• Municípios brasileiros receberam R$ 5,6 bilhões em royalties de mineração até setembro de 2025, com arrecadação da CFEM crescendo 300% desde 2012, chegando a R$ 7,4 bilhões em 2024.
  • Os recursos da CFEM são obrigatoriamente destinados a infraestrutura, saúde e educação, sendo 60% retidos pelos municípios mineradores, o que permite transformações quando há gestão eficiente.
  • Municípios como Alto Horizonte e São Gonçalo do Rio Abaixo demonstram que royalties bem aplicados geram indicadores de saúde e educação superiores às médias estaduais e nacionais, mas muitas cidades desperdiçam essa oportunidade.
Resumo revisado pela redação.

Enquanto o Brasil despenca no ranking global de competitividade da mineração, há uma realidade que se desenha nos municípios brasileiros: quando os royalties da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) são aplicados corretamente, transformam radicalmente a qualidade de vida das populações locais.

Os dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam que municípios brasileiros já receberam R$ 5,6 bilhões em royalties este ano (até 30 de setembro). O montante representa uma evolução consistente: a arrecadação da CFEM, que não chegava a R$ 2 bilhões em 2012, alcançou R$ 7,4 bilhões em 2024 — um crescimento aproximado de 300%.

O dinheiro está carimbado: não pode pagar dívidas ou folha salarial, apenas projetos de infraestrutura, saúde e educação. A regra é clara. A execução, nem sempre.

O caso emblemático de Nova Lima

Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, emergiu como o município brasileiro com maior rendimento proveniente do trabalho: quase R$ 7 mil mensais, segundo dados do Censo Demográfico de 2022 divulgados pelo IBGE. A cidade ficou à frente de São Caetano do Sul e Santana de Parnaíba, ambos em São Paulo.
Foto: Prefeitura/Divulgação

Com 111,6 mil habitantes (Censo 2022) e população estimada de 120 mil em 2025, Nova Lima apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que saltou de 0,523 no início dos anos 1990 para 0,813 em 2010 — último dado disponível.

É fundamental, porém, contextualizar: Nova Lima abriga sedes de empresas que atraem executivos e profissionais de alta renda, o que naturalmente eleva a média salarial do município independentemente da mineração. A cidade não é rica apenas por causa da extração mineral — mas a mineração é, sem dúvida, uma das forças econômicas determinantes do território.

A exploração de minério de ferro em larga escala começou em 1958, desenvolvida pela Minerações Brasileiras Reunidas, que foi adquirida pela Vale em 2005. E os números dos royalties impressionam: Nova Lima recebeu quase R$ 264 milhões em CFEM durante 2024. Em 2025, até outubro, já foram R$ 114 milhões.

Pela regra de distribuição do CFEM, municípios mineradores ficam com 60% do valor total arrecadado. Outros 15% vão para o estado, 15% para municípios afetados pela mineração e 10% para a União.

Competitividade e inclusão

O Ranking de Competitividade dos Municípios, realizado pelo Centro de Liderança Pública — organização suprapartidária dedicada ao desenvolvimento de líderes públicos —, coloca Nova Lima na primeira posição no recorte específico de inserção econômica. A avaliação considera vulnerabilidade socioeconômica e inclusão dos moradores no mercado de trabalho formal.

A cidade ocupa a 11ª posição nacional nesse quesito — uma queda de oito posições em relação ao ano anterior, é verdade. Porém, houve evolução em acesso à educação, saneamento e sustentabilidade fiscal: Nova Lima é a 6ª com melhor desempenho neste último indicador.

A pesquisa de 2025 analisou 418 municípios com mais de 80 mil habitantes, o que representa mais de 60% da população brasileira.

Os dados mostram o quanto os royalties da mineração podem contribuir para o desenvolvimento municipal — quando há gestão eficiente e investimento estratégico. Nova Lima, com suas particularidades econômicas, oferece uma amostra do potencial. Mas há exemplos ainda mais reveladores em cidades onde a mineração é praticamente a única força econômica estruturante.

Alto Horizonte: saúde pública de excelência

O pequeno município de Alto Horizonte, em Goiás, venceu a categoria Saúde do Prêmio Municípios Mineradores em 2023. A premiação, realizada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) a partir de idealização do Ministério de Minas e Energia (MME), contava com oito categorias: Saúde, Educação, Proteção Social, Infraestrutura, Meio Ambiente, Gestão, Finanças e Crescimento Econômico.
Foto: Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste/Divulgação

Com cerca de 6 mil habitantes, a cidadezinha do Centro-Oeste destacou-se pelo trabalho focado na atenção básica à população. Vale lembrar: a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) indica que mais de 8 em cada 10 problemas de saúde podem ser resolvidos com atenção primária, eliminando a necessidade de buscar emergências ou prontos-socorros.

Alto Horizonte fortaleceu a estratégia local de Saúde da Família e alcançou, em 2021 (ano da premiação), cobertura universal de 100% na Atenção Primária. Naquele mesmo ano, a título de comparação, a cobertura era de 75% no estado de Goiás e 77% no Brasil.

A cobertura vacinal em 2021 era de 71,52% no país. Em Alto Horizonte, o índice chegou a 94,59%.

O município recebeu R$ 39,5 milhões em royalties da mineração em 2024. No ano de referência da premiação (2021), foram R$ 61 milhões. Para uma cidade de 6 mil habitantes, o impacto per capita é transformador — desde que haja gestão competente.

São Gonçalo do Rio Abaixo: mineração e meio ambiente

São Gonçalo do Rio Abaixo, em Minas Gerais, tem quase o dobro de moradores de Alto Horizonte e destacou-se pelo trabalho realizado em torno do meio ambiente no Prêmio Municípios Mineradores. A cidade conta com aterro sanitário legalizado e realiza coleta seletiva para a produção de barras de recicláveis, que posteriormente são leiloadas. Os recursos obtidos são distribuídos entre os funcionários da prefeitura — um incentivo direto à gestão ambiental.
Foto: Prefeitura/Divulgação

Além disso, o município mantém um projeto de educação ambiental nas escolas, com coleta seletiva dentro dos estabelecimentos de ensino municipais.

São Gonçalo do Rio Abaixo recebeu mais de R$ 260 milhões em royalties da mineração em 2024 — um volume que, quando bem aplicado, tem potencial para revolucionar completamente a estrutura de serviços públicos de uma cidade de pequeno porte.

O potencial desperdiçado

Os exemplos de Alto Horizonte e São Gonçalo do Rio Abaixo — e, com suas particularidades, Nova Lima — demonstram que o problema brasileiro na mineração não está apenas na competitividade para atrair investimentos. Está também na capacidade de transformar a riqueza mineral em desenvolvimento sustentável nos territórios afetados.

Enquanto o país amarga a 56ª posição no ranking global de competitividade mineradora e carrega a maior carga tributária do setor entre economias comparáveis, há municípios provando que os royalties, quando aplicados com transparência e foco em resultados, funcionam.

A questão é: quantas cidades estão desperdiçando essa oportunidade?

Com R$ 5,6 bilhões já distribuídos em 2025 e uma arrecadação anual que cresceu 300% desde 2012, o Brasil tem em mãos um instrumento poderoso de transformação social. Usar bem esse dinheiro é tão importante quanto atrair novos investimentos para o setor.

Afinal, de que adianta extrair riqueza do solo se ela não se converte em qualidade de vida para quem vive sobre ele?

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) é um royalty cobrado sobre a exploração de recursos minerais no Brasil. Os recursos arrecadados são distribuídos da seguinte forma: 60% para os municípios mineradores, 15% para o estado onde ocorre a mineração, 15% para municípios afetados pela mineração e 10% para a União. O dinheiro é carimbado e só pode ser utilizado em projetos de infraestrutura, saúde e educação, não podendo ser destinado ao pagamento de dívidas ou folha salarial.

A arrecadação da CFEM apresentou crescimento significativo nos últimos anos. Em 2012, a arrecadação não chegava a R$ 2 bilhões. Em 2024, alcançou R$ 7,4 bilhões — um crescimento aproximado de 300%. Em 2025, até 30 de setembro, os municípios brasileiros já receberam R$ 5,6 bilhões em royalties, demonstrando a consistência dessa evolução.

Quando aplicados corretamente com gestão eficiente, os royalties transformam radicalmente a qualidade de vida das populações locais. Os recursos podem ser investidos em infraestrutura, saúde e educação, gerando impactos mensuráveis. Exemplos como Alto Horizonte e São Gonçalo do Rio Abaixo demonstram que municípios pequenos podem alcançar coberturas universais em saúde primária e melhorias significativas em indicadores sociais quando há gestão competente dos royalties.

Nova Lima, com 111,6 mil habitantes, recebeu quase R$ 264 milhões em CFEM durante 2024 e R$ 114 milhões até outubro de 2025. O município alcançou um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,813 em 2010 e ocupa a 11ª posição nacional em inserção econômica, além de ser a 6ª com melhor desempenho em sustentabilidade fiscal. Esses resultados refletem investimentos estratégicos em educação, saneamento e infraestrutura.

Alto Horizonte, uma pequena cidade de 6 mil habitantes, recebeu R$ 39,5 milhões em royalties em 2024 e utilizou esses recursos para fortalecer a Saúde da Família. O município alcançou cobertura universal de 100% em Atenção Primária em 2021, superando significativamente a média estadual (75% em Goiás) e nacional (77% no Brasil). A cobertura vacinal também foi exemplar, atingindo 94,59% contra 71,52% no país, demonstrando o impacto transformador dos royalties quando bem aplicados.

Embora o Brasil tenha em mãos um instrumento poderoso de transformação social com R$ 5,6 bilhões distribuídos em 2025, o principal desafio é converter essa riqueza mineral em desenvolvimento sustentável nos territórios afetados. A questão central é: quantas cidades estão desperdiçando essa oportunidade? Enquanto alguns municípios provam que os royalties funcionam quando aplicados com transparência e foco em resultados, muitos ainda não conseguem transformar esses recursos em qualidade de vida para suas populações.

Segundo o Ranking de Competitividade dos Municípios do Centro de Liderança Pública, municípios mineradores como Nova Lima ocupam posições de destaque em inserção econômica e inclusão no mercado de trabalho formal. A mineração funciona como uma força econômica estruturante, especialmente em cidades pequenas onde é praticamente a única fonte de renda. Quando os royalties são investidos estrategicamente em educação, saúde e infraestrutura, fortalecem a competitividade local e atraem profissionais qualificados.

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) indica que mais de 8 em cada 10 problemas de saúde podem ser resolvidos com atenção primária, eliminando a necessidade de emergências ou prontos-socorros. Municípios como Alto Horizonte demonstraram que investir royalties em Saúde da Família gera resultados transformadores, com coberturas universais e vacinação acima das médias nacionais, provando que essa é uma estratégia eficiente de aplicação dos recursos.