Quando o Trem de Passageiros da Estrada de Ferro Carajás (EFC) começou a circular, há quatro décadas, Luzia Moraes, 53 anos, ainda era menina na Vila Embratel, em São Luís, no Maranhão. Cresceu vendo os vagões passarem e, pouco depois, passou a circular com eles. Foi sobre trilhos que construiu sua primeira fonte de renda, vendendo pamonha, cocada e doce de leite em bandejas improvisadas. “O trem sempre foi trabalho, mas também alegria. Era onde a gente aprendia a viver”, conta. Para ela, cada apito marcava mais do que partidas: indicava possibilidades.

Durante anos, Luzia embarcou quase todos os dias. A rotina exigia acordar cedo e enfrentar viagens longas. “Ia tudo junto: gente, sacola, criança, mercadoria. O importante era chegar”, lembra. O que hoje pode parecer desordenado era, na prática, a única alternativa para centenas de famílias. O trem, que liga São Luís a Parauapebas ao longo de 861 quilômetros, tornou-se o principal elo entre cidades e povoados onde ônibus e estradas nunca deram conta da demanda.

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Luzia Moraes Passageira EFC (Foto: Radar Mineração)
Rosa Pinto da Costa Passageira EFC (Foto: Radar Mineração)
Raimundo Nonato Passageiro EFC (Foto: Radar Mineração)
Comunidade em uma ação social no Trem de Passageiros da EFC (Foto: Divulgação / Vale)

Luzia criou os filhos com o dinheiro que tirava dos vagões. Quando a venda a bordo foi reorganizada ao longo dos anos, passou a atuar em projetos sociais nas comunidades atendidas pela ferrovia. Tornou-se educadora ambiental, ajudando a construir cisternas, ensinando o reaproveitamento de água e orientando vizinhos sobre saúde. “O trem abriu caminho para outras coisas”, diz.

Fotos de estudantes em uma escola segurando cartazes educativos sobre temas como segurança e prevenção, além de uma turma reunida em corredor com murais de aprendizagem ao fundo.
Programa do Vagão Social, leva alunos e lideranças a conhecer o transporte ferroviário com atividades sobre mineração e segurança nos trilhos (Foto: Vale)

A segunda personagem dessa história também mede o tempo em viagens. Aos 19 anos, Rosa Pinto da Costa fez a primeira travessia no trem para apresentar o então namorado à família. Vieram a mudança, o casamento e a maternidade, tudo sobre trilhos. “Criei minha filha dentro desse trem”, conta. Ao longo das décadas, transportou sacolas, galinhas, sonhos e medos. O vagão foi berço, sala de espera e caminho. Em muitos municípios do Maranhão e do Pará, o trem não é escolha, é necessidade diária.

Rosa conhece cada parada, como Alto Alegre, Arari, Santa Inês, Marabá e Parauapebas. Percorreu o trajeto completo inúmeras vezes, sempre adaptando a vida ao ritmo das viagens semanais. Hoje, reconhece avanços. “Antes era diferente. Agora há mais conforto e segurança”, resume. A modernização acompanhou a continuidade do serviço.

Funcionário organiza e prepara malas no interior de um trem, em carro com assentos verdes e janelas laterais. Uma mulher e um rapaz conversam enquanto uma mala rosa é colocada.
Foto: Radar Mineração

A relevância cotidiana da ferrovia aparece também na história de Raimundo Nonato Campos. Aos 87 anos, ele segue viajando com regularidade. Morador próximo à linha férrea usa o trem para manter pequenos negócios e compromissos familiares. “Ele facilita minha vida. Sem o trem, eu não faria metade do que faço”, afirma. Para além do transporte, valoriza o atendimento, a limpeza e a segurança, fatores que lhe garantem autonomia.

Ao longo dessas quatro décadas, o Trem de Passageiros da EFC se consolidou como um serviço essencial e hoje raro no Brasil. É o maior trajeto ferroviário de passageiros do país, com 16 horas de viagem e passagem por 23 municípios. Enquanto muitas linhas foram extintas, o serviço ampliou sua base de usuários, chegando a transportar mais de 420 mil pessoas por ano.

Infográfico da Rm Mineração sobre o Trem de Passageiros da EFC, conectando Maranhão e Pará. Mostra rota entre Paraopebas e São Luís, frequência de três vezes por semana e principais paradas como Santa Inês e Marabá.
Imagem gerada digitalmente

Com tarifas até 50% menores que as rodoviárias, o trem segue essencial para quem precisa estudar, trabalhar ou simplesmente voltar para casa. “O Trem de Passageiros presta um serviço essencial, seguro, de qualidade, com preço justo e por isso faz parte da vida das comunidades do Maranhão e do Pará há 40 anos.”, destaca João Júnior, diretor de Operação da EFC da Vale.

O trem também reorganizou rotinas. Para trabalhadores, estudantes e idosos, representa autonomia. Para pequenas economias locais, fomenta o comércio, os serviços e a circulação de renda. Em muitos povoados, é o único meio regular de deslocamento de longa distância, tornando-se parte da engrenagem social e econômica dessas regiões.

O serviço olha para frente. Estão previstas viagens diárias nos dois sentidos a partir de 2027 e a implantação de internet a bordo, aproximando a experiência dos padrões da aviação comercial. A ampliação da conectividade promete beneficiar não apenas os passageiros, mas também as comunidades vizinhas à ferrovia.

Quarenta anos depois da primeira viagem, o Trem de Passageiros da EFC segue costurando territórios, histórias e afetos. Não é apenas uma linha entre São Luís e Parauapebas, mas um fio contínuo de integração social. Para quem embarca, ele continua sendo caminho, sustento, reencontro e futuro possível – tudo isso sobre trilhos.


Operado pela Vale, o Trem de Passageiros da EFC integra o sistema ferroviário nacional e  inclui também a concessão da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), as duas únicas linhas regulares de longa distância para passageiros em operação no Brasil.  A EFVM, entre Minas Gerais e Espírito Santo, movimenta cerca de 700 mil a 1 milhão de pessoas anualmente, com viagens diárias ao longo de 664 quilômetros e cerca de 13 horas de percurso.  Juntas, essas ferrovias mostram como a Vale mantém, além da logística de cargas em larga escala, uma operação contínua de transporte de passageiros que segue essencial para a mobilidade e a integração de diferentes regiões do país.
Mapa do trecho da Estrada de Ferro Carajás no Brasil, ligando o Complexo Minerador de Carajás (PA) ao Porto de Itaqui (MA), com cidades como Marabá, Imperatriz e São Luís indicadas.
Imagem gerada digitalmente

Serviço Trem de Passageiros da EFC
Operado pela Vale, o trem liga São Luís (MA) a Parauapebas (PA) em cerca de 16 horas.

Horários
São Luís → Parauapebas: seg, qui e sáb, às 8h
Parauapebas → São Luís: ter, sex e dom, às 6h
Sem operação às quartas

Paradas
Inclui São Luís, Santa Inês, Açailândia, Marabá e Parauapebas, além de estações intermediárias.

Passagens
www.vale.com/trem-de-passageiros ou nas estações (antecedência de até 45 dias)

Estrutura
Classes econômica e executiva
Carro restaurante
Lanchonete
Ar condicionado

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*Especial para o Radar Mineração.