• O Brasil possui abundantes reservas minerais críticas, mas sua liderança no setor depende de inovação, pesquisa e agregação de valor, não apenas da disponibilidade de recursos naturais.
  • A demanda global por minerais críticos triplicará até 2030 e quadruplicará até 2040 para atingir metas de descarbonização, exigindo investimentos em tecnologia, automação e digitalização da produção.
  • Países em desenvolvimento com reservas, como Brasil, devem desenvolver elos da cadeia além da extração—beneficiamento, refino e produtos intermediários—para capturar ganhos econômicos e promover desenvolvimento sustentável.
Resumo revisado pela redação.

Grande detentor de recursos minerais, o Brasil é o segundo maior produtor de minério de ferro, tem a segunda maior reserva de terras raras, lidera as reservas de nióbio e tem uma das três maiores reservas de grafita e níquel do mundo, além de minerações de ouro, prata, cobre, cobalto. Mas a riqueza do subsolo não significa necessariamente riqueza econômica, ao menos se não estiver atrelada a avanços em inovação, pesquisa e desenvolvimento.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, ter mais inovação é condição importante para que o fornecimento de minerais críticos atenda às demandas de energia limpa. O ponto de vista é defendido em artigo elaborado em setembro de 2024 com apoio da consultoria McKinsey: “A transição para energias mais limpas colocou os minerais críticos e os elementos de terras raras em evidência. Estes são essenciais para a produção de tecnologias com baixas ou nenhuma emissão de carbono, que nos permitirão migrar dos combustíveis fósseis para alternativas mais sustentáveis”, diz o documento.

Foto: UN Trade and Development (UNCTAD) / WEF / Wikipedia

Segundo o WEF, as tendências e os cenários da tecnologia energética indicam que, para atingir as metas do Acordo de Paris, será necessário investir no desenvolvimento de novas minas, na expansão das minas existentes e no apoio a tecnologias inovadoras dedicadas a melhorar a produção e, consequentemente, a oferta de minerais críticos.

Já a Agência Internacional de Energia (IEA) complementa que a demanda por minerais críticos terá que triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040, para que o setor energético atinja a meta de emissões líquidas zero de dióxido de carbono.

Países mineradores x países líderes em mineração

O chefe do centro de energia do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), Roberto Bocca, alerta para os problemas que podem comprometer a capacidade dos países mineradores de aproveitar as suas reservas e, com isso, apoiar a descarbonização do planeta. Adotar políticas favoráveis à inovação e manter um ambiente regulatório estável são condições primárias defendidas por ele para incentivar o investimento privado contínuo, considerando os riscos e os longos prazos associados à inclusão de novas tecnologias na mineração. “O apoio à pesquisa e desenvolvimento pode ajudar a desenvolver inovações revolucionárias tanto no setor público quanto no privado”, diz.

Infográfico da Radar Mineração comparando países mineradores e países líderes em mineração, com tópicos sobre competitividade, exportação, integração tecnológica, políticas de inovação e sustentabilidade.
Imagem gerada digitalmente

As incertezas de capital no setor causadas pelos riscos de investir em projetos em estágio inicial também são barreiras. Por isso, o Fórum Econômico Mundial sugere o apoio financeiro direto por meio de empréstimos a juros baixos ou participação acionária direta, combinando apoio indireto para novos projetos de mineração com a ampliação da inovação.

Somente para atender a demanda por terras raras até 2030, a McKinsey estima que serão necessários de US$ 300 bilhões a US$ 400 bilhões em investimentos por ano em mineração no mundo todo.

Para o WEF, o setor público deve interagir com a indústria para viabilizar esses aportes (veja como o BNDES e o MDIC já atuam nesse sentido ).

Iniciativas estrangeiras

No Brasil e no mundo, o apoio financeiro à mineração está crescendo. Nos Estados Unidos, há US$ 800 milhões em créditos fiscais para projetos que realizam reciclagem, processamento e refino de materiais críticos. O país investiu US$ 167 milhões na construção de um centro de pesquisa em energia e minerais onde cientistas do setor público e acadêmicos pesquisam em conjunto. Os EUA têm, ainda, um plano para melhorar e divulgar mapas para apoiar a exploração e baixar os custos de exploração.

Um programa do Reino Unido fornece £ 65,5 milhões em financiamento para demonstrações piloto de tecnologias e modelos de negócios inovadores de energia limpa em países em desenvolvimento. O fundo Circular Critical Minerals Supply Chains (Climates), também no Reino Unido, apoia a circularidade de terras raras e objetiva desbloquear capital privado adicional, incluindo o financiamento à pesquisa e desenvolvimento.

A Alemanha lançou um programa de subsídios para compensar as empresas pelos custos de produção de baixo carbono quando utilizam métodos ainda não economicamente competitivos na área de minerais críticos. Já a  agência governamental de pesquisa científica da Austrália desenvolveu tecnologia para detecção e triagem de minérios confiáveis e de alto rendimento, o que pode ajudar a melhorar a eficiência da produção. O país ainda fornece dados geocientíficos gratuitos e financiamento por meio de subsídios que apoiam a exploração.

laboratório com uma tampa e um recipiente metálico, com material granular dourado no centro, iluminado e com foco em análise e preparo de amostras
Políticas nacionais devem seguir junto com o desenvolvimento da riqueza mineral em países em desenvolvimento (Foto: Mark Agnor / Shutterstock)

Na União Europeia, o programa Global Gateway organiza investimentos para projetos que incluem minerais críticos, com incentivo à inovação. “Ao integrar ainda mais tecnologias avançadas de áreas como IA, robótica e energias renováveis, o setor de mineração tem potencial para alcançar melhorias significativas em eficiência, segurança e sustentabilidade”, defende o programa europeu.

Em um relatório de 2025 sobre o aproveitamento do potencial dos minerais críticos para o desenvolvimento sustentável, a Organização das Nações Unidas (ONU) considera que, para os países em desenvolvimento com reservas – caso do Brasil -, a demanda crescente é uma oportunidade para impulsionar o crescimento econômico e promover o desenvolvimento sustentável, “desde que esses países consigam capturar os ganhos da agregação de valor e garantir que os objetivos sociais e ambientais também sejam alcançados”.

Na avaliação da ONU, será preciso adotar políticas nacionais estratégicas diante de desafios nas áreas econômica, ambiental, social e geopolítica, além de atrair a já limitada colaboração internacional. “As barreiras comerciais, sejam elas motivadas por preocupações com a segurança energética, com a competição geopolítica ou com políticas protecionistas, podem fragmentar os mercados, aumentar os custos, reduzir os investimentos e desacelerar o ritmo da transição energética”, defende a entidade.

Dessa forma, os países em desenvolvimento, como o Brasil, podem ter ganhos com esses minerais não só para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, como também para ampliar o número de indústrias emergentes e de alta tecnologia.

As economias em desenvolvimento que são ricas em recursos naturais precisam melhorar o acesso a tecnologias-chave em todas as fases da mineração, atraindo empresas multinacionais com expertise e capacidades avançadas e promovendo a transferência dessas tecnologias para empresas nacionais”

Organização das Nações Unidas (ONU)

Na exploração mineral, a ONU sustenta que é preciso ter tecnologias de levantamento geológico, como imagens de satélite, levantamentos com drones e modelagem geológica 3D. Para a extração, maior acesso à automação e robótica aplicados a perfuração, detonação e transporte também são recomendações.

Drone em mineração sobrevoa uma área de trabalho com solo de cascalho ao fundo, enquanto uma máquina pesada opera na obra sob céu azul, destacando monitoramento e inspeção
ONU recomenda uso de tecnologias avançadas para aprimorar levantamento geológico em países mineradores (Foto: S.C. Air National Guard / Rawpixel)


A digitalização e a análise de dados, por sua vez, aprimoram a tomada de decisões por permitirem o monitoramento das operações de mineração, reduzindo custos e aumentando a produtividade. “As políticas industriais estratégicas são cruciais para ampliar o acesso e o desenvolvimento de novas tecnologias relevantes que possam fortalecer e expandir o setor de minerais críticos. Essas políticas podem desempenhar um papel fundamental na atração de investimentos estrangeiros e financiamento para novos projetos, no fomento da transferência de tecnologia e inovação e na construção de capacidades tecnológicas”, diz o relatório da ONU.

O documento ainda sugere que os países ricos em reservas criem um ambiente de investimento atrativo ao capital privado, incluindo a compra de inovações tecnológicas que possam apoiar novos métodos de extração e refino com menos impacto ambiental.

Embora enxergue as políticas de inovação enfraquecidas na maioria dos países em desenvolvimento, a ONU percebe que algumas economias, como Brasil, Chile e África do Sul, estão ampliando as políticas de inovação na mineração.

Segundo o órgão, a cooperação global é essencial para aproveitar o potencial dos minerais críticos em meio a políticas nacionais desiguais, restrições comerciais e medidas protecionistas, além de apoiar a transferência de tecnologia, aprimorar sistemas de inovação e ampliar o acesso a tecnologias de dados.

No âmbito da cooperação internacional, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou em abril de 2026 um documento sobre o papel do financiamento para desbloquear investimentos na cadeia de valor dos minerais críticos. Embora não faça parte dos 38 países-membros, o Brasil é um parceiro-chave elegível a receber apoio da organização.

Na avaliação da OCDE, os minerais críticos são uma chance de  gerar benefícios de desenvolvimento aos países elegíveis à ajuda financeira, e o momento é favorável para países desenvolvidos financiarem as nações em desenvolvimento dotadas de reservas, com a preocupação de que o apoio financeiro transfira valor econômico e social, sem que o investimento constitua um risco de sustentar apenas o interesse externo

Tanto a ONU quanto a OCDE destacam que, diante desse novo mercado, os países ricos em minérios, em sua maioria economias emergentes, precisam desenvolver os elos seguintes à extração, como o beneficiamento, refino e produtos intermediários, antes de chegarem aos produtos finais. Assim, podem gerar maior valor agregado à economia dos emergentes paulatinamente, ampliando o peso da mineração no desenvolvimento local.

“Costumo dizer: estamos mal? Não, e temos que olhar isso como uma evolução. O Brasil poderia estar melhor? Sem dúvida, sim, e nesse movimento corremos o risco de perder a corrida de tudo que estamos vendo sobre minerais críticos e estratégicos”, diz Leandro Rossi, diretor executivo do Mining Hub.

“Costumo dizer: estamos mal? Não, e temos que olhar isso como uma evolução. O Brasil poderia estar melhor? Sem dúvida, sim, e nesse movimento corremos o risco de perder a corrida de tudo que estamos vendo sobre minerais críticos e estratégicos”, pontua Rossi
Leandro Rossi, diretor executivo do Mining Hub (Foto: Divulgação)

Para ele, as reservas são bens naturais com os quais alguns países foram agraciados. “São os países-plataformas de mineração. Nós temos isso, da mesma forma que Austrália, Canadá, Peru e Argentina. A questão é como vai se organizar essa extração para converter potencial mineral em riqueza que agrega valor. Essa é a agenda que, a nós do setor, interessa bastante”, completou.

Na avaliação de Rossi, o primeiro item para o Brasil se consolidar como país líder em mineração é o conhecimento geológico, que envolve tecnologia e inovação. “E isto se dá a partir do fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM)”, defende.

Ele completa que os dados geológicos confiáveis são importantes para que os projetos ganhem rapidez de implantação e atraiam investimentos. “Cabe uma política grande de estado para fazer esse primeiro mapeamento forte e construir um ambiente para que os capitais público e privado atuem em conjunto”, afirma.

Para Rossi, a integração das informações geológicas a uma base pública do governo facilita a tomada de decisão dos investidores e, em uma segunda etapa, políticas governamentais podem estimular o setor privado a desenvolver tecnologia para fazer a exploração mineral. “O processo de exploração mineral e conhecimento geológico é uma dor de todo mundo, e hoje a solução pode ser resolvida com a inovação aberta”, diz. Ele conclui que há várias startups e empresas de países com reservas que têm feito mapeamento por satélite, uso de raio ultravioleta e inteligência artificial para acelerar o conhecimento do solo a um custo menor.

Dúvidas mais comuns

Embora o Brasil seja detentor de grandes reservas de minério de ferro, terras raras, nióbio, grafita e níquel, a riqueza do subsolo não se converte automaticamente em riqueza econômica. A liderança em mineração exige inovação, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e agregação de valor à cadeia produtiva. Segundo o Fórum Econômico Mundial, ter mais inovação é condição importante para atender às demandas de energia limpa e minerais críticos.

A inovação é essencial para melhorar a produção e oferta de minerais críticos necessários para a transição energética. Tecnologias avançadas como inteligência artificial, robótica, levantamento geológico por satélite, drones, modelagem 3D, automação em perfuração e transporte, além de digitalização e análise de dados, aumentam a eficiência, reduzem custos e melhoram a produtividade das operações de mineração.

Segundo estimativas da consultoria McKinsey, serão necessários entre US$ 300 bilhões e US$ 400 bilhões em investimentos por ano em mineração no mundo todo apenas para atender à demanda por terras raras até 2030. O Fórum Econômico Mundial sugere que o setor público interaja com a indústria para viabilizar esses aportes, combinando apoio financeiro direto com incentivos à inovação.

O Brasil deveria fortalecer a Agência Nacional de Mineração (ANM) para melhorar o conhecimento geológico, investir em mapeamento confiável de recursos minerais e criar um ambiente de investimento atrativo ao capital público e privado. Políticas estratégicas de inovação, transferência de tecnologia, acesso a tecnologias-chave em todas as fases da mineração e integração de informações geológicas em bases públicas são fundamentais para atrair investimentos e acelerar a implantação de projetos.

Os países em desenvolvimento, como Brasil, Chile e África do Sul, devem desenvolver os elos seguintes à extração, como beneficiamento, refino e produtos intermediários, antes de chegar aos produtos finais. Isso permite gerar maior valor agregado à economia, ampliar o peso da mineração no desenvolvimento local e transformar o potencial mineral em riqueza econômica sustentável.

Diversos países desenvolvidos estão investindo em mineração crítica: os EUA oferecem US$ 800 milhões em créditos fiscais e investiram US$ 167 milhões em um centro de pesquisa; o Reino Unido fornece £65,5 milhões em financiamento para tecnologias inovadoras; a Alemanha oferece subsídios para produção de baixo carbono; a Austrália desenvolveu tecnologia de detecção de minérios e fornece dados geocientíficos gratuitos; e a União Europeia organiza investimentos através do programa Global Gateway.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda por minerais críticos terá que triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040 para que o setor energético atinja a meta de emissões líquidas zero de dióxido de carbono. Essa demanda crescente representa uma oportunidade para países em desenvolvimento com reservas minerais impulsionarem o crescimento econômico e promoverem o desenvolvimento sustentável.

A inovação aberta permite que startups e empresas desenvolvam soluções tecnológicas para mapeamento por satélite, uso de raio ultravioleta e inteligência artificial, acelerando o conhecimento do solo a um custo menor. Essa abordagem colaborativa entre setor público e privado pode resolver desafios de exploração mineral e conhecimento geológico, facilitando a tomada de decisão dos investidores e atraindo capital para novos projetos.