A Era das Navegações, no século XV, quando instrumentos e conhecimentos náuticos permitiram que os homens se lançassem aos oceanos com suas naus em busca de novas rotas para o Oriente, marcaram os primórdios das tentativas de desbravar os mares. Seis séculos depois, cientistas com sofisticados equipamentos voltam os olhos novamente para essa imensidão azul que cobre aproximadamente 71% do planeta. Não mais miram o que se vê nas superfícies, mas buscam novos tesouros. Minerais nas profundezas que, em abundância, podem dar às nações materiais já são e serão ainda mais indispensáveis no mundo moderno.

Estima-se que seja possível encontrar toneladas de minérios, especialmente, cobalto, titânio, cério, níquel, platina, manganês, fósforo, tálio, zircônio, tungstênio, bismuto e molibdênio, entre outros, usados em equipamentos tecnológicos e voltados à energia verde.

 O Brasil está nessa corrida desde as últimas décadas do século XX, e foi um dos primeiros países a entrar nela. O Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (Leplac) foi instituído pelo governo federal em 15 de setembro de 1989. A ideia era dar um novo limite à nossa Plataforma Continental do ponto de vista jurídico, determinando uma área marítima além das 200 milhas, na qual o país poderia exercer direitos de soberania para a exploração e o aproveitamento dos recursos naturais do leito e subsolo marinho. “É a última fronteira do mundo”, aponta o Capitão de Mar e Guerra da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, comandante Rodrigo Carvalho.

Quem decide qual pedaço do oceano – além das 200 milhas – pode ser de cada nação é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), fruto da Terceira Conferência das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos III), que ocorreu entre 1973 e 1982. 

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Exploração em águas profundas requer desenvolvimento de tecnologias nacionais
Boias fixas fazem parte do aparato de equipamentos usados no mapeamento do solo submerso do Brasil
Amostras extraídas do solo submerso brasileiro
Laboratório de amostras do CPRM

A Convenção age com base em todos os estudos dos países e as atividades relacionadas às áreas marítimas. É a chamada “Área”, que está além da jurisdição nacional dos estados costeiros e sob a guarda da International Seabed Authority (Isa), atualmente comandada pela oceanógrafa brasileira, Letícia Carvalho, com o cargo de secretária-geral. 

Mais ou menos no final da primeira década deste século, um projeto com os navios de pesquisa oceanográfica Alpha Crucis, da USP, e o britânico Discovery, trouxe novas e importantes informações sobre uma parte do litoral brasileiro onde estaria um conjunto de montanhas a grandes profundidades submarinas, que se estenderiam por uma área equivalente ao território da Espanha. Começou, então, um debate sobre se a região poderia ser considerada parte da plataforma continental brasileira ou se estaria além dela mas poderia ser reivindicada.

Estudos e pesquisas acerca da composição do território do fundo do mar têm sido fundamentais para fortalecer a tese de que há uma série de recursos minerais na cadeia de montanhas submarinas, especialmente na chamada Elevação Rio Grande (ERG), situada em frente ao litoral do Rio Grande do Sul, a aproximadamente 1.200 a 1.500 quilômetros da costa. “O Brasil tem uma boa chance de ter essa área reconhecida”, diz o professor do Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) Luigi Jovane. 

Imagina-se que há 40 milhões de anos, a Elevação tenha sido uma imensa ilha tropical, coberta por vegetação e rica em minérios. A tese ganhou força com as dezenas de precisas análises da argila coletada na área. Elas apontaram que a camada é um resquício de um tipo de solo comum em ambientes tropicais.

“Diversos países estão muito avançados nas pesquisas e nas coletas de terras raras com altíssima pureza”, relata Jovane, citando, por exemplo, a China que controla a maior parte de terras raras pesadas que são usadas em ímãs potentes e resistentes ao calor na produção de itens para as áreas de defesa e de veículos elétricos. 

O Japão também tem conseguido ótimos resultados. Em 2 de fevereiro deste ano, o país anunciou que conseguiu perfurar e recuperar sedimentos marinhos profundos contendo minerais de terras raras no fundo do mar. A embarcação de perfuração em águas profundas “Chikyu” conseguiu coletar com sucesso o material a uma profundidade de quase 6 mil metros, nas proximidades da ilha de Minamitorishima, o território mais oriental sob a soberania do Japão. 

Mapa do território marítimo do Brasil – Criação do Centro de Excelência para o Mar Brasileiro (Cembra), com estilização do Radar Mineração

Futuro envolve impasse da Elevação do Rio Grande

O Brasil, um dos pioneiros nessas pesquisas, com o pleito sobre a Elevação do Rio Grande, está reivindicando uma área de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, que representa aproximadamente três vezes os territórios marítimos que já foram anexados. Nos últimos anos, novas estratégias de ampliação territorial visando espaços marítimos têm resultado em ganhos para o país, em especial as que envolvem  a ERG e a chamada Amazônia Azul.

Batizada em alusão à sua homônima terrestre, a Amazônia Azul compreende o espaço marítimo onde o Brasil detém direitos únicos de exploração. O nome reflete a abundância de recursos naturais ocultos sob as águas, posicionando o mar como uma reserva de riqueza tão vital quanto a própria biodiversidade amazônica.

Seu espaço foi dividido em três grandes áreas. A primeira a ser aprovada foi a região Sul, encaminhada à ONU em abril de 2015 e apresentada à Comissão de Limites em 25 de agosto desse mesmo ano. 

O pleito foi um sucesso e, em março de 2019, foi aprovada a proposta do Brasil, incorporando à nossa Plataforma Continental uma área de 170 mil quilômetros quadrados na região Sul do país que passou a ser considerada Plataforma Continental Estendida.

Depois, foi a vez da Margem Equatorial (que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte) encaminhada à ONU em 8 de setembro de 2017. Sua análise foi interrompida por causa da pandemia da Covid-19 e reiniciada em 2021. No ano passado, o Limite Exterior proposto pelo Brasil foi aprovado. Com ele, o país incorporou à plataforma continental uma área de aproximadamente 360 mil quilômetros quadrados, que se somou aos 170 mil quilômetros já conquistados na região Sul.

Agora, o Brasil aguarda a análise da proposta das margens Oriental/Meridional – uma área tão extensa que se estende do Nordeste ao Sul –  que foi enviada à ONU no dia 7 de dezembro de 2018 e apresentada na Reunião Plenária da Comissão de Limites em 26 de fevereiro de 2025. A análise já foi iniciada, mas segundo o primeiro-secretário Eden Martingo, da Divisão de Mar, Antártida e Espaço do ministério das Relações Exteriores, a previsão é de que os estudos levem pelo menos oito anos, e duas reuniões estariam sendo marcadas para os próximos meses. “O Brasil pediu os direitos de soberania naquela área”, explica.

Seria como se o Brasil ganhasse uma área marítima equivalente ao território de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Alagoas, Espírito Santo e Amazonas. Pode ser difícil visualizar ou imaginar o que isso representa, mas quem já tem uma noção dos minérios e riquezas ali submersas sabe que, se o país não tomar conta, não faltarão aventureiros para buscá-las.

Se a ONU concordar, além das 200 milhas náuticas que o Brasil já detém, as margens Oriental/Meridional dariam ao país uma área de aproximadamente um 1,5 milhão quilômetros quadrados. E, dentro deles, a Elevação do Rio Grande (ERG). Portanto, se o Brasil conseguir ultrapassar todas as etapas e esclarecer todas as questões solicitadas pela ONU, em um processo que pode levar pelo menos uma década, terá mais um imenso e estratégico mar para chamar de seu.

* Especial para o Radar Mineração.