• A RDC e a Zâmbia concentram 70% e 9% da produção global de cobalto respectivamente, metal essencial para baterias de veículos elétricos e eletrônicos, impulsionando demanda pela transição energética mundial.
  • Apesar da riqueza mineral, ambos os países enfrentam o paradoxo da abundância: receitas expressivas não se traduzem em desenvolvimento humano, com mais de 70% da população congolesa vivendo abaixo da linha de pobreza.
  • Legislação fragmentada, trabalho infantil endêmico e conflitos entre mineração artesanal e industrial demandam reformas legais participativas, regulações específicas para cobalto e parcerias estratégicas com BRICS para governança mais eficaz.
Resumo revisado pela redação.

A crescente demanda por cobalto está diretamente associada à transição energética. Extraído, em geral, como subproduto da mineração de cobre ou níquel, o metal consolidou-se como um insumo crítico em razão de seu uso intensivo na fabricação de superligas e, sobretudo, de baterias de íons de lítio. Esses componentes são fundamentais para a produção de eletrônicos de consumo, como smartphones, e constituem o núcleo tecnológico dos veículos elétricos (VEs)

Nesse contexto, países desenvolvidos intensificaram sua atenção política e diplomática sobre o futuro produtivo de duas nações africanas, a República Democrática do Congo (RDC) e a Zâmbia. Ambas compartilham uma mesma província geológica – o Cinturão do Cobre Africano –  que abriga 3,6 milhões de toneladas de cobalto, uma das maiores concentrações conhecidas do minério do mundo.

Mapa do Cinturão do Cobre Africano na África Central destacando as regiões com maior concentração de cobalto, uma das maiores do mundo, na República Democrática do Congo e arredores.
Foto: Wikimedia Commons / USGS / Adaptação para o português

A RDC destaca-se como a maior fornecedora global de cobalto, respondendo por aproximadamente 70% de toda a produção mundial. A Zâmbia, por sua vez, figura entre os dez maiores produtores globais, contribuindo com cerca de 9% da produção.  Juntas, as duas nações reúnem  potencial geológico suficiente para ampliar significativamente a produção e contribuir para suprir os déficits de mercado projetados para as próximas duas décadas.

Cobalto e o paradoxo da abundância

Apesar dessa riqueza mineral, a exploração do cobalto na RDC e na Zâmbia ilustra o chamado paradoxo da abundância de recursos naturais em países em desenvolvimento. Embora o cobalto, frequentemente associado ao cobre, gere receitas expressivas no comércio internacional, os ganhos econômicos e sociais permanecem concentrados e pouco se refletem nas condições de vida da população local. 

Na RDC, por exemplo, o setor mineral responde por uma parcela importante da economia e domina a pauta de exportações. Ainda assim, o país aparece em posições próximas ao fim nos rankings globais de desenvolvimento humano, com  expectativa de vida de 59 anos. Estimativas indicam que mais de 70% da população vive abaixo da linha de pobreza, em muitos casos, sem acesso adequado a serviços básicos como eletricidade e água potável. Na Zâmbia, o setor mineral – em especial o cobre e seus subprodutos – é responsável por mais de 40% das receitas de exportação. No entanto, os indicadores sociais seguem pressionados, refletindo desafios históricos de distribuição de renda e políticas públicas. 

Os dados acima foram reunidos pelo nigeriano Jeleel Abiola Balyaminu, pesquisador do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Leiden, na Holanda, no artigo científicoThe state of cobalt mining Laws: Implications for the future of Democratic Republic of Congo (DRC) and Zambia cobalt mining prospects”.

Legislação fragmentada e conflitos no setor

De acordo com Balyaminu, o arcabouço legal que rege a mineração na RDC e na Zâmbia é resultado de uma trajetória longa e complexa, que atravessa os períodos pré-colonial e colonia e chega até o contexto moderno. 

Ainda que os dois países possuam códigos legais voltados à regulação da atividade mineral, o estudo identifica uma lacuna significativa de compreensão e aplicação das leis, especialmente entre líderes comunitários, representantes da mineração artesanal e grande parte da força de trabalho do setor. 

Um dos principais pontos de tensão identificados é o embate entre a mineração artesanal e de pequena escala e as operações industriais de grande porte. A fragilidade institucional que permeia a exploração do cobalto contribuiu, inclusive, para episódios de conflitos sociais e tragédias humanas.  

Mãos segurando rocha de cobalto em ambiente de mineração artesanal, evidenciando os riscos sociais e ambientais no conflito pelo controle do minério.
Foto: Erberto Zani/ Adobe Stock

O estudo também documenta evidências consistentes de  que o trabalho infantil alcançou proporções endêmicas em algumas áreas de mineração, expondo crianças a ambientes de alta toxicidade e insalubridade.  Balyaminu observa que, em determinados contextos, ações de empresas para coibir a presença de crianças e mulheres nesses locais acabam gerando reações negativas por parte das comunidades, agravando tensões sociais já existentes. 

Para enfrentar esses desafios, Balyaminu propõe três frentes principais. A primeira é a revisão inclusiva e transparente das leis de mineração, com reformulação das políticas e diretrizes atuais. Segundo ele, o processo legislativo precisa adotar uma abordagem mais participativa, incorporando trabalhadores, comunidades locais e lideranças da mineração artesanal às tomadas de decisão. 

A segunda iniciativa envolve a criação de legislações específicas para o cobalto na RDC e na Zâmbia, em vez da dependência exclusiva de marcos regulatórios minerais genéricos.

Regras direcionadas, argumenta Balyaminu, permitiriam avanços em áreas hoje negligenciadas,  como rastreabilidade do minério, padrões trabalhistas, transparência e mecanismos de prestação de contas.

Por fim, ele sugere o estabelecimento de parcerias estratégicas com o bloco do BRICS (formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que incluiu outros países posteriormente). Segundo o estudo, esse tipo de aliança poderia contribuir para uma gestão mais eficaz de um mineral altamente disputado, ao mesmo tempo em que promoveria maior equilíbrio geopolítico em relação aos países do G7, além de estimular cooperação regional, políticas energéticas mais eficientes e uma governança ambiental mais robusta.

Dúvidas mais comuns

O cobalto é essencial para a transição energética porque é um componente crítico na fabricação de baterias de íons de lítio, que alimentam veículos elétricos e eletrônicos de consumo como smartphones. Sua utilização intensiva em superligas e baterias o consolidou como um insumo indispensável para a tecnologia de energia limpa, tornando-o estratégico para o futuro energético global.

A República Democrática do Congo e a Zâmbia são produtoras estratégicas de cobalto, respondendo juntas por aproximadamente 79% da produção mundial. A RDC é a maior fornecedora global, com cerca de 70% da produção, enquanto a Zâmbia contribui com aproximadamente 9%. Ambas compartilham o Cinturão do Cobre Africano, que abriga 3,6 milhões de toneladas de cobalto, uma das maiores concentrações conhecidas do minério no mundo.

O paradoxo da abundância refere-se à situação em que países ricos em recursos naturais, como RDC e Zâmbia, não conseguem converter essa riqueza mineral em desenvolvimento econômico e social para suas populações. Apesar de gerarem receitas expressivas no comércio internacional, os ganhos permanecem concentrados, refletindo-se pouco nas condições de vida das comunidades locais, que frequentemente enfrentam pobreza extrema e falta de acesso a serviços básicos.

Os principais desafios incluem trabalho infantil em proporções endêmicas, exposição de crianças a ambientes tóxicos e insalubres, conflitos entre mineração artesanal e operações industriais, fragilidade institucional, e distribuição desigual de renda. Na RDC, mais de 70% da população vive abaixo da linha de pobreza, enquanto na Zâmbia os indicadores sociais permanecem pressionados apesar das receitas minerais representarem mais de 40% das exportações.

A legislação fragmentada e a lacuna significativa de compreensão e aplicação das leis entre líderes comunitários, mineradores artesanais e força de trabalho contribuem para fragilidade institucional e conflitos sociais. Essa falta de clareza legal e participação comunitária nas decisões regulatórias agrava tensões existentes e impede a implementação eficaz de proteções trabalhistas e ambientais.

Balyaminu propõe três frentes principais: revisão inclusiva e transparente das leis de mineração com abordagem participativa que incorpore trabalhadores e comunidades locais; criação de legislações específicas para cobalto em vez de marcos regulatórios genéricos, permitindo avanços em rastreabilidade, padrões trabalhistas e transparência; e estabelecimento de parcerias estratégicas com o BRICS para gestão mais eficaz do mineral e maior equilíbrio geopolítico.

Apesar do setor mineral responder por uma parcela importante da economia e dominar as exportações da RDC, o país apresenta indicadores de desenvolvimento humano muito baixos, com expectativa de vida de apenas 59 anos e mais de 70% da população vivendo abaixo da linha de pobreza. Muitos cidadãos carecem de acesso adequado a serviços básicos como eletricidade e água potável, ilustrando como a riqueza mineral não se traduz em bem-estar social.

Legislações específicas para cobalto permitiriam avanços em áreas hoje negligenciadas pelos marcos regulatórios minerais genéricos, como rastreabilidade do minério, padrões trabalhistas rigorosos, transparência nas operações e mecanismos efetivos de prestação de contas. Essas regras direcionadas possibilitariam uma regulação mais adequada aos desafios únicos da mineração de cobalto e melhor proteção dos direitos das comunidades locais e trabalhadores.