- A mineração urbana pode recuperar metais valiosos de produtos descartados, com potencial de US$ 380 milhões em smartphones brasileiros até 2029 e bilhões em resíduos eletrônicos globalmente.
- A falta de rastreabilidade, informalidade na cadeia de cobre e ausência de codificação padronizada impedem quantificar e otimizar a recuperação de minerais secundários no Brasil.
- A transição energética aumentará demanda por cobre, lítio e terras-raras em 30-40% até 2050, tornando a mineração urbana estratégica para reduzir impactos ambientais e déficits de fornecimento.
Que atire a primeira pedra quem nunca teve um smartphone antigo escondido na gaveta. Agora, que atire a segunda quem tem duas ou mais opções seguras e confortáveis para descartá-los. Com pedras nas mãos ou nos bolsos, fato é que há metais valiosos como ouro, prata, cobre, lítio e cobalto nesses equipamentos, e boa parte dessa riqueza está engavetada por falta de informação e de políticas de logística reversa. E não é só no Brasil.
Na Suíça, um levantamento estimou que existiam cerca de 7 milhões de telefones celulares sem uso em 2022, contendo cerca de US$ 10 milhões em ouro perdido neles, além de prata e cobre.
No Brasil, havia 1,3 smartphone por habitante, totalizando 272 milhões de aparelhos em uso, em 2024, de acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. E, ao considerarmos que a vida útil média desses aparelhos é de três anos, chegamos à inferência de que mais de US$ 380 milhões poderão estar guardados em nossas gavetas até 2029.
Os smartphones são só um exemplo de tesouro escondido. De outros eletroeletrônicos a latinhas de bebidas e cinzas de incineração, a extração de minerais em itens inutilizados tem potencial imenso de reaproveitamento, consolidando um mercado que é chamado de mineração urbana.
Upcycle, ou circularidade
A mineração urbana é um tipo de economia circular, ou upcycle, e parte do princípio básico de que o que seria descartado como resíduo pode ser reprocessado e voltar a ter valor de mercado como insumo.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reconhece esse segmento, definido por seu diretor de desenvolvimento industrial, Jefferson Gomes, como uma “virada de chave” para a indústria nacional. “Após um ciclo de 14 meses consecutivos de falta de confiança, essa recuperação do segmento industrial pode vir, justamente, de setores nos quais o Brasil tem competitividade natural, e também grande potencial, como a mineração urbana”, afirmou.

Na lógica de circularidade mineral, alguns mercados, como o de reciclagem de latas de alumínio, estão mais avançados. Hoje, de acordo com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), a recuperação de alumínio tem potencial de suprir 30% da demanda nacional pelo insumo, por exemplo. Essa estatística considera que 100% das latinhas sejam recicladas pós-consumo, e estamos perto disso. De acordo com o último levantamento da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), o Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio em 2024.
A pesquisadora Lúcia Helena Xavier, do Cetem, trabalha com mineração urbana há 12 anos e é uma das autoras do estudo mais completo sobre o tema publicado no Brasil até o momento. Em entrevista ao Radar Mineração, ela revela que faltam dados formalizados de recuperação de outros minerais, além do alumínio, e isso se dá porque alguns itens sofrem variações e violações por questões mercadológicas. “O fato de um resíduo ter sido coletado em uma determinada região, por exemplo, não significa que ele vai ser empregado naquela mesma cadeia produtiva. Pelo contrário: ele pode até estar indo para fora do país”.
A rastreabilidade de minerais já beneficiados – como o cobre e o alumínio – enfrenta desafios. “No Brasil, temos desde 2024 uma regulamentação que permite a importação de resíduos, principalmente aqueles aplicados à recuperação de minerais críticos e estratégicos. Embora tenha aspectos positivos nisso, a importação pode acarretar dificuldades relativas à identificação da origem dos materiais”, explica.
O desafio da rastreabilidade
Rastrear a origem e destino de cada mineral presente em um produto é um desafio que se deve também às dificuldades de descarte para reciclagem, apesar de o Brasil ter cerca de 4 mil empresas atuando na logística reversa de eletrônicos.
Cláudia Salles, gerente de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), salienta que “é preciso conscientização para que as pessoas entendam tanto o risco ambiental quanto o valor agregado dos materiais, assim como já acontece com o plástico e as latinhas de alumínio”.
Para garantir maior rastreabilidade, Lúcia Helena, do Cetem, lembra que existe uma proposta global para a criação de uma espécie de “passaporte digital dos produtos”, sendo que, no Brasil, a nota fiscal eletrônica pode ser considerada um instrumento importante para isso.
“Somos um dos países que detém o maior número de informações concentradas em um documento eletrônico atualmente, e isso é um facilitador para essa rastreabilidade”, destaca.
Ela também lembra que, antes mesmo da Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010 (veja mais a seguir), havia cadeias produtivas como a do vidro e a do alumínio, além de embalagens de agrotóxicos, que se destacavam com políticas de recuperação, processamento e reinserção dos materiais no mercado. “Então, para além da mineração urbana, já tínhamos efetivamente a circularidade de produtos e processos. Hoje, estamos trabalhando em um sistema informatizado para rastreabilidade e já temos um protótipo, que deve se concretizar ainda em 2026”, revela.
Cláudia, do Ibram, corrobora que um dos grandes desafios do mercado é a codificação de produtos, em linha com um padrão internacional. “Alguns materiais secundários estão sendo identificados com código de produto primário. Mas eles não são primários, pois já têm abatimento de carbono. Precisamos ter um registro correto de código de cada item, de cada mineral, para poder rastreá-lo na cadeia”, explica.
A rastreabilidade, em sua visão, é uma das prioridades do setor. “Precisamos de incentivos para que as empresas adotem boas práticas, acompanhando as movimentações de transporte de resíduos e fazendo as cadeias de custódia dessas movimentações. Mas, para que cada produto seja acompanhado corretamente, a codificação é essencial”, reforça.
Também tem garimpo urbano, tanto “legal” quanto “ilegal”
Um exemplo ainda pouco estruturado é a recuperação de resíduos resultantes do tratamento de efluentes. “Sim, a partir do esgoto é possível recuperar fontes metálicas, obtendo minérios valiosos, inclusive a prata”, diz Lúcia Helena, do Cetem.
Ela também cita outras cadeias que podem ter minérios importantes, como a do cobre, obtido a partir de cabos de eletrificação e de infraestrutura, e de itens como pilhas, ímãs, baterias e lâmpadas fluorescentes.
No caso dos ímãs, são estudadas formas de recuperação de elementos de terras-raras (ETR) por meio de técnicas de metalurgia, como lixiviação, purificação e separação. Já as lâmpadas fluorescentes contêm térbio (um elemento químico metálico classificado como terra-rara) no pó que reveste os tubos de vidro. A cadeia de reciclagem do cobre, por sua vez, esbarra em questões legais e grande informalidade, já que a sua principal fonte de recuperação são os cabos de eletrificação, que costumam ser alvo de furtos em muitas regiões do país. Em fevereiro deste ano, por exemplo, a Polícia Federal deflagrou operação no Rio de Janeiro contra uma quadrilha que teria movimentado meio bilhão de reais com roubos de fios de cobre, conforme noticiado por vários veículos de mídia.
Essa prática criminosa é o que Cláudia, do Ibram, chama de “garimpo urbano ilegal”, que, assim como o garimpo ilegal na Amazônia, dificulta planejamentos e crescimento econômico do Brasil. “Por não sabermos qual a quantidade dos resíduos de cobre que tem origem em roubo, não conseguimos detectar, efetivamente, o que está retornando para a cadeia legalmente”, explica. “Precisamos [contra isso] de ações educativas para trazer a informação e, também, para fomentar investimentos em pesquisa e desenvolvimento, agregando conhecimento ao mercado e estabelecendo estratégias sustentáveis para aplicações dos resíduos”, propõe a gerente do Ibram.
Ainda na cadeia do cobre, Lúcia Helena, do Cetem, observa que o primeiro caso documentado de mineração urbana veio da Suécia (assim como o dos eletroeletrônicos), que, na ocasião, estava substituindo instalações elétricas e conseguiu recuperar mais de 2 mil toneladas de cobre somente no primeiro projeto, no início dos anos 2000. “A partir de então, situações envolvendo ilegalidade no reaproveitamento do cobre surgiram em outros países, mostrando que o problema não é exclusividade do Brasil. Há registros de casos também em países desenvolvidos, como o Japão, e até mesmo na ‘segura’ Suécia”, diz.
Mineração urbana ganha relevância com a transição energética
Para Cláudia, do Ibram, a agenda de mineração urbana tem conquistado espaço e importância não apenas no aspecto ambiental, mas, especialmente, como insumo da transição energética. Ela lembra que existe grande demanda por terras-raras, cobre, lítio e tipologias minerais vinculadas às novas fontes de geração de energia.
Como parâmetro, a especialista cita que a Agência Internacional de Energia (AIE), em seu último relatório, calculou que a demanda por cobre aumentará em 40% e a de lítio e níquel em mais de 30% até 2050. “Ao mesmo tempo, globalmente, são discutidas estratégias de menor impacto para obtenção de tais materiais. Enfim, existe uma demanda crescente por eles, mas também uma preocupação muito grande relativa à fonte de cada um. Por isso, muitos destes bens precisam vir da mineração urbana, que será cada vez mais valorizada por critérios ambientais e de sustentabilidade”, contextualiza.
Oportunidade e desafios

À medida que a primeira geração de baterias e ativos de energia essenciais para a transição energética chega ao fim de suas vidas úteis – aumentando a quantidade de lixo eletrônico -, surgem mais oportunidades circulares para capturar o valor dos minerais.
Segundo a Fundação Ellen Macarthur, somente o descomissionamento de turbinas eólicas pode impulsionar, até 2035, um mercado de sucata três vezes maior do que o de US$ 9 bilhões existente atualmente. Ao mesmo tempo, os resíduos de cobre em fim de vida, não contabilizados, poderão valer mais de US$ 110 bilhões em 2035. Isto equivale à produção anual atual combinada das 20 maiores minas de cobre do mundo.
A redução das reservas minerais pode criar déficits de fornecimento, os quais ameaçam o crescimento econômico mundial, além de aumentarem a volatilidade de preços, darem origem a tensões geopolíticas e provocarem danos ambientais na corrida pelo acesso às reservas.
Análise da EY evidencia que um dos pontos de atenção neste cenário não é somente a escassez de recursos geológicos, mas sim o declínio da qualidade do que é recuperado e a falta de investimentos em sua extração. De modo geral, a consultoria prevê que a demanda crescente por minerais exigirá US$ 5,4 trilhões em investimentos em mineração e metais até 2035 – e a mineração urbana pode minimizar esses aportes e os impactos da corrida por minerais críticos.
Circularidade vai além das minas urbanas
Com as previsões de crescimento da demanda gerada pela transição energética, especialistas entendem que a mineração urbana não deve substituir a mineração convencional, mas sim complementá-la.
Lúcia Helena conceitua que a circularidade no setor mineral vai muito além das práticas de mineração urbana e diz que há vários exemplos de mineradoras desenvolvendo processos para reincorporar insumos secundários em suas atividades, por meio de técnicas de circularidade aplicadas durante o processo de extração primária.
A Vale é uma delas e atua dentro da sua meta ser zero waste mine até 2030, adotando a mineração circular. “Em 2024, produzimos 12,7 milhões de toneladas de minério de ferro por meio de fontes circulares e, até 2030, temos a perspectiva de que aproximadamente 10% da nossa produção anual seja proveniente da mineração circular”, informa a empresa.
Para atingir essa circularidade, as mineradoras reaproveitam, em seus processos, insumos que podem vir de barragens, pilhas de estéreis ou rejeitos. Um exemplo é a areia (quartzito), mas existem diversos outros produtos que podem fazer parte do processo.
Cláudia, do Ibram, explica as diferenças de circularidade no processo de extração mineral e na mineração urbana. O primeiro caso envolve ações de circularidade no processo produtivo, e é importante que exista eficiência na hora da extração, entendendo que tudo que se movimenta durante uma extrativa mineral é um bem do subsolo. “Quando se faz uma movimentação de terra para extração, mexe-se com hematita, itabirito e também outros bens minerais, que podem ter usos diversos dentro da cadeia produtiva. Isso está dentro da lógica da circularidade, direcionando o que seria um rejeito para outras finalidades”, diz.
No cenário da mineração urbana, placas de ferro, aço, fio de cobre, célula fotovoltaica e outros tantos elementos que já passaram pela cadeia produtiva podem ser extraídos de produtos já acabados e transformados novamente para uma segunda vida útil.
