Brasil elimina barragens a montante através de descaracterizações complexas, com investimento estimado de US$ 7 bilhões e prazo final em 2035, após tragédias de Mariana e Brumadinho.
O setor adota tecnologias que removem água dos rejeitos e implementa padrões internacionais como o GISTM, reduzindo significativamente riscos de ruptura e danos ambientais.
Mineradoras reutilizam rejeitos descaracterizados como coprodutos em indústrias de cimento e tijolos, transformando passivos ambientais em recursos de economia circular.
Resumo revisado pela redação.
Menos água, mais reuso de rejeito e adoção de novas tecnologias para garantir sustentabilidade ambiental e segurança à sociedade. É desse modo que o setor da mineração no Brasil tem operado. Uma das principais modificações em curso é o fim das barragens a montante após as tragédias de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.
Desde então, no Brasil, as mineradoras têm feito a descaracterização (eliminação das estruturas) das barragens a montante com esforço gigantesco de adequação e modernização de seus processos. “Está todo mundo surpreso com o que o Brasil tem feito. Porque essas descaracterizações são monumentais. Eu comparo às obras egípcias. São muito complexas”, disse o consultor independente de avaliação de rejeitos Luís Valenzuela. Chileno, ele esteve recentemente no Brasil para falar da experiência exitosa das barragens em seu país.
Após os episódios de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019, uma lei de 2020 passou a proibir no Brasil a construção de barragens do tipo a montante, que traz um risco maior de rompimento, e exigiu a descaracterização das barragens deste tipo no país.
A estrutura a montante é aquela em que a expansão da barragem ocorre à frente do rejeito já depositado, com os diques de contenção se apoiando sobre o próprio rejeito consolidado formado pelas chamadas bermas, degraus de materiais que vão se sobrepondo. Na barragem a jusante, a estrutura fica abaixo. No tipo de construção de linha de centro, um dreno acompanha o alteamento da construção e os rejeitos são lançados a partir da crista do dique inicial. Há ainda o método a seco, que, em vez de depositar a água juntamente com os rejeitos, o rejeito é acumulado e armazenado em áreas inclinadas para facilitar o escoamento da água. Os rejeitos são drenados e depositados em pilhas, que ficam expostas à secagem ao sol.
Principais tipos de barragens utilizadas no Brasil
Como funciona a descaracterização de barragens
O processo de descaracterização é a eliminação da barragem a montante, a estabilização da estrutura e a reconfiguração do terreno, devolvendo-o a condições naturais e estáveis, sem riscos de ruptura. Os rejeitos podem permanecer na nova estrutura, abaixo do nível do terreno, com uma revegetação nativa acima da área que foi explorada; podem ser retirados e reutilizados, seja como areia na indústria do cimento ou na produção de tijolos; ou, ainda, processados para produzir ferro-gusa, entre outras possibilidades de reaproveitamento.
Processo de descaracterização da barragem de Germano, da Samarco (Foto: Daniel Mansur)
Em 2019, eram 74 barragens a serem descaracterizadas, localizadas, em sua maioria, em Minas Gerais. Dessas, 44 já tiveram o processo de descaracterização concluído.. Os prazos de conclusão variam a depender da complexidade das estruturas das barragens. O prazo final de eliminação de todas a montante é 2035.
O Instituto de Mineração do Brasil (Ibram), que congrega mineradoras do país, estima que serão gastos cerca de US$ 7 bilhões na descaracterização no Brasil, mas a variável mais crítica neste processo não é o custo. “É o tempo”, destaca o diretor de Assuntos Minerários do instituto, Julio Nery, uma vez que há cronogramas a cumprir. “Se você entra numa barragem e tenta descaracterizar muito rápido, o risco de um acidente é grande”, afirma. O diretor explica que o processo é feito de forma extremamente cuidadosa: é preciso fazer um monitoramento grande na barragem para acompanhar se está havendo alguma alteração das características da barragem que possa levar a um problema. “A instrumentação é muito maior do que numa situação normal”, diz.
Julio Nery, Ibram (Foto: Glenio Campregher)
São muitos instrumentos de leitura, medidores e monitoramento por radar. “E, se houver qualquer modificação, tem de parar, deixar estabilizar e só depois voltar a trabalhar. Qual o prazo para estabilizar? Haverá dificuldade para dizer se vão ser dois, três ou mais dias ou mesmo uma semana. Vai estabilizar, mas tem de respeitar o ritmo que a barragem vai dizer. Por isso é um processo necessariamente demorado”, afirma.
Tivemos os dois acidentes que temos sempre que lembrar e lamentar, mas tem que fazer de tudo para que não aconteça de novo. O GISTM é fundamental nisso porque tem dois princípios básicos. Um é zero dano ao meio ambiente e o outro é zero dano à vida humana
Julio Nery, Ibram
Padrões internacionais elevam o nível de segurança
Nery vê uma grande mudança do setor com a adoção de novas tecnologias e de padrões internacionais de governança e de gestão de rejeitos. Logo após o episódio de Brumadinho, o Conselho Internacional de Mineração e Metais, mais conhecido pela sigla em inglês ICMM, em uma iniciativa em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a associação que defende os Princípios para Investimento Responsável (PRI), apoiados pela ONU, criaram o GISTM, o Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos.
Segundo Nery, ainda antes dos dois acidentes no Brasil, a partir de 2014, já havia uma discussão no mundo para a implementação de um padrão de gerenciamento de rejeitos. “Teve uma ocorrência no Leste Europeu, no qual o Rio Danúbio, um rio extremamente importante, foi poluído por minerais metálicos. E uma mina no Canadá teve um desastre significativo”, diz.
Segurança e responsabilidade: princípios do GISTM
O Instituto Global de Gestão de Rejeitos (GTMI) foi criado em janeiro de 2025 para aprimorar a segurança das instalações de rejeitos de mineração e promover a implementação do padrão GISTM. Entre as diretrizes está a criação de um Conselho Independente de Avaliação Técnica, ou ITRB, na sigla em inglês, pelas mineradoras. É um grupo de consultores independentes com a função de fazer a avaliação sobre os aspectos de projeto, operação, gerenciamento e fechamento das estruturas de disposição de rejeitos.
“Tivemos os dois acidentes que temos sempre que lembrar e lamentar, mas tem que fazer de tudo para que não aconteça de novo. O GISTM é fundamental nisso porque tem dois princípios básicos. Um é zero dano ao meio ambiente e o outro é zero dano à vida humana. Temos de seguir isso estritamente, não podemos aceitar essas situações de Brumadinho e Mariana de novo”, afirma o diretor do Ibram.
Segundo Nery, a mineração passa hoje por uma mudança tecnológica forte com a redução do uso de barragem nos projetos. “Passou de barragens para pilhas de material desaguado. Alguns falam a seco, mas não gosto muito do termo seco porque ainda tem água, em menor quantidade. Isso está sendo feito pelas empresas e o custo da disposição da tonelada de rejeito custa quase sete vezes mais que o custo da barragem. A experiência mostrou que é melhor”, explica.
Ele acrescenta que licenciar uma barragem hoje não é impossível, mas é difícil. “Não é proibido, mas haverá o atraso do licenciamento e as empresas estão mudando. É uma mudança tecnológica para o empilhamento, sai da barragem para fazer pilha. A consequência disso é que as pilhas têm um grau de risco menor do que a barragem, é uma vantagem muito grande”, diz Nery. Um segundo ponto ressaltado por Nery é que as empresas estão seguindo os padrões exigidos.
Glossário de alguns termos utilizados nesta matéria
Barragem
Estrutura construída para armazenar rejeitos ou água em empreendimentos minerários. Deve seguir normas técnicas rigorosas e ter sistemas de monitoramento e segurança. Pode ser construída pelo método a jusante, com alteamento na direção do fluxo e maior estabilidade, ou pelo método a montante, com alteamento contra o fluxo, o que demanda mais controles.
Descaracterização de barragem
É exigido por lei para barragens construídas pelo método a montante. Visa a eliminar definitivamente a função de contenção de uma barragem de rejeitos ou resíduos, removendo ou estabilizando o material armazenado e eliminando riscos. Exige projeto técnico detalhado, monitoramento rigoroso durante execução, aprovação pela ANM e órgãos ambientais, além de manutenção pós-descaracterização para garantir estabilidade de longo prazo e eliminação definitiva do risco à população e meio ambiente.
Licenciamento Ambiental
Autorização obrigatória emitida por órgão ambiental competente (federal, estadual ou municipal) para localização, instalação, ampliação e operação de empreendimentos minerários. Baseada em estudos ambientais, estabelece condicionantes e medidas de controle. Compreende três etapas sequenciais: Licença Prévia (LP), Licença de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO), cada uma delas com validade específica.
Licença social
Aceitação e apoio contínuo das comunidades e stakeholders às operações de mineração, conquistada por meio de relacionamento transparente, gestão de impactos, cumprimento de compromissos e geração de benefícios locais. Não é documento formal, mas condição essencial para viabilidade do empreendimento. Sua perda pode resultar em conflitos, paralisações e inviabilização do projeto.
Tecnologias que reduzem o uso de água e reaproveitam rejeitos
Na avaliação de Paulo Alfenas, consultor sênior de geotecnia na divisão de Tecnologia em Bauxita e Alumina da Hydro Mineração, o caminho é investir em novas tecnologias que gastem menos água e reutilizem o resíduo, inclusive para recompor florestas em áreas onde não há mais atividade, o que tem sido adotado na Hydro.
Embora a Hydro não tenha barragens que precisem ser descaracterizadas, Alfenas diz que o principal aspecto da mudança técnica do setor, que envolve mitigar riscos, é remover a água dos rejeitos. “Ter água exige controle, exige uma engenharia com maior cuidado, mais sofisticada. Retirar a água dos rejeitos, que também não é tarefa simples, reduz significativamente o risco dessas estruturas. A ideia hoje é tirar o quanto puder da água que ficava tradicionalmente nessas barragens. Além de conseguir reaproveitar a água, tem um viés de circularidade, de aproveitar insumos antes descartados”, completa.
A mineração circular, com o reaproveitamento do rejeito das barragens descaracterizadas, é outra frente importante. No caso de B3/B4, tinha 3,4 milhões de metros cúbicos de rejeitos para reaproveitamento
Adriana Bandeira, da Vale
Descaracterizações da Vale
Na Vale, são trinta estruturas a montante em seu programa de descaracterização e 19 já foram descaracterizadas. A maior parte é de barragens, mas há diques a montante que, embora tenham estrutura diferente, têm papel similar na contenção do rejeito. Desde 2019, a empresa já investiu mais de R$ 12,7 bilhões no programa de descaracterização.
A mineradora tem concentrado esforços para retirar as barragens em descaracterização do estado de emergência. Atualmente, não há mais nenhuma delas no nível 3, o mais elevado para risco de rompimento. A diretora de Descaracterização da Vale, Adriana Bandeira, cita que, em agosto de 2025, foi retirada a última barragem do nível 3. Atualmente, quatro estruturas da Vale estão em nível de emergência 2: Forquilha I, Forquilha II, Forquilha III e Barragem Superior Sul.
Adriana Bandeira, diretora de Descaracterização da Vale
Nas barragens classificadas em nível 2, apesar do risco ser menor que o das estruturas em nível 3, todo o processo de descaracterização é realizado de forma remota, a partir de um centro de operações localizado a quilômetros das obras. Escavadeiras, caminhões e outros equipamentos são controlados à distância, enquanto sensores instalados na estrutura monitoram continuamente sua estabilidade. As informações coletadas são acompanhadas em tempo real por equipes no centro geotécnico, que opera de forma ininterrupta.
“Primeiro, precisamos definir o modelo geológico e geotécnico da estrutura. Isso é feito a partir de investigações e dos instrumentos instalados na barragem, dentre os quais temos os piezômetros, que nos fornecem a condição do nível d’água, o que pode influenciar na estabilidade da estrutura“, afirma a diretora da Vale.
O caso B3/B4 e os avanços operacionais
A descaracterização da barragem B3/B4, localizada em Nova Lima (MG), foi um dos maiores desafios técnicos e operacionais da Vale na avaliação do gerente geral de Projetos de Descaracterização da companhia, Marcel Pacheco. O trabalho começou em maio de 2019 e foi finalizado seis anos depois, em maio de 2025.
Antes e depois da descaracterização de barragens das minas B3 e B4 da Vale, em Nova Lima (MG)
Como a barragem era classificada em nível de emergência 3, além do desafio de ser um trabalho operado à distância, Pacheco cita que havia incertezas geotécnicas quanto aos riscos envolvidos. Foi preciso fazer um intenso mapeamento das condições hidráulicas e geotécnicas, com forte integração entre diferentes áreas técnicas da empresa.
“Um dos obstáculos mais críticos foi a limitação da base topográfica, cujos levantamentos foram realizados na década de 1960, exigindo adaptações e validações contínuas ao longo das etapas de escavação”, afirma ele.
A barragem, construída na década de 1970, era grande, com volume de 3,4 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Sua descaracterização foi feita por meio da remoção dos maciços e rejeitos, seguindo etapas de cinco metros de escavação. A remoção dos rejeitos começou no quarto trimestre de 2020 e foi concluída no segundo trimestre de 2024, seguindo um “planejamento técnico rigoroso e etapas operacionais complexas”, como diz Pacheco.
Como medidas preventivas, uma estrutura de contenção a jusante na região de Macacos (MG) foi construída e um canal de cintura, implantado. Marcel Pacheco cita outros desafios externos na obra, como a construção da estrutura de contenção, realizada no período chuvoso, e o fato de a execução de boa parte da descaracterização ter ocorrido durante a pandemia da covid-19, o que exigiu protocolos de saúde e segurança.
Após a conclusão das remoções, foi implementado o Plano de Recuperação de Área Degradada (Prad), com ações como a canalização das águas e a recuperação das margens, com a revegetação da área. Para Bandeira, as medidas consolidam o papel da mineração responsável, comprometida com a segurança das pessoas. “As descaracterizações de barragens deixam um legado positivo para o setor de mineração, com reflexos significativos na sociedade e no meio ambiente”, diz.
Ela lembra de outra frente importante do setor: a mineração circular, com o reaproveitamento do rejeito das barragens descaracterizadas, como foi o caso de B3/B4, que tinha 3,4 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O mesmo ocorre na Barragem Sul Superior, cuja descaracterização será finalizada em 2029 e que tem 7,8 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O que fazer com tanto material? “A solução foi garantir uma mineração circular, não com o intuito de ser rentável, mas com o intuito de reduzir o impacto”, afirma.
Mineração circular e reintegração ambiental
Enquanto as duas barragens citadas são eliminadas, o rejeito retirado vai sendo disposto em cavas de mineração desativadas. Dali, é transportado e reaproveitado. “O rejeito se transforma em coproduto, como areia. Ou dispomos para outras mineradoras processarem, para extrair minério”, diz Adriana.
Na Samarco, as intervenções para descaracterizar estruturas ocorrem no Complexo de Germano, localizado entre os municípios de Mariana e Ouro Preto (MG). Uma delas, a Cava de Germano, foi descaracterizada no ano passado, um ano antes do previsto. A outra, a Barragem de Germano, está em fase final de descaracterização. A conclusão, incluindo a revegetação da área, prevista para 2029, deve ser antecipada para o ano que vem.
O diretor Técnico e de Projetos da Samarco, Reuber Cury, diz que dois dos principais pontos de uma descaracterização são (1) não dispor rejeitos na barragem e (2) não ter nenhum tipo de rejeito misturado à água, pois não é permitido formar lagos.
“Esse talvez seja um dos nossos maiores desafios. É uma região muito grande, uma área equivalente a 300 campos de futebol e toda a água que cair na região e na redondeza tem de ser drenada o mais rápido possível, porque não pode formar o lago”, disse. Na região de Germano, o período chuvoso é bem intenso: em um ano tem quase 1.800 milímetros. “Imagine em um ano chover um volume de [quase] dois metros e ter que direcionar toda essa água para não formar acúmulo”, detalha o diretor da Samarco.
Cury destaca, ainda, o trabalho de reforço na estrutura descaracterizada, que precisa ser de longo prazo. “Em algumas referências, o longo prazo é de no mínimo sete gerações e, se for considerar 30 anos cada geração, tem de fazer um trabalho para garantir a estabilidade por 210 anos. Precisa ter uma preocupação técnica, uma preocupação de que o que foi projetado e o que está sendo executado estejam conforme o previsto, para atender a demanda de longo prazo”, completa.
Centro de Monitoramento e Inspeção (CMI) da Samarco (Foto: Divulgação)
Ele ressalta todo o monitoramento que foi implementado. “Uma lição aprendida muito importante foi a construção de um centro de monitoramento integrado que funciona 24 horas, sete dias na semana, em todas as nossas estruturas. São mais de 2 mil instrumentos instalados e softwares que fazem a integração das informações de geotécnica. São equipamentos de última geração”, explica.
A última fase da descaracterização de uma estrutura a montante é a revegetação dá área, integrando ao ambiente do entorno. Isso envolve uma série de especialistas diferentes, como biólogos, para replicar as características nativas. No caso do Complexo de Germano, a opção mais razoável foi manter o rejeito no solo e refazer a vegetação por cima dele.
“O volume de material que tinha nessas barragens era tão grande que o impacto de remoção disso para outro local seria monumental. Não só na retirada, no transporte, mas também onde se iria dispor isso. Todo o impacto foi considerado e o que ficou definido, baseado nas resoluções e leis, é que as barragens estariam descaracterizadas e integradas ao meio ambiente”, diz.
Segundo Cury, a revegetação da área incluiu técnicas como a disposição de uma camada fina de terra acima do rejeito, para facilitar o crescimento da vegetação nativa. Nesse caso, foram escolhidas espécies que não causassem instabilidade, excluindo, por exemplo, árvores de grande porte. “É feito de uma maneira harmônica e que não compromete a estrutura, com espécies da região possíveis para reabilitar a área”, acrescenta o diretor.
Rejeito como recurso de estabilidade e regeneração
Um desafio foi a movimentação de 18 milhões de metros cúbicos de rejeito nas descaracterizações no Complexo de Germano. “É como se a gente enchesse dez estádios do Mineirão para garantir a estabilidade. O rejeito pode ser o vilão, mas pode ser o herói. No nosso caso de descaracterização, o rejeito virou herói. E ele tem uma função estruturante, de aumentar a estabilidade. Foi feito um contrapeso para que aquela estrutura fique cada vez mais estável e segura. O rejeito gerado foi fundamental para dar estabilidade à estrutura anterior”, detalha Cury.
No Complexo de Germano, existe uma unidade industrial que vai continuar sendo operada. Há outras minas em operação, mas sem a disposição de rejeitos em barragem. O investimento da Samarco na descaracterização das duas estruturas corresponde a R$ 3,5 bilhões e, na avaliação de Cury, a descaracterização permite à Samarco voltar a operar como antes.
“Foi a base para retomar e avançar em outras perspectivas, como a de reparação. Era fundamental para a comunidade do entorno e para toda a sociedade que as estruturas remanescentes estivessem absolutamente seguras. Nosso esforço é adequar todo o trabalho para atender as normas, as leis e os melhores padrões e procedimentos internacionais, com acompanhamento de auditoria”, afirma o executivo.
* Especial para o Radar Mineração.
Dúvidas mais comuns
A descaracterização é o processo de eliminação de barragens a montante, estabilização da estrutura e reconfiguração do terreno, devolvendo-o a condições naturais e estáveis, sem riscos de ruptura. Esse processo tornou-se fundamental após as tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), quando uma lei de 2020 proibiu a construção de novas barragens a montante no Brasil e exigiu a descaracterização das estruturas existentes desse tipo.
A barragem a montante é aquela em que a expansão ocorre à frente do rejeito já depositado, com os diques se apoiando sobre o próprio rejeito consolidado, apresentando maior risco de rompimento. Na barragem a jusante, a estrutura fica abaixo. No tipo de linha de centro, um dreno acompanha o alteamento e os rejeitos são lançados a partir da crista do dique inicial. Há ainda o método a seco, que acumula rejeitos em áreas inclinadas para facilitar o escoamento da água, reduzindo significativamente os riscos.
O tempo de descaracterização varia conforme a complexidade das estruturas. O processo é necessariamente demorado porque exige monitoramento contínuo com instrumentação sofisticada, e qualquer alteração detectada requer parada imediata para estabilização antes de retomar os trabalhos. O prazo final para eliminação de todas as barragens a montante no Brasil é 2035, e em 2019 havia 74 barragens a serem descaracterizadas, das quais 44 já tiveram o processo concluído.
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) estima investimentos de aproximadamente US$ 7 bilhões na descaracterização de barragens no Brasil. Porém, segundo o diretor de Assuntos Minerários do instituto, o tempo é a variável mais crítica neste processo, não o custo, pois há cronogramas a cumprir e qualquer pressa aumenta significativamente o risco de acidentes.
O GISTM é o Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos, criado pelo Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a associação de Princípios para Investimento Responsável (PRI). Seus dois princípios básicos são zero dano ao meio ambiente e zero dano à vida humana, e ele estabelece diretrizes como a criação de um Conselho Independente de Avaliação Técnica (ITRB) para avaliar aspectos de projeto, operação, gerenciamento e fechamento de estruturas de rejeitos.
A mineração circular envolve o reaproveitamento do rejeito das barragens descaracterizadas, transformando-o em coproduto. Os rejeitos podem ser reutilizados como areia na indústria do cimento, na produção de tijolos, para extrair ferro-gusa ou ser processados por outras mineradoras para extração de minério. Além disso, os rejeitos podem ser dispostos em cavas de mineração desativadas e utilizados para recompor florestas em áreas onde não há mais atividade, reduzindo impactos ambientais.
As principais tecnologias incluem operação remota de equipamentos a partir de centros de operações, com escavadeiras e caminhões controlados à distância; instrumentação sofisticada com piezômetros, medidores e monitoramento por radar; centros de monitoramento integrados que funcionam 24 horas por dia; e softwares que integram informações de geotecnia em tempo real. Além disso, há investimento em métodos que removem água dos rejeitos, como pilhas de material desaguado, que reduzem significativamente o risco das estruturas em comparação com barragens tradicionais.
A revegetação é a última fase da descaracterização e envolve especialistas como biólogos para replicar características nativas da região. O processo inclui disposição de uma camada fina de terra acima do rejeito para facilitar o crescimento da vegetação, escolha de espécies nativas que não causem instabilidade estrutural, canalização de águas e recuperação de margens. A estrutura descaracterizada deve manter estabilidade de longo prazo, considerando períodos de até 210 anos (sete gerações de 30 anos cada).