Terras raras e minerais estratégicos são o tema do momento. Não é para menos. São eles que viabilizam a transição energética, a indústria de alta tecnologia e a segurança nacional. Entretanto, não é só deles que vive a mineração: o cobre ganha cada vez mais importância.

“Quando a gente vê tantos defenderem políticas especiais para as terras raras, não podemos esquecer que o grande mineral, o grande metal que influencia toda a cadeia é o cobre”, afirma o diretor de Assuntos Minerários do Ibram, Julio Cesar Nery Ferreira, nesta entrevista exclusiva ao Radar Mineração.

Na entrevista, o executivo destaca que o cobre permanece como o metal mais estratégico e influente para a transição energética e a eletrificação da economia global. Ele ressalta que o insumo é indispensável para motores e geradores e possui um mercado significativamente maior e mais consolidado em comparação a outros minerais críticos, sendo, segundo ele, a peça central sobre a qual toda a cadeia de eletrificação se sustenta.

Leia os principais trechos da conversa:

O mercado de cobre está crescendo exponencialmente. Há uma razão para isso?

Na verdade, todos os minerais já tiveram uma época em que se falava muito deles e da importância que tinham. Tivemos o grafite, o lítio, todos têm e tiveram as suas épocas. E agora nós estamos na época das terras raras. Dos minerais estratégicos. Todos defendem políticas especiais para as terras raras.

Vocês também estão fazendo essa defesa?

O que a gente defende aqui no Ibram é que tratemos o assunto dos minerais críticos e estratégicos. Por que?

"Quando a gente olha para a situação, o grande mineral, o grande metal que influencia em toda a cadeia é sem dúvida o cobre. Ele é o mais importante de todos. Sem o cobre você não vai fazer nada.”

Por quê?

Porque a eletrificação da economia vai sempre passar pelo cobre. Essa é uma das maiores demandas. No imenso mercado da eletrificação, o grande mineral crítico – tirando fertilizantes que também são críticos para o Brasil porque não temos produção suficiente para atender nossa demanda – o grande metal da transição energética é o cobre. Ele está em todos os motores, está em todos os geradores, em toda a eletrificação, em todos os aparelhos.

Infográfico apresentando dados do mercado de cobre no Brasil: receita, exportações por trimestre, destinos das exportações, preço médio, arrecadação de royalties e previsão de crescimento — com gráficos e porcentagens —, destacando o papel do cobre na transição energética. Os dados são do Ibram.
Imagem gerada digitalmente com base nos dados do Ibram

Isso não é recente…

Na verdade, não é uma coisa que aconteceu agora. É um mercado grande e importante que, em alguns países, como o Chile que é o maior produtor mundial, é o principal produto de exportação. No Peru, também. Então a gente vê que isso já é algo que existe há bastante tempo em função da importância do cobre para a eletricidade.

E é uma parte muito importante da eletricidade…

A gente tem outros minerais como o lítio, como o grafite, como as terras raras. Mas para falar de eletrificação da economia, em transição energética, sempre o maior volume vai ser do cobre. A terra rara é fundamental para diversas aplicações. Mas o mercado, comparado com o mercado de cobre, é muito menor. Então essa é uma questão que a gente tem que ter sempre em mente. O cobre tem o maior mercado nessa categoria de minerais de transição energética. Sem cobre você não faz nada.

Como o Brasil está posicionado em relação a esse mineral?

O Brasil tem boas reservas de cobre para nós — 1 a 2% do que existe no mundo — mas não temos cobre aqui na dimensão que tem no Chile, Peru ou nos Estados Unidos, onde está uma das maiores minas do mundo. A Austrália também tem boas reservas. Mas a reserva brasileira é boa, a gente exporta muita coisa de concentrado de cobre para o mundo.

Vista aérea de um grande reservatório artificial cercado por margens marrom-avermelhadas, com colinas e montanhas verdes ao longe, sob um céu parcialmente nublado.
Descoberta em 1997 e com sua construção iniciada em 2002, a Mina do Sossego é um importante empreendimento de cobre formado pelos corpos minerais Sossego e Sequeirinho. Com operação a céu aberto, a mina desempenha um papel estratégico na produção de cobre, contribuindo para o desenvolvimento da mineração no Brasil (Foto: Ricardo Teles/ Vale)

Quanto do cobre brasileiro vem das lavras e quanto da reciclagem?

Nós produzimos os concentrados, temos poucas plantas para a produção do cobre, então muito vem da reciclagem. Agora, quando se fala nessa atividade, qualquer metal pode ser reciclado indefinidamente. Mas, você vai precisar sempre de um pouco de metal primário para adicionar na mistura. É o que se chama de circularidade.

E esse material reciclado pode ser usado em qualquer coisa?

Você produz o mineral, aí você passa por uma indústria, que produz o mineral metálico e o utiliza, seja para fazer um motor, para fazer um gerador ou outra coisa qualquer. E depois que esse motor ficar obsoleto, você pega esse material e faz o aproveitamento dele novamente. Então aí você completa o ciclo desde a mina até a recirculação desse metal. O preço do metal, obviamente, vai diminuindo na medida em que passa pelas diversas reciclagens.