- Mineradoras brasileiras adotam tecnologias de processamento seco, reúso de água e monitoramento remoto para reduzir captação em mananciais e alinhar operações à segurança hídrica.
- Empresas como Vale estabelecem metas ambiciosas, como eliminar água doce no processamento de ferro até 2027, enquanto parcerias com startups alcançam recuperação de 80% a 85% da água utilizada.
- Políticas de financiamento do BNDES e Finep, integração de diagnósticos hidrológicos ao licenciamento e publicação obrigatória de consumo hídrico são medidas necessárias para garantir sustentabilidade do setor minerário.
A indústria mineradora no Brasil tem adotado práticas de gestão de água na tentativa de reduzir retiradas de fontes superficiais e aumentar a recirculação. Especialistas, operadores e autoridades apontam avanços tecnológicos e mudanças regulatórias como elementos centrais para alinhar a mineração à segurança hídrica. Relatórios e processos legais, no entanto, mostram desafios persistentes na prevenção e na recuperação de áreas degradadas.
De acordo com o Reuters World Energy, empresas de grande porte anunciaram metas para reduzir ou eliminar o uso de água doce em etapas críticas do beneficiamento mineral. A Vale, por exemplo, prevê eliminar o uso de água no processamento de minério de ferro em seu complexo de Carajás até 2027, com adoção de processos secos e reaproveitamento de rejeitos. Outros relatórios também mostram esse crescimento da recirculação interna de água e em programas de reúso em unidades de produção, com metas e indicadores sobre volumes reaproveitados. Essas ações têm impacto direto sobre a demanda por captação em mananciais locais.
A gestão estratégica dos recursos hídricos está cada vez mais em destaque no setor. “Temos de trabalhar visando à eficiência tanto energética quanto hídrica, para buscar soluções que minimizem o consumo e maximizem a recuperação de água no processo”, declarou Julio Nery, então diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em entrevista ao NeoFeed. Segundo ele, a parceria entre mineradoras, universidades e startups tem conquistado avanços. “Atualmente, há mecanismos que recuperam entre 80% e 85% da água usada no processo”, completou.
Financiamento e políticas para minerais críticos
Mecanismos de financiamento e chamadas públicas do BNDES e da Finep destinam recursos para projetos de transformação e inovação na cadeia de minerais estratégicos, incluindo tecnologias que podem reduzir consumo hídrico e favorecer processamento de menor intensidade em água. Esses instrumentos estão presentes na agenda recente de investimento em minerais críticos. Um estudo do Ibram e da KPMG defende maior integração entre licenciamento, monitoramento hidrológico e recuperação ambiental.
Mesmo assim, um levantamento da Reuters identificou áreas de mineração com sinais de abandono, que podem representar uma ameaça à segurança hídrica em bacias afetadas. Apesar desse cenário, a nova mineração no Brasil vem adotando práticas cada vez mais sustentáveis, integrando a mineração e a segurança hídrica, com foco no processamento seco e no reúso, com tecnologias que reduzem lavagens e uso direto de água em plantas de beneficiamento. Segundo a Vale, são práticas que diminuem as captações e combinam Soluções Baseadas na Natureza para manter o equilíbrio hidrológico e a biodiversidade.
Com o monitoramento contínuo, as redes de amostragem e sensores remotos também têm sido usados para detectar variações de vazão e de qualidade da água em bacias relacionadas às áreas mineradas. Assim como a gestão de rejeitos (sem barragens do tipo a montante), que faz a substituição progressiva de tecnologias de disposição que implicam em maior risco hidrológico por métodos que reduzem o potencial de ruptura de estruturas.
Segurança hídrica em pauta

Para que a mineração contribua efetivamente com a segurança hídrica, medidas podem ser aplicadas no curto e médio prazos. Entre elas estão:
- a integração do planejamento de bacias e diagnósticos hidrológicos ao licenciamento minerário, com definição de metas de captação máxima aceitável;
- a obrigatoriedade de publicação de planos de uso de água e relatórios de consumo em plataformas públicas, permitindo verificação independente;
- o vínculo da aprovação de novos projetos a tecnologias de baixo consumo hídrico e a garantias financeiras destinadas à recuperação e ao monitoramento da qualidade da água;
- a ampliação de programas de reúso, dessalinização e dessedentação artificial em áreas semiáridas, com avaliação de custo-benefício social e ambiental.
O setor de mineração já opera com equipamentos modernos que favorecem práticas mais eficientes e sustentáveis. A decantação e a filtragem para o empilhamento de rejeito a seco são prova disso. Novos filtros e pás para centrifugação, por exemplo, mostram o potencial de transformação do setor: o material segue para tanques espessadores e o rejeito sai com cerca de 30% de umidade. Após a filtragem, esse índice cai entre 15% a 20%.
A água utilizada em todo o processo fica disponível para reúso e precisa ser devidamente tratada. Novamente, o avanço tecnológico entra em cena. A startup sueca Clearwell criou um polímero para remover micropartículas de sujeira de efluentes líquidos. A taxa de sucesso é de 95,5% a 99% (índice que serviria para manutenção de água para consumo humano, caso a legislação autorizasse).
A gestão hídrica nas mineradoras também conta com outros aliados tecnológicos, como inteligência artificial (IA), aprendizado de máquina e internet das coisas (IoT). Essas ferramentas permitem monitorar em tempo real o consumo de água em todas as fases da exploração mineral. O acompanhamento contínuo possibilita ajustes imediatos nos sistemas, reduz perdas e otimiza o uso da água ao longo dos processos.