CEO da Boston Metal, Tadeu Carneiro, conta que a empresa está focada em metais críticos (Divulgação/ Arte)
Recuperação de metais críticos a partir de rejeitos: Boston Metal inicia operação em Minas Gerais
O CEO global da companhia, Tadeu Carneiro, conta a relação da tecnologia disruptiva da empresa com a astronomia e revela detalhes da planta brasileira prestes a entrar em operação
Edição: Rodrigo Conceição Santos e Mariana Sgarioni
Publicado em
30/06/2026 6min de leitura
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Boston Metal: tecnologia criada para a Lua estreia em Minas Gerais e foca nos metais do futuro
Algumas histórias da mineração começaram longe. Mas poucas tão longe quanto a da Boston Metal, que se prepara para iniciar ainda este ano a operação de sua primeira planta industrial em Minas Gerais. A tecnologia que deu origem à empresa nasceu no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, durante pesquisas financiadas pela Nasa para ampliar a permanência de astronautas na Lua.
O objetivo era utilizar eletricidade para processar o regolito lunar — a camada de poeira e rochas que cobre a superfície do satélite — e separar metais do oxigênio por meio da eletrólise. Quando os pesquisadores perceberam o potencial econômico dos metais produzidos no processo, a pesquisa ganhou um novo rumo e abriu caminho para uma tecnologia aplicada hoje à mineração.
Foi assim que nasceu a Boston Metal, desenvolvedora de uma tecnologia capaz de recuperar metais a partir de minérios de baixo teor, rejeitos de mineração e resíduos metalúrgicos, criando uma nova rota para aumentar a circularidade e a eficiência no setor mineral.
Agora, a empresa se prepara para colocar essa tecnologia em operação comercial. Após investir cerca de US$ 120 milhões em sua unidade de Coronel Xavier Chaves (MG), a Boston Metal prevê iniciar as atividades de sua primeira planta industrial entre setembro e outubro deste ano.
Há diferença entre o que a Boston Metal faz no Brasil e suas operações em outros países?
A Boston Metal desenvolveu uma plataforma tecnológica com duas frentes. A primeira é voltada para metais críticos de baixo volume e alto valor, como nióbio, tântalo, vanádio, cobalto, níquel, tungstênio e molibdênio. A segunda é destinada a metais produzidos em larga escala, como os usados na produção de aço.
Neste momento, o nosso foco está nos metais críticos. Estamos utilizando a tecnologia para recuperar esses materiais a partir de matérias-primas de baixo teor, rejeitos minerais e resíduos industriais. Portanto, não existe diferença entre o que fazemos no Brasil e o que faremos em qualquer outra parte do mundo. O que torna o Brasil especial é o fato de sediar a primeira planta industrial dessa tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas iniciadas no MIT há mais de uma década.
Unidade da Boston Metal recebeu investimentos de US$ 120 milhões (Foto: Divulgação Boston Metal)
E por que o Brasil?
Conhecemos o país e as oportunidades existentes. Isso pesou na decisão. Não apenas porque sou brasileiro, mas porque entendemos a realidade do país. Outro fator foi que a primeira oportunidade de demonstrar a tecnologia em escala industrial aconteceu no Brasil. Os testes iniciais também ocorreram no país e isso permitiu formar equipes treinadas e desenvolver conhecimento local.
Além disso, a energia elétrica fornecida pela distribuidora e geradora de energia em Minas Gerais Cemig é 100% limpa, o que reduz a pegada de carbono do processo.
Investimos quase US$ 120 milhões na planta mineira com recursos dos acionistas, sem incentivos governamentais. Fizemos isso porque acreditávamos que essa era a forma de demonstrar a tecnologia com menor risco.
Como surgiu a tecnologia da Boston Metal?
A origem está ligada à ideia de ampliar o tempo de permanência de astronautas na Lua. O conceito era utilizar eletricidade para processar o regolito lunar e produzir oxigênio.
Quando o financiamento da Nasa terminou, os pesquisadores passaram a olhar para o metal produzido no processo, e não mais para o oxigênio. Foi então que desenvolveram um novo ânodo, substituindo o irídio por uma liga de cromo. A partir desse avanço nasceu a Boston Metal.
O diferencial da tecnologia é que ela não exige matérias-primas com alta concentração do metal, e isso permite aproveitar rejeitos minerais e escórias metalúrgicas que hoje são considerados passivos. Também possibilita trabalhar com pré-concentrados de baixo teor.
Com a mesma quantidade de minério é possível produzir duas ou três vezes mais metal, com custo igual ou menor e com investimentos totais bem inferiores.
Pode dar mais detalhes?
Nos processos convencionais, uma mina com 1% de teor precisa concentrar esse material até cerca de 50%. Nesse caminho, perde-se uma parcela significativa do metal. No nosso caso, o foco não é maximizar o teor, e sim maximizar a recuperação. Em vez de trabalhar com 50%, podemos operar com 5%, recuperando muito mais metal, por exemplo.
Assim, com a mesma quantidade de minério é possível produzir duas ou três vezes mais metal, com custo igual ou menor e com investimentos totais bem inferiores.
Além disso, uma nova operação nossa pode entrar em funcionamento em cerca de dois anos. No modelo tradicional, desenvolver uma nova mina pode levar de dez a 15 anos.
CEO da Boston Metal, Tadeu Carneiro: mineração precisa se organizar em diversas frentes (Foto: Divulgação / Boston Metal)
Como está estruturado o quadro societário da Boston Metal?
Temos cerca de 20 investidores estratégicos importantes e nenhum deles controla sozinho a narrativa da companhia. Entre os acionistas estão Vale, BHP, Microsoft, Breakthrough Energy Ventures – fundo criado por Bill Gates-, o IFC do Banco Mundial, ArcelorMittal e outros grandes grupos. O IFC, aliás, fez conosco o seu primeiro investimento em uma empresa que ainda não possuía receita.
Os principais acionistas, juntos, concentram cerca de 70% a 75% das ações e nenhum deles possui mais de 12%. Entendo que é isso que cria um ambiente no qual as decisões são tomadas pensando no melhor para a companhia e para a tecnologia.
Como funciona o modelo de negócios de vocês?
Há diferentes possibilidades: teremos fábricas próprias e também projetos desenvolvidos em parceria com empresas que possuem matérias-primas ou rejeitos. Mas a nossa intenção é sempre operar as fábricas para proteger a tecnologia e preservar conhecimento industrial. Hoje, já temos mais de 200 oportunidades mapeadas. Elas passam por um processo de seleção, testes, engenharia e busca por financiamento.
A planta de Minas Gerais foi construída em duas etapas, por exemplo. A primeira deve entrar em operação comercial entre setembro e outubro e terá capacidade para produzir cerca de mil toneladas por ano de metais críticos.
A segunda fase, já planejada, ampliará a capacidade para aproximadamente 13 mil toneladas por ano.
Sem mineração não existe inteligência artificial, não existem data centers, não existe eletrificação e não existe transição energética.
Como você vê os impactos do cenário geopolítico atual nos planos da mineração?
É sempre difícil fazer previsões porque nunca conhecemos todos os elementos envolvidos. Eu prefiro olhar para o longo prazo.
A Arábia Saudita, por exemplo, decidiu se tornar uma potência mineral. Isso é visível pelos investimentos que o país vem realizando e pelo crescimento do fórum internacional de mineração realizado por lá. O país tem localização estratégica, disponibilidade de energia e recursos para investir. Conflitos podem gerar atrasos ou incertezas temporárias, mas acredito que os projetos estruturantes continuarão avançando.
Portanto, acredito que a próxima fase da mineração deverá ocorrer em regiões que tenham energia abundante e competitiva. Nesse contexto, o Oriente Médio e o Norte da África possuem vantagens importantes.
Então a sua visão está no contexto da transição energética?
Os minerais críticos já são os protagonistas da transição energética. Sem mineração não existe inteligência artificial, não existem data centers, não existe eletrificação e não existe transição energética. No caso da tecnologia da Boston Metal, o principal requisito é eletricidade. Esse é o único gargalo.
Hoje, existem regiões com oferta abundante de energia limpa, como o Canadá, Escandinávia, Austrália, parte do Oriente Médio e o próprio Brasil. Portanto, reforço que, se não houver eletricidade disponível, a nossa e todas as outras tecnologias não funcionam. Mas, se acreditarmos que o futuro terá energia abundante, limpa e barata, teremos ótimas condições de avançar.
Além da energia, existe o desafio da formação de talentos. E esse é um tema fundamental para o Brasil. Defendo que o capital para bons projetos sempre aparece, mas o desafio de ter profissionais qualificados para construir, operar e expandir essas soluções nem sempre tem resposta imediata.
Achei que estava me aposentando. Cheguei a dizer para minha esposa que compraria dois pijamas. Mas não cheguei nem à loja. ”
Tadeu Carneiro, CEO da Boston Metal
Diante da eletrointensividade natural do setor, você entende que a mineração participa a contento das discussões energéticas?
A mineração precisa se organizar melhor em várias frentes, inclusive na energética. Hoje, existe um esforço para explicar à sociedade a importância da atividade mineral responsável, que é aquela que pode conviver bem com as comunidades e gerar desenvolvimento. Entendo que deveria ser natural que a mineração participasse das discussões energéticas também. O setor precisa estar presente nos debates sobre transmissão de energia, licenciamento e formação de profissionais desse setor. Afinal, a mineração está sendo compreendida como algo fundamental e fica cada vez mais claro que tudo o que tocamos ou vem da agricultura ou vem da mineração.
O Brasil também precisa ter orgulho da sua vocação mineral, assim como Canadá e Austrália têm. Isso não significa ignorar os desafios, mas reconhecer a importância estratégica do setor.
Você vem de uma longa carreira em mineradoras e hoje está à frente de um projeto de inovação. Como foi isso?
Passei cerca de 40 anos [atuando] ligado ao nióbio e à CBMM. Nos últimos dez anos da minha trajetória lá, fui CEO da companhia. Quando encerrei esse ciclo, em 2016, achei que estava me aposentando. Cheguei a dizer para minha esposa que compraria dois pijamas. Mas não cheguei nem à loja.
Recebi o convite para liderar a Boston Metal e para ajudar a estruturar um curso no departamento de materiais do MIT. Aceitei porque não dá para dizer não a uma oportunidade como essa. Para completar, também passei a atuar como lead independent director da Ivanhoe Mines.
Estamos escrevendo o próximo capítulo da metalurgia e ajudando a definir como os metais serão produzidos no futuro. Já são dez anos nessa nova jornada. Quando cheguei, éramos seis pessoas na Boston Metal, e hoje temos cerca de 170 colaboradores em Minas Gerais e mais 70 em Boston.
É um caminho cheio de desafios, mas também um privilégio participar de algo que pode transformar a indústria.
Dúvidas mais comuns
A Boston Metal é uma empresa desenvolvedora de tecnologia de eletrólise de óxido fundido (MOE) que nasceu de pesquisas do MIT financiadas pela Nasa para processar regolito lunar. A tecnologia foi adaptada para recuperar metais críticos a partir de minérios de baixo teor, rejeitos de mineração e resíduos metalúrgicos, criando uma nova rota para aumentar a circularidade e eficiência no setor mineral.
O Brasil foi escolhido por várias razões: a empresa conhece o país e as oportunidades existentes, a primeira oportunidade de demonstrar a tecnologia em escala industrial ocorreu aqui, os testes iniciais também foram realizados no Brasil permitindo formar equipes treinadas, e a energia fornecida pela Cemig em Minas Gerais é 100% limpa, reduzindo a pegada de carbono do processo.
A primeira fase da planta em Coronel Xavier Chaves, que deve entrar em operação comercial entre setembro e outubro, terá capacidade para produzir cerca de mil toneladas por ano de metais críticos. A segunda fase, já planejada, ampliará a capacidade para aproximadamente 13 mil toneladas por ano.
A Boston Metal produz metais críticos de baixo volume e alto valor, como nióbio, tântalo, vanádio, cobalto, níquel, tungstênio e molibdênio. A empresa também desenvolveu uma plataforma para metais produzidos em larga escala, como os usados na produção de aço, mas atualmente seu foco está nos metais críticos.
A tecnologia não exige matérias-primas com alta concentração do metal, permitindo aproveitar rejeitos minerais e escórias metalúrgicas. Enquanto processos convencionais precisam concentrar minério de 1% até cerca de 50%, a Boston Metal pode operar com 5% de teor, recuperando muito mais metal. Isso permite produzir duas ou três vezes mais metal com a mesma quantidade de minério, com custo igual ou menor e investimentos totais bem inferiores.
A Boston Metal possui cerca de 20 investidores estratégicos importantes, nenhum controlando sozinho a companhia. Entre os acionistas estão Vale, BHP, Microsoft, Breakthrough Energy Ventures (fundo de Bill Gates), IFC do Banco Mundial e ArcelorMittal. Os principais acionistas juntos concentram 70% a 75% das ações, com nenhum possuindo mais de 12%, criando um ambiente onde decisões são tomadas pensando no melhor para a companhia.
A Boston Metal opera através de diferentes possibilidades: terá fábricas próprias e também projetos em parceria com empresas que possuem matérias-primas ou rejeitos. A intenção é sempre operar as fábricas para proteger a tecnologia e preservar conhecimento industrial. Atualmente, a empresa tem mais de 200 oportunidades mapeadas que passam por processo de seleção, testes, engenharia e busca por financiamento.
A Boston Metal investiu aproximadamente US$ 120 milhões na planta de Coronel Xavier Chaves em Minas Gerais. Esse investimento foi realizado com recursos dos acionistas, sem incentivos governamentais, como forma de demonstrar a tecnologia com menor risco.