• Blended finance combina investimentos públicos, privados e acadêmicos para viabilizar projetos de mineração com retorno incerto, dividindo riscos tecnológicos e operacionais entre múltiplos atores.
  • Na mineração, instituições como BNDES, Finep e agências internacionais assumem riscos iniciais enquanto capital privado entra em fases mais maduras, estruturando financiamentos em camadas com diferentes níveis de proteção.
  • A transição energética amplia demanda por esse modelo, pois projetos de mineração de baixo carbono exigem investimentos de longo prazo e tecnologias inovadoras que investidores tradicionais não financiariam isoladamente.
Resumo revisado pela redação.

A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) apoia o desenvolvimento de um processo de redução carbotérmica do minério de ferro com uso de biomassa para substituir o carvão mineral. A iniciativa é conduzida em parceria com a Tecnored – empresa detentora da tecnologia-base – e pesquisadores da Escola Politécnica da USP. O objetivo é reduzir emissões na cadeia de produção do minério de ferro. Nesse arranjo, a Embrapii financia parte da pesquisa aplicada e dos testes industriais, dividindo o risco tecnológico com a Tecnored e acelerando a chegada da solução ao mercado. 

Sim, é um blended finance: nomenclatura internacionalmente conhecida para investimentos mistos, que combinam recursos públicos, privados e acadêmicos para viabilizar inovações. “A Embrapii é uma instituição jovem, fundada em 2014, que nasceu para aproximar o que existe de melhor nas pesquisas acadêmicas de excelência aos desafios tecnológicos da indústria”, adianta José Menezes, gerente de Relações com o Mercado da instituição. “Todo nosso modelo de atuação é baseado em coinvestimento de três atores: (1) a empresa ou um grupo de empresas que tem um desafio tecnológico, (2) um centro de pesquisa credenciado por nós e (3) a própria Embrapii, que aposta naquela inovação ou em um novo processo ou serviço”, detalha.

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Resistência com pelotas em etapa de teste industrial (Foto: Vale)
Pelotas em processamento durante testes para reduzir emissões na cadeia do ferro (Foto: Vale)
Pelotas processadas em contexto de inovação para reduzir emissões na cadeia do ferro (Foto: Vale)

Processos como o da Embrapii estão ficando mais populares na mineração. Leandro Rossi, diretor executivo do Mining Hub, explica que esse conceito parte da necessidade concreta de financiar projetos cujo retorno financeiro é incerto, mas o potencial de impacto é elevado. “Todo processo que é mais complexo e difícil de mensurar resultados envolve riscos. Pense no desenvolvimento de uma vacina contra uma nova doença: é preciso investir sem saber se vai dar certo. O blended finance entra justamente para viabilizar esse tipo de aposta”, explica.

Leandro Rossi, diretor-executivo da instituição Mining Hub
Leandro Rossi, diretor-executivo da instituição Mining Hub (Foto: IBRAM via Flickr)

Segundo Rossi, a lógica é simples e envolve a atuação de diferentes atores com papéis complementares. Instituições públicas e de fomento assumem parte do risco inicial, criando condições para que o capital privado, mais avesso à incerteza, também participe. 

No Brasil, financiadores como o BNDES e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) são exemplos de agentes que atuam nesse tipo de arranjo, especialmente em agendas ligadas à inovação, à transição energética e à crise climática.

Casos na mineração

Em 2024, a Sigma Lithium recebeu aporte de R$ 486,7 milhões do BNDES, por meio do Fundo Clima, para ampliar sua planta de beneficiamento no Vale do Jequitinhonha (MG). O financiamento, anunciado em agosto de 2024, foi concedido com condições mais favoráveis e atrelado a critérios ambientais, para ser direcionado a um projeto que prevê produção sem uso de barragens de rejeitos, com reaproveitamento de água e uso de energia renovável. Esse aporte se soma ao capital privado já investido pela companhia e seus acionistas internacionais, criando uma estrutura que dilui riscos e melhora o perfil de retorno do empreendimento.

Grandes blocos de minério de lítio em um britador, com vista panorâmica da planta de beneficiamento da Sigma Lithium.
Foto: Sigma Lithium/ Divulgação

Na prática, o modelo permite acelerar a produção de insumos essenciais para baterias de veículos elétricos e alinhar objetivos de política pública, como a descarbonização, ao interesse de investidores privados.

Já em novembro de 2025, a U.S. International Development Finance Corporation (DFC), órgão vinculado ao governo norte-americano, aprovou um financiamento de até US$ 465 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões) para a Serra Verde Pesquisa e Mineração, em Minaçu, região norte de Goiás. A mineradora é uma das poucas fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos de terras raras — disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e praseodímio (Pr) — utilizados na fabricação de ímãs permanentes aplicados em veículos elétricos, turbinas eólicas e em outras tecnologias. O aporte tem o objetivo de viabilizar despesas operacionais, refinanciar dívidas e outros custos de transação no Brasil, além de reduzir a dependência da China, que responde por mais de 60% da produção global e que concentra cerca de 90% da capacidade de processamento desses minerais.

A operação reúne capital público internacional, interesses estratégicos e investimentos privados, como os de fundos Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy and Minerals Group. Esse arranjo de blended finance busca viabilizar um empreendimento de alto risco, tanto tecnológico quanto geopolítico, ao usar recursos públicos para reduzir incertezas e atrair capital privado.

Um artigo de Sabrina Montovanelli, da Harvard Business School e publicado na Columbia SIPA (iniciativa para investimentos em pesquisas sobre sustentabilidade), apresenta configurações de blended finance para a estratégia de sustentabilidade da Vale. Ela descreve duas operações que mostram como o Fundo Vale estrutura investimentos com finanças híbridas. 

A primeira é o Fundo Vale Belterra FIAGRO, criado para financiar a restauração de até 4 mil hectares de áreas degradadas por meio de sistemas agroflorestais, com culturas como cacau, açaí, banana e mandioca. O modelo adotado foi um FIAGRO-FIDC (Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais – Direitos Creditórios), que permite organizar o capital em diferentes níveis de risco e retorno.

Várias vagens de cacau verdes amadurecendo presas aos troncos e galhos em uma plantação sombreada.
Frutos de cacau em diferentes estágios de maturação no pé (Foto: Aimmi / Shutterstock)
Cacho de açaí com frutos roxos maduros e alguns verdes pendentes de uma palmeira na floresta amazônica.
Cacho de açaí fresco. (Foto: PARALAXIS / Shutterstock)

Na estrutura, o Fundo Vale entrou na cota subordinada, com aporte de US$ 5,5 milhões, assumindo o risco inicial da operação. A estratégia buscou atrair cerca de US$ 18 milhões para a cota sênior, voltada a investidores tradicionais. Como não há garantias físicas típicas, como hipoteca de terras, a operação incorporou uma camada adicional de proteção: uma instituição financeira de desenvolvimento internacional ofereceu garantia de 80% sobre a principal da cota sênior em caso de inadimplência, o que viabilizou a entrada de capital privado.

Transição energética amplia demanda por capital

O blended finance ganha relevância em um momento de aumento da demanda por investimentos de longo prazo. A transição energética exige capital intensivo, prazos longos de retorno e desenvolvimento de novas tecnologias. “Imagine um investidor com recursos aplicados rendendo 15% ao ano. Por que ele assumiria o risco de um projeto de longo prazo e retorno incerto? Para isso, é preciso criar incentivos muito fortes”, diz Rossi. “A vantagem é que existem bons projetos e estratégias sólidas. Para quem tem capital disponível, o blended finance pode ser uma oportunidade relevante”, sustenta ele.

No setor de mineração, essa equação envolve ainda mais complexidade. A atividade é essencial para a transição energética global, mas envolve riscos financeiros, operacionais e ambientais. Minerais como lítio, níquel, cobalto e terras raras são fundamentais para tecnologias de baixo carbono, mas sua exploração exige investimentos elevados, muitas vezes em regiões remotas. “Projetos de mineração, especialmente os de exploração, podem levar de 10 a 15 anos até maturar. Nenhum empresário tem fôlego para bancar isso sozinho”, diz Rossi. “É aí que o blended finance se torna não apenas útil, mas necessário”.

Exposição de elementos de terras-raras processados em formato de pó, pedras brutas e bastões metálicos polidos sobre superfície marrom
Foto: Vale

Essa avaliação é compartilhada por Alex Peterman, fundador da DeCarbonMine. “Não existe transição energética sem mineração. Eletrificação, armazenamento, redes, veículos elétricos… tudo depende de minerais. Ao mesmo tempo, a mineração ainda é uma indústria intensiva em carbono”, afirma.

Segundo Peterman, o financiamento estruturado é parte da solução. “A inovação financeira tem o papel de transformar descarbonização em ativo econômico. Quando um projeto reduz emissões e melhora eficiência, ele deixa de ser apenas custo e passa a ser uma tese de investimento.”

Veja detalhes de alguns dos termos utilizados nesta matéria

Terras raras

Grupo de 17 elementos químicos estratégicos incluindo lantânio, cério, neodímio e outros lantanídeos, além de escândio e ítrio. Essenciais para tecnologias avançadas como ímãs permanentes, baterias, eletrônicos, catalisadores e energia renovável. Apesar do nome, não são extremamente raras, mas sua extração e processamento são complexos e geograficamente concentrados.

Bioeconomia

Modelo de desenvolvimento sustentável que utiliza recursos biológicos renováveis para produzir bens, energia e serviços. Combina inovação tecnológica, conservação ambiental e valorização da biodiversidade para impulsionar setores como agricultura, indústria e biotecnologia. Promove o crescimento econômico com baixo impacto ambiental, favorece o uso sustentável dos ecossistemas e fortalece cadeias produtivas que beneficiam comunidades locais. Ajuda a reduzir a dependência de recursos fósseis e contribui para a descarbonização da economia.

Transição energética

Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.

Carbono

Elemento químico essencial presente em diversos minerais e combustíveis fósseis. Na mineração, refere-se principalmente a emissões de gases de efeito estufa (GEE) das operações e ao desafio da descarbonização. Também designa minerais carbonáceos como grafita, fundamental para baterias e tecnologias limpas, e carvão mineral, ainda utilizado na siderurgia e geração energética. Está no centro das discussões sobre transição energética, que busca reduzir emissões de carbono enquanto aumenta a demanda por minerais essenciais para energia limpa.

Estrutura financeira reduz risco e atrai investimento

Projetos desse tipo exigem alto investimento inicial, retorno de longo prazo e envolvem tecnologias ainda em fase de adoção. Para investidores tradicionais, isso representa riscos difíceis de precificar. “O mercado financeiro prefere fluxos previsíveis e de curto prazo. Mas projetos de descarbonização na mineração não funcionam assim”, diz Peterman.

O blended finance atua ao estruturar o financiamento em camadas, com capital público absorvendo riscos iniciais e capital privado entrando em etapas mais maduras. “Você monta uma arquitetura em que cada tipo de capital ocupa um lugar específico. Isso reduz o custo médio, melhora a alocação de risco e cria conforto para investidores que não entrariam sozinhos”, detalha.

No Brasil, existem bons exemplos, segundo o especialista da DeCarbonMine, mas ainda há um longo pipeline a ser desenvolvido, replicando, principalmente, estratégias de blended finance voltadas à mineração de baixo carbono. Entre os entraves, Peterman lista a qualidade dos projetos, a falta de padronização e a complexidade de coordenação entre diferentes atores. “Combinar capital público, privado e de impacto parece simples no papel, mas exige um nível alto de coordenação”, diz.

Rossi valida que a base continua sendo a estruturação e discorre que “sem uma proposta sólida, sustentável e bem estruturada, o blended finance não acontece”. “O modelo ajuda a viabilizar, mas não substitui a qualidade do projeto”, observa.

Dúvidas mais comuns

Blended finance é um modelo de investimento que combina recursos públicos, privados e acadêmicos para viabilizar inovações e projetos com alto potencial de impacto, mas retorno financeiro incerto. Permite que organizações com objetivos diferentes invistam lado a lado enquanto alcançam seus próprios objetivos: financeiro, impacto socioambiental ou ambos. Instituições públicas e de fomento assumem parte do risco inicial, criando condições para que o capital privado, mais avesso à incerteza, também participe.

Na mineração, o blended finance estrutura o financiamento em camadas, com capital público absorvendo riscos iniciais e capital privado entrando em etapas mais maduras. Cada tipo de capital ocupa um lugar específico na arquitetura financeira, reduzindo o custo médio, melhorando a alocação de risco e criando conforto para investidores que não entrariam sozinhos. Esse arranjo é especialmente importante porque projetos de mineração, principalmente os de exploração, podem levar de 10 a 15 anos até maturar, exigindo investimentos elevados que nenhum empresário consegue bancar sozinho.

Um arranjo de blended finance envolve três atores principais: (1) a empresa ou grupo de empresas que tem um desafio tecnológico, (2) um centro de pesquisa credenciado, e (3) uma instituição de fomento ou pública que aposta na inovação. No Brasil, financiadores como BNDES e Finep atuam como agentes públicos nesse tipo de arranjo, especialmente em agendas ligadas à inovação, transição energética e crise climática. Além disso, podem participar fundos de impacto, instituições financeiras de desenvolvimento internacional e investidores privados.

A transição energética exige capital intensivo, prazos longos de retorno e desenvolvimento de novas tecnologias. Minerais como lítio, níquel, cobalto e terras raras são fundamentais para tecnologias de baixo carbono, mas sua exploração envolve riscos financeiros, operacionais e ambientais elevados. O blended finance torna viável o financiamento de projetos cujo retorno é incerto, mas o potencial de impacto é elevado, permitindo que a mineração se descarbonize enquanto contribui para a transição energética global.

A Sigma Lithium recebeu R$ 486,7 milhões do BNDES em 2024 para ampliar sua planta de beneficiamento, com financiamento atrelado a critérios ambientais. A Serra Verde Pesquisa e Mineração recebeu aprovação de até US$ 465 milhões da U.S. International Development Finance Corporation para produção de terras raras. A Vale estruturou o Fundo Vale Belterra FIAGRO para financiar restauração de áreas degradadas, com o Fundo Vale assumindo o risco inicial e atraindo capital privado através de uma estrutura de diferentes níveis de risco e retorno.

O blended finance reduz riscos ao estruturar o financiamento em camadas, onde capital público absorve riscos iniciais e capital privado entra em etapas mais maduras. Além disso, pode incorporar camadas adicionais de proteção, como garantias de instituições financeiras de desenvolvimento internacional. Essa estrutura permite que investidores tradicionais, que preferem fluxos previsíveis e de curto prazo, participem de projetos de longo prazo ao ter seus riscos mitigados pela participação de atores públicos.

Os principais desafios incluem a qualidade dos projetos, a falta de padronização e a complexidade de coordenação entre diferentes atores. Combinar capital público, privado e de impacto exige um nível alto de coordenação e estruturação. Sem uma proposta sólida, sustentável e bem estruturada, o blended finance não acontece. O modelo ajuda a viabilizar, mas não substitui a qualidade do projeto, sendo essencial que a base seja uma estruturação adequada.

A inovação financeira estruturada permite que projetos que reduzem emissões e melhoram eficiência deixem de ser apenas custos e passem a ser teses de investimento viáveis. Quando um projeto de mineração reduz emissões através de tecnologias como biomassa em substituição ao carvão mineral ou uso de energia renovável, o blended finance viabiliza seu financiamento ao dividir riscos entre atores públicos e privados, tornando o retorno financeiro mais atrativo e previsível para investidores.