Tenho dito com frequência que, para a Vale, sustentabilidade não é uma agenda paralela ao negócio. Ela faz parte da forma como pensamos estratégia, competitividade e geração de valor. Em uma indústria baseada no uso de recursos naturais, isso exige uma visão integrada: operar de forma responsável pressupõe proteger o clima e a natureza, desenvolver os territórios e construir confiança no longo prazo. Não há licença social para operar sem escuta, transparência e prestação de contas.
Nesse contexto, os relatórios corporativos passaram por uma transformação importante. Durante muito tempo, foram vistos principalmente como instrumentos de divulgação e conformidade. Essa função continua essencial, mas deixou de ser suficiente. Hoje, transparência é uma ferramenta de gestão. À medida que temas ambientais, sociais e de governança passam a influenciar acesso ao capital, resiliência operacional e competitividade, reportar melhor significa, na prática, tomar decisões melhores.
Na Vale, essa evolução faz parte de uma trajetória construída ao longo de décadas. Reportamos com base em referências internacionais desde 2007 e, ao longo do tempo, ampliamos o alinhamento com padrões que ajudam a qualificar nossa prestação de contas e, principalmente, nossa gestão. Mais recentemente, avançamos na adoção das normas do ISSB, que têm um papel importante ao conectar sustentabilidade a riscos, oportunidades e informações financeiras.
Fomos pioneiros em 2025 na adoção voluntária desse padrão por entender que essa agenda já é uma exigência do mercado global – não apenas regulatória, mas de investidores, clientes e sociedade. Em um ambiente cada vez mais conectado, antecipar esse movimento significa estar mais bem preparado para competir por capital, dialogar com stakeholders e tomar decisões com mais consistência.
A segunda edição do nosso relatório, publicado este ano, marca um novo momento dessa jornada. Se no primeiro o foco estava concentrado principalmente nas questões climáticas, agora ampliamos a análise para outros temas relevantes, como barragens, licenciamento ambiental, comunidades, direitos humanos, saúde e segurança, além de mineração circular.
O avanço mais importante, no entanto, não está apenas na inclusão de temas, mas na forma como eles passam a ser apresentados: conectados ao negócio, à cadeia de valor, ao planejamento estratégico e à gestão de riscos.
Esse processo também traz aprendizados relevantes. A elaboração do relatório exigiu um nível maior de integração entre áreas como finanças, sustentabilidade e gestão de riscos. Ao longo dessa construção, realizamos mais de 100 interações com empresas, associações e instituições no Brasil e no exterior interessadas em entender como esse modelo pode ser aplicado na prática. Esse movimento mostra que a discussão não é apenas técnica, é estratégica.
Outro aprendizado importante é que transparência não cria uma estratégia – ela evidencia e qualifica aquilo que a empresa já faz. Um bom relatório obriga a testar premissas, revisar processos, aprimorar controles e estruturar melhor a tomada de decisão. Ele também torna mais claros os dilemas e as escolhas que fazem parte de operações complexas, como a mineração.
No nosso caso, isso se traduz, por exemplo, na forma como conectamos sustentabilidade a oportunidades de negócio. A mineração circular é um desses exemplos: ao transformar resíduos em produtos de valor, avançamos simultaneamente em eficiência, redução de impactos e geração de receita. Trata-se de uma lógica de “fazer mais com os mesmos recursos”, que é central para o futuro da indústria e está no cerne da nossa estratégia integrada da Mineração do Futuro, com operações inteligentes e menos invasivas, em busca de zero estéril e rejeitos e carbono, e sempre gerando valor para a sociedade.