- A mineração brasileira enfrenta pressão simultânea de desastres climáticos intensificados e demanda global por descarbonização, exigindo reinvenção operacional e tecnológica do setor.
- A indústria concentra apenas 0,55% das emissões nacionais, mas é essencial para transição energética global ao fornecer minerais estratégicos como lítio, níquel e terras raras em abundância.
- Adaptação a eventos extremos e descarbonização operacional demandam investimentos vultosos que transcendem capacidade individual das empresas, tornando parcerias público-privadas estruturantes para viabilizar projetos de proteção regional.
As imagens da Mina Arroio dos Ratos, na cidade de mesmo nome, no Rio Grande do Sul, completamente submersa pelas águas que devastaram o estado em 2024, são o retrato contundente de uma nova realidade. O que antes era discutido em planilhas de risco e modelos climáticos tornou-se um desastre operacional. “A nossa mina está entre o rio e a cidade. O dique de proteção rompeu com a onda de cheias e toda a área foi alagada”, detalhou Cristiano Weber, diretor de sustentabilidade da Copelmi.

O evento extremo, que se repetiu após uma enchente severa em 2023, materializa os “riscos físicos” que colocam a indústria de mineração brasileira em uma encruzilhada. Pressionado pela intensificação de desastres climáticos e, ao mesmo tempo, pela demanda global por descarbonização, o setor se vê forçado a se reinventar em uma corrida contra o tempo.
O paradoxo da transição energética
Em um cenário de urgência climática, a mineração, historicamente associada a altos impactos ambientais, se reposiciona como peça-chave. “A mineração nunca foi tão essencial do ponto de vista de mudança de processo como nesse momento, pensando em transição energética”, afirmou Julevania Alves, diretora do Ministério de Minas e Energia (MME).

A lógica é que a descarbonização global depende de minerais estratégicos que o Brasil tem em abundância — como lítio, níquel, grafite e terras raras —, cuja demanda pode se multiplicar em até seis vezes até 2040. Segundo Alves, com uma contribuição de apenas 0,55% das emissões do país, a mineração brasileira pode ser “uma solução”, desde que siga um novo paradigma. “A gente não pode fazer mais do mesmo. Essa mineração dos novos tempos não permite erro.”
Para fomentar essa transformação, o governo federal desenvolve políticas como as Debêntures Incentivadas, para projetos sustentáveis, a Taxonomia Sustentável Brasileira, para atrair investimentos, e as Diretrizes para Mineração Brasileira Sustentável, um guia de boas práticas.
A revolução passa por descarbonização e inovação
Enquanto o governo desenha o arcabouço, as empresas correm para transformar diretrizes em ação. A Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, estabeleceu a meta de reduzir em 33% suas emissões diretas (escopo 1 e 2) até 2030. “Estamos falando em substituir principalmente o diesel que usamos nas minas e ferrovias”, explicou Vivian Mac Knight, gerente de Mudanças Climáticas da companhia. A aposta de curto prazo são os biocombustíveis, uma solução “drop-in” que não exige troca de frota. Para o futuro, a empresa projeta a construção de “Mega Hubs” para ajudar a siderurgia global a migrar para rotas de produção de baixo carbono.

Essa transição também força uma revolução na governança. A Vale foi pioneira ao integrar os riscos climáticos em seu balanço financeiro, seguindo as novas normas internacionais, que serão obrigatórias a partir de 2027. “Foi uma experiência transformadora”, relatou Mac Knight. O desafio foi traduzir a ciência do clima para a linguagem contábil e garantir um nível de auditoria dos dados de emissões tão rigoroso quanto o dos dados financeiros.
A inovação também floresce onde o desafio é maior. Pressionado pela inviabilidade de financiar projetos de queima de carvão, Cristiano Weber detalha uma alternativa: usar o linhito, um carvão rico em matéria orgânica, para produzir fertilizantes organominerais. “O projeto promete manter empregos e reduziria as emissões em um volume equivalente a 15 mil veículos a menos nas ruas”, calcula.
Na gestão hídrica, a engenhosidade também aparece. Weber descreve como sua planta evita a geração de drenagem ácida, um dos maiores passivos da mineração, ao cobrir o rejeito com camadas de material alcalino e seco. “Com isso, nossa estação de tratamento é passiva”, explicou.
Adaptação requer financiamento e ação coletiva
Apesar dos avanços, a adaptação a eventos extremos continua sendo o maior obstáculo. O problema é justificar investimentos vultosos para mitigar um risco incerto e de longo prazo. “Pragmaticamente, o sujeito [da controladoria] vai dizer: ‘mas eu vou colocar meu dinheiro aqui?'”, apontou Weber.
A lição do Muro da Mauá, em Porto Alegre — uma obra de contenção que falhou por falta de manutenção —, mostra que a adaptação não pode sair da pauta e deve estar sob constante vigilância. Para a mina inundada no Sul, a Copelmi estuda, por exemplo, a construção de mais um canal fluvial, projeto que protegeria a operação e a cidade no entorno. “Um investimento num canal desse deve ser gigantesco. Ele não é um investimento só para a operação, é um investimento para a região”, ponderou Vivian Mac Knight. A conclusão, então, é unânime: a solução para problemas dessa escala exige parcerias público-privadas. Fontes de fomento como o Fundo Clima e o BNDES existem, mas é preciso articular projetos que gerem valor compartilhado, como no caso de Arroio dos Ratos (RS).
Com a COP30 se aproximando, o Brasil tem a oportunidade de liderar essa discussão. O futuro da mineração dependerá da capacidade do setor e do governo de transformar a urgência em prioridade, construindo um modelo de negócio que seja não apenas lucrativo, mas, acima de tudo, resiliente.
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* Especial para o Radar Mineração

