- A mineração consome 8% da energia elétrica nacional e 20% da energia industrial brasileira, exigindo disciplina contínua em eficiência energética para reduzir custos operacionais e emissões de gases de efeito estufa.
- Melhorias de 5% na eficiência da cominuição (britagem e moagem) podem reduzir 30 milhões de toneladas de CO₂ e evitar 0,7 kWh por tonelada processada, demonstrando que ganhos incrementais geram impacto global relevante.
- A eficiência energética na mineração depende de governança formal, medição estruturada contínua, cultura organizacional e integração com fontes renováveis contratadas estrategicamente para viabilidade econômica e ambiental.
A mineração tem papel importante na transição energética sob duas óticas: a primeira é interna, ao desenvolver ou aprimorar processos que reduzem o consumo de energia e emissões de gases de efeito estufa ao longo das cadeias produtivas. A segunda, mais holística, é com o fornecimento de minerais essenciais para tecnologias de geração e armazenamento de energia renovável.
Segundo o Relatório de Eficiência Energética do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o setor mineral responde por aproximadamente 8% de todo o consumo de energia elétrica do país e por cerca de 20% do consumo industrial brasileiro. O desafio da transição energética do setor se amplia diante do aumento da demanda global por minerais críticos e da necessidade de exploração de reservas com teor de minério cada vez menor, o que implica maior movimentação de material estéril, mais etapas de beneficiamento e, consequentemente, maior consumo de energia por tonelada produzida. E é por isso que as ações de eficiência energética na mineração precisam ser monitoradas, inovadoras e, junto a isso tudo, contínuas.
Esse esforço tem impacto que vai além do próprio setor mineral. Segundo a gerente de assuntos minerários do Ibram, Aline Nunes, mesmo representando uma parcela relativamente pequena do consumo energético nacional, a mineração exerce influência relevante sobre a eficiência ao longo de toda a cadeia produtiva.
“Mesmo consumindo essa fatia, que pode ser considerada pequena em relação a outros setores, como indústria intensiva e de longa cadeia, a mineração tem o papel de fomentar a redução do consumo de insumos naturais energéticos, inclusive junto aos fornecedores, por meio de melhoria de eficiência de equipamentos e dos processos produtivos, e planejar o aumento do número de fontes de energia renovável na matriz energética das atividades minerais”, explica. “A implementação de ações de melhoria operacional e de eficiência energética é fundamental para a mineração, e os seus benefícios vão muito além das questões puramente ambientais”, acrescenta.
Eficiência energética é ação contínua
“Essencialmente, temos duas reflexões a fazer. Uma é o que acontece dentro de casa, na eficiência energética; na redução de perdas; na estabilidade operacional. A outra é olhar para os nossos produtos”, esclarece o diretor de mudanças climáticas da Vale, Rodrigo Lauria. “Minérios de alta qualidade, quando olhamos a nossa cadeia de valor, são um elemento central para apoiar a descarbonização. A pelota, o briquete e todas as inovações que estão vindo são essenciais à descarbonização do aço”, explica. “Evidentemente, também temos que ter processos altamente eficientes para os minerais como níquel e cobre, usados em baterias, eletrificação de veículos, placas solares e outras soluções para a transição energética”, acrescenta.
Eficiência energética, portanto, não é um projeto com começo, meio e fim. “Mas, sim, um processo contínuo, que depende de governança, indicadores claros e disciplina operacional”, como pondera o especialista em gestão de energia da AngloGold Ashanti, Matheus Carvalho. “Você precisa transformar eficiência em rotina, em indicador acompanhado na sala de controle. Se não houver método e medição estruturada, os ganhos se perdem”, constata.
Processos críticos, monitoramento e gestão em tempo real
Entre os processos mais intensivos em energia está a cominuição, que engloba britagem e moagem do minério. Conforme o relatório do Ibram, uma melhoria de 5% na eficiência energética dessa etapa pode resultar na redução de 30 milhões de toneladas de CO₂ e evitar o consumo de 0,7 kWh por tonelada processada na mineração brasileira. Ou seja: isto mostra como ganhos aparentemente incrementais podem produzir impacto global relevante.

“O consumo energético na mineração é distribuído entre diversas etapas do processo produtivo, concentrando-se fortemente nas atividades de redução do tamanho e processamento do minério”, esclarece Aline.
Segundo ela, as características físicas do próprio minério têm influência direta sobre a intensidade energética das operações. “As propriedades físicas de cada minério, especialmente a sua dureza e o tamanho desejado das partículas, são variáveis críticas que afetam direta e significativamente o consumo de energia na etapa de moagem”, diz. Além das propriedades naturais da rocha, fatores operacionais também têm peso relevante. “Ainda, em conjunto com essas propriedades naturais e físicas da rocha, o consumo na moagem também é afetado por variáveis operacionais e de configuração do próprio equipamento, como o volume e a carga dos corpos moedores (como as bolas de aço que realizam o impacto) e a velocidade adotada no processo”, complementa.

O Guia de Eficiência Energética também detalha que equipamentos projetados para operar em capacidade máxima apresentam melhor rendimento quando utilizados entre 70% e 90% da carga, com ponto ideal próximo a 85% em operações de moagem. Abaixo desse patamar, a eficiência energética se deteriora de forma acentuada.
Em outra via, o acompanhamento simultâneo da taxa de produção e do consumo específico revela que picos de ineficiência costumam ocorrer em períodos de baixa utilização da capacidade instalada. A leitura integrada desses indicadores permite ajustes operacionais que evitam desperdício de energia e reforça o papel da medição estruturada como ferramenta estratégica.
Além disso, a aplicação de inversores de frequência para adequar a velocidade dos motores à demanda real reduz consumo elétrico e melhora o controle de processo. A lógica é sistêmica: não basta trocar um equipamento, é necessário compreender o comportamento do circuito completo, das resistências mecânicas às variações de carga.
Um dos benchmarks apresentados no Guia envolve a Vale e a otimização de correias transportadoras. O projeto avaliou a redução da velocidade de motores quando as correias operam a vazio, situação recorrente em circuitos longos com variações de fluxo.
Ao atuar sobre resistências distribuídas ao longo do sistema (roletes, polias, dispositivos de limpeza, trechos inclinados), a companhia conseguiu diminuir o esforço total requerido e, consequentemente, o consumo de energia. A estratégia incluiu automação do controle de velocidade, manutenção preventiva e ajustes de projeto, com ganhos energéticos e redução de desgaste de componentes.
Nas atividades de transporte, os ganhos combinam tecnologia e engenharia. Correias podem substituir frotas de caminhões em determinados trajetos, vencendo desníveis maiores com menor consumo de energia por tonelada transportada. Já onde o transporte rodoviário permanece essencial, a melhoria das vias internas é um fator determinante.
Sistemas de telemetria embarcados acompanham a velocidade média, frenagens, aceleração e carga transportada, permitindo identificar desvios operacionais e otimizar rotas. A redução de inclinações críticas e o nivelamento adequado das vias internas diminuem a necessidade de potência adicional, reduzindo consumo de diesel e desgaste de componentes. São intervenções que, somadas, alteram significativamente o perfil energético da operação.
Nesse contexto, melhorias em infraestrutura operacional também têm impacto direto na eficiência energética. “Vias de transporte bem mantidas, por exemplo, permitem um aumento seguro na velocidade média dos caminhões, reduzindo o tempo de ciclo e otimizando a métrica de litros de diesel consumidos por tonelada transportada”, nota Aline Nunes. “Há uma série de outros aspectos importantes nessas estratégias”, observa.
Outro caso é o da Mineração Usiminas, que reforça a integração entre monitoramento operacional e eficiência energética. A empresa estruturou um sistema de Medição e Verificação (M&V), com definição de linhas de base e acompanhamento sistemático de indicadores de consumo. A partir desse monitoramento, passou a identificar onde estavam as principais perdas energéticas e a priorizar intervenções com retorno mais rápido.
No transporte interno, por exemplo, a companhia passou a monitorar as condições de inclinação, irregularidades e resistência ao rolamento das vias, fatores que influenciam diretamente o consumo de diesel dos caminhões fora de estrada. Com manutenção mais frequente, correção de trechos críticos e melhor nivelamento, a empresa reduziu o esforço dos equipamentos, consumo de combustível e desgaste de pneus. A melhoria das condições das vias resultou em um ganho de 8,69% na eficiência do consumo de diesel por tonelada transportada, o que representou economia de cerca de 525 mil litros de combustível entre julho de 2021 e dezembro de 2022. Isso evitou a emissão de 14 mil toneladas de CO₂ e implicou uma queda de 36% no custo de pneus por tonelada movimentada.
A Usiminas também utiliza telemetria para acompanhar padrões de operação dos caminhões, como aceleração e frenagens excessivas, ajustando procedimentos para reduzir desperdícios.
Segundo o guia do Ibram, a combinação de monitoramento contínuo, metas claras e análise de dados permitiu transformar oportunidades pontuais de economia em uma rotina de gestão energética, incorporada ao planejamento operacional.
A AngloGold Ashanti enfatiza a importância da Medição e Verificação (M&V) e da cultura organizacional. No caso da mineradora de ouro, programas estruturados de eficiência podem levar de 18 a 24 meses para serem implementados e até cinco anos para se consolidar a mudança cultural. A experiência demonstra que os ganhos obtidos em determinado período tendem a se dissipar se não houver acompanhamento contínuo.
Glossário de termos utilizados nesta matéria
Briquete
Produto de minério de ferro em forma sólida, produzido a partir da aglomeração a baixas temperaturas. É um insumo direto e eficiente para a produção de aço em altos-fornos ou fornos de redução direta. Sua utilização contribui para a melhoria da eficiência energética e pode reduzir em até 10% as emissões de CO₂ na cadeia siderúrgica, pois substitui processos térmicos convencionais que são mais intensivos em carbono.
Cominuição
Conjunto de processos para redução de tamanho das partículas minerais, como britagem e moagem, desde blocos rochosos até granulometrias finas necessárias para os processos subsequentes de beneficiamento e concentração. É uma das operações mais críticas e dispendiosas da mineração, consumindo entre 30% a 50% da energia total de uma planta de processamento mineral. Sua eficiência impacta diretamente a liberação dos minerais de interesse, a recuperação metalúrgica, o consumo energético e os custos operacionais.
Transição energética
Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.
Pelotização
Processo de aglomeração que transforma minério de ferro fino em esferas resistentes chamadas pelotas, por meio de mistura com aglomerantes e queima em altas temperaturas. As pelotas têm maior uniformidade, resistência mecânica e teor de ferro que o minério natural, sendo produto premium para alimentação de altos-fornos e redução direta na siderurgia. Melhora a eficiência da produção de aço, reduz emissões e permite o aproveitamento de materiais que seriam descartados como rejeitos.
Geração própria e mercado livre de energia
Matheus Carvalho, especialista sênior de Gestão de Energia da AngloGold Ashanti, informa que a companhia estabeleceu linhas de base, indicadores de desempenho e rotinas de auditoria para evitar retrocessos. “Ganhos relativos ao passado podem ser perdidos no tempo, especialmente com mudanças de equipe. Por isso, a medição constante é fundamental”, adverte. “Trabalhamos com curva de carga, consumo específico, análise de desvios. Quando você cruza dados de produção com energia, começa a enxergar onde estão as oportunidades”, descreve.
Na operação brasileira, a empresa integrou os projetos de otimização ao Programa de Descarbonização e Eficiência Energética. “Implementamos diversas iniciativas que permitiram uma redução de 63% nas emissões de gases de efeito estufa no Brasil, em comparação com o ano-base de 2021”, conta Carvalho.
Desde 2022, a companhia utiliza 100% de energia elétrica proveniente de fontes renováveis no país. Segundo ele, a estratégia envolve tanto autoprodução quanto compras no mercado livre de energia, com contratos de longo prazo que garantem previsibilidade de preços e lastro renovável. “A migração para o mercado livre foi fundamental para estruturar uma matriz mais limpa e competitiva. A autogeração também traz segurança energética e estabilidade de custos”, afirma.
Parte dessa estratégia envolve contratos estruturados de fornecimento e mecanismos de autoprodução que garantem previsibilidade de custos e menor exposição à volatilidade do mercado. “Quando se combina eficiência energética com energia renovável contratada de forma estratégica, o impacto é duplo: reduz-se consumo específico e também o fator de emissão”, explica Carvalho.
Em todas as operações da AngloGold Ashanti Brasil, o fornecimento de energia elétrica foi diversificado, incluindo 243.988 MWh provenientes do mercado livre de energia, além da geração em usinas próprias e compensações=. Nesse último caso, 100% da energia gerada é certificada como carbono zero (Cemig-REC). “Esse modelo fortalece a resiliência energética da empresa e reforça nossa estratégia de sustentabilidade e eficiência operacional”, acrescenta Carvalho.
Entre as iniciativas, ele cita a ventilação sob demanda na Mina Cuiabá (MG), sistema que ajusta automaticamente o volume de ar conforme a presença de trabalhadores e equipamentos nas galerias subterrâneas. “O sistema permite uma redução de até 25% no consumo de energia elétrica ao modular a ventilação secundária conforme a presença ou ausência de pessoas nas frentes de serviço. Integrado ao sistema People Tracking, que monitora os empregados em todos os pontos do subsolo, ele utiliza automação para ajustar a rotação dos ventiladores conforme a demanda por ventilação”, conta.

