- A mineração 4.0 demanda profissionais com competências híbridas que integram formação técnica tradicional, programação, conhecimento ambiental e compreensão do arcabouço regulatório do setor.
- O setor investirá US$ 64,5 bilhões até 2029, mas enfrenta escassez de mão de obra qualificada devido à baixa procura pelos cursos de engenharia de minas, alta evasão e dificuldade em atrair talentos para regiões remotas.
- Empresas adotam modelos de contratação como Fly-in Fly-out, expandem polos de formação em regiões mineradoras e investem em infraestrutura local para contornar a falta de profissionais especializados.
A digitalização das operações, o avanço da agenda ESG e o aumento da complexidade regulatória transformam não apenas a forma como a mineração opera, mas também o perfil dos profissionais que o setor demanda. Na chamada mineração 4.0, cresce a busca por trabalhadores capazes de ir além da formação técnica tradicional e integrar competências digitais, visão socioambiental e entendimento do ambiente normativo.
A mudança da trilha de carreira na mineração também está relacionada ao bom momento do setor, que deve investir US$ 64,5 bilhões até 2029, segundo dados do Panorama Setorial Mineração, da Robert Half. E isto tende a elevar a demanda mão de obra: “[hoje] A mineração é uma atividade altamente multidisciplinar”, define a gerente de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Aline Nunes.
Segundo ela, além do entendimento de novas tecnologias, os profissionais do setor, como engenheiros de minas e geólogos, precisam agora compreender as exigências de áreas ambientais e de direito, entre outras. “Independentemente de trabalharem diretamente ou não no departamento de meio ambiente, esses profissionais precisam ter conhecimento sobre os processos de licenciamento, os critérios exigidos e o complexo arcabouço legal e regulatório do setor”, exemplifica.
Perfil multidisciplinar
Esse contexto abre portas para novas especializações. O gerente da consultoria Robert Half, Alexandre Mendonça, destaca, por exemplo, os chamados engenheiros de sistemas embarcados, cuja função é programar a inteligência de equipamentos físicos, como caminhões autônomos e esteiras, que já fazem a leitura automatizada do teor do minério. “Esses profissionais são, normalmente, engenheiros mecânicos, engenheiros eletricistas ou mesmo engenheiros de computação “, diz.

A preparação para posições mais especializadas como essas, segundo Mendonça, ocorre por meio de formações em linguagens de programação, que se somam à formação tradicional.
Aline confirma que não se trata de um problema de preparação de novos profissionais. “Os cursos de engenharia são considerados muito bons no Brasil. Prova disso é que vários profissionais brasileiros recebem oportunidades para trabalhar no exterior. Porém, tanto a legislação específica do mercado (arcabouços legal e ambiental) quanto a tecnologia, evoluem muito rapidamente, o que demanda especializações e aprendizado contínuo”, reforça.
Apesar da boa base técnica, ela aponta que os currículos atuais são deficientes em áreas como direito, regulação e meio ambiente.
Hoje, é exigido que qualquer engenheiro entenda os critérios de licenciamento e o complexo arcabouço legal e regulatório do país, independentemente de atuar na área ambiental ou apenas na operação técnica.

Escassez de talentos tem várias camadas
Apesar da avaliação positiva sobre a qualidade técnica dos cursos nacionais, muitas empresas do setor relatam problemas relacionados à escassez de profissionais qualificados. Uma das razões, segundo Aline, é justamente a falta de capacitação contínua necessária para acompanhar os novos desafios do setor. Além disso, ela destaca que a formação de mão de obra não acompanha a demanda crescente gerada pela perspectiva de aumento de investimentos estruturais e projetos governamentais de revitalização industrial.
O relatório da Robert Half destaca que “os salários médios de profissionais de engenharia de minas sempre estão entre os mais elevados quando comparados às diversas engenharias, mesmo assim, o volume de pessoas interessadas por vagas nos vestibulares desse curso se encontra entre os mais baixos – em algumas faculdades, não chega a dois candidatos por vaga”.
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A consultoria observa ainda que, além da baixa procura pelo curso, há alta evasão na graduação, dada a complexidade do assunto. Outra dificuldade que as mineradoras enfrentam é atrair mão de obra qualificada para áreas remotas, onde os empreendimentos costumam estar localizados.
“Isso não se deve, necessariamente, à recusa ou relutância do profissional em se mudar. Quem escolhe carreiras ligadas à mineração geralmente já compreende e aceita essa característica do trabalho”, pondera Mendonça. O gargalo, em sua visão, é puramente numérico: “Como o volume de profissionais qualificados formados é muito restrito, a oferta não atende toda a demanda do mercado. Com a escassez, os poucos profissionais disponíveis ganham o poder de escolha e acabam priorizando vagas em localidades mais próximas aos seus laços familiares.”
Para Mendonça, esse desafio pode ser contornado pelas empresas, que geralmente oferecem melhor remuneração ou benefícios adicionais, além do plano de carreira, para atrair um talento para áreas remotas. Isso, no entanto, pode significar a necessidade de investimento financeiro cerca de 40% maior, em comparação a uma contratação nos grandes centros urbanos. A escassez de profissionais é agravada nessas regiões porque há dificuldade em promover o “casamento” entre a alta especificidade exigida pelo cargo e a disposição do trabalhador em ir para o local remoto, ainda na visão dele. “Muitas vezes, o profissional ideal para a cadeira já está muito bem posicionado em um grande centro urbano, tornando difícil convencê-lo a se mudar”, observa.

