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Da esquerda para a direita: Juliana Borges de Lima Falcão, Cristiano Weber, Julevania Alves e Vivian Mac Knight. Especialistas em painel do evento Exposibram 2025 discutindo sobre crise climática e mineração sustentável
Da esquerda para a direita: Juliana Borges de Lima Falcão, Cristiano Weber, Julevania Alves e Vivian Mac Knight (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

No enfrentamento à crise climática, soluções passam por adaptação, inovação e recursos de PPPs

Setor mineral enfrenta os efeitos da crise climática com soluções baseadas em descarbonização e parcerias para garantir resiliência e sustentabilidade

Por Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 30/10/2025

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As imagens da Mina Arroio dos Ratos, na cidade de mesmo nome, no Rio Grande do Sul, completamente submersa pelas águas que devastaram o estado em 2024, são o retrato contundente de uma nova realidade. O que antes era discutido em planilhas de risco e modelos climáticos tornou-se um desastre operacional. “A nossa mina está entre o rio e a cidade. O dique de proteção rompeu com a onda de cheias e toda a área foi alagada”, detalhou Cristiano Weber, diretor de sustentabilidade da Copelmi.

Cristiano Weber em painel do evento Exposibram 2025 discutindo sobre crise climática e mineração sustentável
Cristiano Weber (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

O evento extremo, que se repetiu após uma enchente severa em 2023, materializa os “riscos físicos” que colocam a indústria de mineração brasileira em uma encruzilhada. Pressionado pela intensificação de desastres climáticos e, ao mesmo tempo, pela demanda global por descarbonização, o setor se vê forçado a se reinventar em uma corrida contra o tempo.

O paradoxo da transição energética

Em um cenário de urgência climática, a mineração, historicamente associada a altos impactos ambientais, se reposiciona como peça-chave. “A mineração nunca foi tão essencial do ponto de vista de mudança de processo como nesse momento, pensando em transição energética”, afirmou Julevania Alves, diretora do Ministério de Minas e Energia (MME).

Julevania Alves
Julevania Alves (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

A lógica é que a descarbonização global depende de minerais estratégicos que o Brasil tem em abundância — como lítio, níquel, grafite e terras raras —, cuja demanda pode se multiplicar em até seis vezes até 2040. Segundo Alves, com uma contribuição de apenas 0,55% das emissões do país, a mineração brasileira pode ser “uma solução”, desde que siga um novo paradigma. “A gente não pode fazer mais do mesmo. Essa mineração dos novos tempos não permite erro.”

Para fomentar essa transformação, o governo federal desenvolve políticas como as Debêntures Incentivadas, para projetos sustentáveis, a Taxonomia Sustentável Brasileira, para atrair investimentos, e as Diretrizes para Mineração Brasileira Sustentável, um guia de boas práticas.

 A revolução passa por descarbonização e inovação

Enquanto o governo desenha o arcabouço, as empresas correm para transformar diretrizes em ação. A Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, estabeleceu a meta de reduzir em 33% suas emissões diretas (escopo 1 e 2) até 2030. “Estamos falando em substituir principalmente o diesel que usamos nas minas e ferrovias”, explicou Vivian Mac Knight, gerente de Mudanças Climáticas da companhia. A aposta de curto prazo são os biocombustíveis, uma solução “drop-in” que não exige troca de frota. Para o futuro, a empresa projeta a construção de “Mega Hubs” para ajudar a siderurgia global a migrar para rotas de produção de baixo carbono.

Vivian Mac Knight
Vivian Mac Knight (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Essa transição também força uma revolução na governança. A Vale foi pioneira ao integrar os riscos climáticos em seu balanço financeiro, seguindo as novas normas internacionais, que serão obrigatórias a partir de 2027. “Foi uma experiência transformadora”, relatou Mac Knight. O desafio foi traduzir a ciência do clima para a linguagem contábil e garantir um nível de auditoria dos dados de emissões tão rigoroso quanto o dos dados financeiros.

A inovação também floresce onde o desafio é maior. Pressionado pela inviabilidade de financiar projetos de queima de carvão, Cristiano Weber detalha uma alternativa: usar o linhito, um carvão rico em matéria orgânica, para produzir fertilizantes organominerais. “O projeto promete manter empregos e reduziria as emissões em um volume equivalente a 15 mil veículos a menos nas ruas”, calcula.

Na gestão hídrica, a engenhosidade também aparece. Weber descreve como sua planta evita a geração de drenagem ácida, um dos maiores passivos da mineração, ao cobrir o rejeito com camadas de material alcalino e seco. “Com isso, nossa estação de tratamento é passiva”, explicou.

Adaptação requer financiamento e ação coletiva

Apesar dos avanços, a adaptação a eventos extremos continua sendo o maior obstáculo. O problema é justificar investimentos vultosos para mitigar um risco incerto e de longo prazo. “Pragmaticamente, o sujeito [da controladoria] vai dizer: ‘mas eu vou colocar meu dinheiro aqui?'”, apontou Weber.

A lição do Muro da Mauá, em Porto Alegre — uma obra de contenção que falhou por falta de manutenção —, mostra que a adaptação não pode sair da pauta e deve estar sob constante vigilância. Para a mina inundada no Sul, a Copelmi estuda, por exemplo, a construção de mais um canal fluvial, projeto que protegeria a operação e a cidade no entorno. “Um investimento num canal desse deve ser gigantesco. Ele não é um investimento só para a operação, é um investimento para a região”, ponderou Vivian Mac Knight. A conclusão, então, é unânime: a solução para problemas dessa escala exige parcerias público-privadas. Fontes de fomento como o Fundo Clima e o BNDES existem, mas é preciso articular projetos que gerem valor compartilhado, como no caso de Arroio dos Ratos (RS).

Com a COP30 se aproximando, o Brasil tem a oportunidade de liderar essa discussão. O futuro da mineração dependerá da capacidade do setor e do governo de transformar a urgência em prioridade, construindo um modelo de negócio que seja não apenas lucrativo, mas, acima de tudo, resiliente.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A mineração brasileira é essencial para a transição energética global, pois o país possui abundância de minerais estratégicos como lítio, níquel, grafite e terras raras, cuja demanda pode se multiplicar até seis vezes até 2040. Com apenas 0,55% das emissões do país, a mineração brasileira pode ser uma solução para a descarbonização global, desde que siga um novo paradigma de sustentabilidade e inovação.

A mineração causa impactos ambientais significativos, incluindo poluição dos recursos hídricos, poluição do ar, poluição sonora e descaracterização do solo. Um dos maiores passivos da mineração é a geração de drenagem ácida, que ocorre quando o rejeito não é adequadamente tratado. Eventos climáticos extremos também representam riscos físicos crescentes, como demonstrado pela inundação da Mina Arroio dos Ratos no Rio Grande do Sul em 2024.

A Vale estabeleceu a meta de reduzir em 33% suas emissões diretas (escopo 1 e 2) até 2030. A estratégia de curto prazo envolve a substituição do diesel usado em minas e ferrovias por biocombustíveis, uma solução 'drop-in' que não exige troca de frota. Para o futuro, a empresa projeta a construção de 'Mega Hubs' para ajudar a siderurgia global a migrar para rotas de produção de baixo carbono.

A inovação está transformando a mineração através de soluções criativas como o uso de linhito para produzir fertilizantes organominerais, reduzindo emissões equivalentes a 15 mil veículos a menos nas ruas. Na gestão hídrica, empresas estão evitando a drenagem ácida ao cobrir rejeitos com camadas de material alcalino e seco, criando estações de tratamento passivas. Além disso, a integração de riscos climáticos nos balanços financeiros segue novas normas internacionais que serão obrigatórias a partir de 2027.

As parcerias público-privadas são fundamentais porque a adaptação a eventos extremos exige investimentos vultosos que dificilmente uma empresa consegue justificar isoladamente. Projetos como a construção de canais fluviais para proteger operações e cidades geram valor compartilhado e beneficiam toda a região. Fontes de fomento como o Fundo Clima e o BNDES existem, mas precisam ser articuladas através de parcerias que transformem a urgência climática em prioridade coletiva.

Os eventos climáticos extremos causaram desastres operacionais significativos, como a inundação da Mina Arroio dos Ratos no Rio Grande do Sul em 2024, onde o dique de proteção rompeu com a onda de cheias. Este evento, que se repetiu após uma enchente severa em 2023, materializou os 'riscos físicos' que colocam a indústria de mineração brasileira em uma encruzilhada, forçando o setor a se reinventar em uma corrida contra o tempo.

O governo federal está desenvolvendo três principais políticas: as Debêntures Incentivadas para projetos sustentáveis, a Taxonomia Sustentável Brasileira para atrair investimentos, e as Diretrizes para Mineração Brasileira Sustentável, um guia de boas práticas. Essas iniciativas buscam transformar diretrizes em ação, garantindo que a mineração dos novos tempos siga um novo paradigma onde 'não se pode fazer mais do mesmo'.

A drenagem ácida, um dos maiores passivos da mineração, pode ser evitada através de técnicas de cobertura de rejeitos com camadas de material alcalino e seco. Essa abordagem impede a oxidação do rejeito e a consequente geração de ácido, permitindo que a estação de tratamento de água funcione de forma passiva, reduzindo custos operacionais e impactos ambientais a longo prazo.