Durante a primeira edição do SP Innovation Week, o Radar Mineração conversou com Yuri Ramos, diretor do MIT Industrial Liaison Program, sobre as transformações tecnológicas que estão redefinindo as operações e as carreiras no setor industrial. Nesta entrevista exclusiva, ele destaca a importância de conectar os times de inovação diretamente às “dores” da operação e defende o modelo de inovação aberta.  

No setor mineral, temos desde pequenas indústrias até gigantes com alto amadurecimento tecnológico. Para as empresas que buscam trilhar um caminho de inovação mais sólido, por onde começar? 

Todo time de inovação precisa estar conectado ao time de operações. A inovação tem que entender as “dores”, os desafios e os desejos da operação.   Além disso, é fundamental adotar a inovação aberta. Seguir buscando soluções apenas “dentro de casa” aumenta a chance de fracasso ou de algo que vai demorar muito tempo. Um caminho é a colaboração com grandes centros e universidades, como o próprio MIT, que estou aqui representando e que já trabalha com centenas de empresas no mundo para resolver grandes desafios. Então, reforçando: inovação conectada à operação, inovação aberta e inovação conectada a universidades e grandes centros tecnológicos eu diria que são os principais caminhos. 

Olhando para um horizonte de dez anos, quais tecnologias emergentes você acredita que terão o maior impacto na indústria mineral? 

A primeira, sem dúvida, é a inteligência artificial (IA), que é o tema de maior interesse hoje. Eu recebi no MIT recentemente um grupo de 50 executivos do Brasil e tudo o que eles queriam saber era sobre inteligência artificial. Outra aposta forte é a computação quântica. Embora ainda não esteja acessível às massas, por ser muito cara, quando grandes empresas tiverem acesso pleno, ela encurtará drasticamente o tempo de simulações e modelos complexos.  
Um computador quântico dourado alojado em uma estrutura metálica está suspenso em um laboratório industrial moderno e pouco iluminado, com luzes desfocadas ao fundo.
Computador quântico: a arquitetura de ouro que redefine o processamento de dados global. (Foto: Phonlamai Photo / Shutterstock)

Como o profissional da mineração deve se preparar para essas transformações? Qual o seu conselho para quem busca qualificação neste momento de crescimento exponencial da IA? 

Os profissionais precisam fazer um exercício de visualização sobre como suas áreas estão se transformando. A pergunta a ser feita deve ser: será que daqui a cinco ou dez anos o que eu faço será do mesmo jeito? A partir daí, deve-se buscar o upskilling [atualização de competências], que pode ser incentivado pela empresa ou não. Um ponto crucial é não terceirizar a carreira para a empresa; o profissional precisa cuidar da sua própria trajetória. Fazer esse exercício de olhar para a frente e entender quais habilidades técnicas e não técnicas serão necessárias para sobreviver e se destacar é fundamental. 

Existe uma valorização maior das habilidades técnicas ou comportamentais nesse novo cenário tecnológico?  

Ambas são essenciais. Se Jensen Huang, cofundador da Nvidia, empresa mais valiosa do mundo, estivesse entre duas pessoas para serem contratadas, em quaisquer áreas, ele contrataria a pessoa que sabe trabalhar com IA. Na verdade, ele vê isso como uma habilidade quase comportamental. Ele não diz que a pessoa tem que entender a tecnologia por trás da IA, mas sim ter abertura, disciplina e determinação de aprender, independentemente da área de atuação. Além disso, precisamos das habilidades técnicas de cada área, mas também das soft skills históricas, como empatia, trabalho em equipe e resolução de problemas. É possível, inclusive, usar a IA para montar um plano de desenvolvimento de habilidades técnicas ou não técnicas. Mas lembre-se: planejar e sonhar são coisas importantes, mas o nome do jogo é execução. Quem não executar vai ficar para trás. 

Jensen Huang, cofundador da Nvidia
Jensen Huang, cofundador da Nvidia (Foto: Rob Pegoraro / Flickr)

Onde os negócios no Brasil devem mirar para gerar mais valor agregado e não serem apenas produtores de commodities? 

As empresas devem focar em áreas de deep tech e hard tech que resolvam os grandes problemas da humanidade. Não precisamos apenas de soluções para problemas pequenos. O foco deve estar em temas como descarbonização, transição energética e grandes desafios de saúde, por exemplo. Recomendo que as empresas busquem soluções para as grandes dores reais da indústria e da humanidade. 
 
*Especial para o Radar Mineração