ESG e a sustentabilidade fazem parte do processo…
A questão ESG não é mais um item separado de prioridade, pois tem de estar contida em todos os itens. Assim como a inovação, ela não é uma disciplina, mas sim um estilo e uma maneira de operar que deve ser incorporada para chegarmos à mineração do futuro. O setor deve operar com responsabilidade, sustentabilidade e atenção à comunidade. Onde há mineração responsável, os indicadores de crescimento e IDH dos municípios são sempre positivos. Essa mentalidade está presente em todas as 2.800 conexões já promovidas pelo hub, que segue impulsionando a mineração brasileira rumo a um modelo mais sustentável, colaborativo e global.