O mercado internacional do ouro continua em alta, segundo o World Gold Council, a principal autoridade global do setor. De acordo com a instituição, a cotação média do metal foi de US$ 4.506,29 por onça no segundo semestre de 2026, um valor 37% maior do que o mesmo período do ano passado.
No Brasil, algumas mineradoras estão “surfando” nessa onda, verbo utilizado pelos próprios especialistas em recente seminário da Brasil Mineral que reuniu investidores e empresas do setor.
A P2 Gold é uma delas, com uma produção de 35 mil onças por ano, a partir da exploração da mina subterrânea que detém no Mato Grosso.
A operação não começou do zero, mas da retomada de uma antiga instalação depois da obtenção da licença em 2021. Até a primeira fundição, em 2023, a empresa reestruturou as instalações físicas.
Segundo Leonardo Oliveira, acionista e presidente do conselho da mineradora, o modelo da companhia evita projetos greenfield e foca em ativos já existentes com reservas comprovadas entre 600 e 700 mil onças. Dentro dessa estratégia, a empresa adquiriu dois projetos em Goiás, com os quais pretende atingir uma produção de 150 mil onças anuais até 2032, com um avanço modular de 50 mil onças por ano.
Desafio de mão-de-obra
A canadense Ero Copper não é novata no Brasil, onde tem projetos importantes na produção de cobre e ouro, mas também está ampliando suas operações. O vice-presidente da companhia no Brasil, Eduardo De Come, destacou que a nova mina em Nova Xavantina (MT) produz 60 mil onças, com base em reservas de alto teor, que garantem uma exploração por pelo menos 12 anos.

A empresa concluiu recentemente a transição total da lavra manual para a mecanizada, priorizando a segurança operacional e buscando preencher a capacidade ociosa de sua usina de beneficiamento. Para o executivo, o Brasil oferece um ambiente atrativo ao capital internacional devido à sua segurança jurídica, cadeia de suprimentos desenvolvida e excelência acadêmica.
Contudo, ele alerta para a urgência de atualizar a legislação trabalhista da mineração subterrânea, que remonta à década de 1940. “Precisamos equilibrar a automação e equipamentos semiautônomos com regras modernas de trabalho para manter a competitividade”, defendeu.
Combate ao ouro ilegal
Na Bahia, o complexo de Jacobina Mineração, controlado pela multinacional Pan American Silver, exemplifica como a tradição mineral pode ser aliada à inovação sustentável.

Sob a gestão do country manager Edvaldo Amaral, a unidade opera cinco minas subterrâneas ao longo de um alinhamento de 14 quilômetros, sustentada por 3 milhões de onças em reservas provadas. Em termos de produção, a mineradora atinge cerca de 200 mil onças anuais.
Uma das iniciativas atuais é o avanço no licenciamento ambiental para a implantação do sistema de empilhamento de rejeitos a seco, eliminando progressivamente a dependência de barragens. Além disso, a Jacobina se destaca pelo pioneirismo no combate ao ouro ilegal, mapeando o DNA do minério junto à Polícia Federal, e pelo investimento social com um programa que já formou 160 mulheres da comunidade local para operarem jumbos e equipamentos industriais em suas minas.
Teto operacional de US$ 2.000/onça
Apesar do ambiente macroeconômico altamente favorável, os especialistas recomendam disciplina financeira. Para eles, é fundamental manter os custos abaixo de US$ 2.000 a onça. O consultor Camilo Farace, também participante da discussão, lembrou que a precificação foi complicada na década de 2010, inclusive com quedas históricas da cotação para US$ 1.050 a onça.
Ele observa que o mercado atingiu patamares “jamais imaginados há pouco tempo atrás”, mas reforça que a euforia dos preços atuais não deve fazer as empresas descuidarem da gestão de custos nem competirem desmedidamente por mão de obra.
Sobre esse último tema, Farace alerta para o déficit de especialistas: o número de alunos ingressantes nas áreas de engenharia de minas e geologia caiu de 32 mil, em 2013, para 7 mil, em 2024.