Usina de tratamento de água em uma área verde, destacando esforços para garantir a segurança hídrica e o abastecimento sustentável de água.
Foto: Vale

O papel da mineração na segurança hídrica: captação e gestão responsável

Setor aposta em reúso, processamento a seco e monitoramento digital para reduzir consumo de água

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 24/11/2025

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  • Mineradoras brasileiras adotam tecnologias de processamento seco, reúso de água e monitoramento remoto para reduzir captação em mananciais e alinhar operações à segurança hídrica.
  • Empresas como Vale estabelecem metas ambiciosas, como eliminar água doce no processamento de ferro até 2027, enquanto parcerias com startups alcançam recuperação de 80% a 85% da água utilizada.
  • Políticas de financiamento do BNDES e Finep, integração de diagnósticos hidrológicos ao licenciamento e publicação obrigatória de consumo hídrico são medidas necessárias para garantir sustentabilidade do setor minerário.
Resumo revisado pela redação.

A indústria mineradora no Brasil tem adotado práticas de gestão de água na tentativa de reduzir retiradas de fontes superficiais e aumentar a recirculação. Especialistas, operadores e autoridades apontam avanços tecnológicos e mudanças regulatórias como elementos centrais para alinhar a mineração à segurança hídrica. Relatórios e processos legais, no entanto, mostram desafios persistentes na prevenção e na recuperação de áreas degradadas.

De acordo com o Reuters World Energy, empresas de grande porte anunciaram metas para reduzir ou eliminar o uso de água doce em etapas críticas do beneficiamento mineral. A Vale, por exemplo, prevê eliminar o uso de água no processamento de minério de ferro em seu complexo de Carajás até 2027, com adoção de processos secos e reaproveitamento de rejeitos. Outros relatórios também mostram esse crescimento da recirculação interna de água e em programas de reúso em unidades de produção, com metas e indicadores sobre volumes reaproveitados. Essas ações têm impacto direto sobre a demanda por captação em mananciais locais.

A gestão estratégica dos recursos hídricos está cada vez mais em destaque no setor. “Temos de trabalhar visando à eficiência tanto energética quanto hídrica, para buscar soluções que minimizem o consumo e maximizem a recuperação de água no processo”, declarou Julio Nery, então diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em entrevista ao NeoFeed. Segundo ele, a parceria entre mineradoras, universidades e startups tem conquistado avanços. “Atualmente, há mecanismos que recuperam entre 80% e 85% da água usada no processo”, completou.

Financiamento e políticas para minerais críticos

Mecanismos de financiamento e chamadas públicas do BNDES e da Finep destinam recursos para projetos de transformação e inovação na cadeia de minerais estratégicos, incluindo tecnologias que podem reduzir consumo hídrico e favorecer processamento de menor intensidade em água. Esses instrumentos estão presentes na agenda recente de investimento em minerais críticos. Um estudo do Ibram e da KPMG defende maior integração entre licenciamento, monitoramento hidrológico e recuperação ambiental. 

Mesmo assim, um levantamento da Reuters identificou áreas de mineração com sinais de abandono, que podem representar uma ameaça à segurança hídrica em bacias afetadas. Apesar desse cenário, a nova mineração no Brasil vem adotando práticas cada vez mais sustentáveis, integrando a mineração e a segurança hídrica, com foco no processamento seco e no reúso, com tecnologias que reduzem lavagens e uso direto de água em plantas de beneficiamento. Segundo a Vale, são práticas que diminuem as captações e combinam Soluções Baseadas na Natureza para manter o equilíbrio hidrológico e a biodiversidade.

Com o monitoramento contínuo, as redes de amostragem e sensores remotos também têm sido usados para detectar variações de vazão e de qualidade da água em bacias relacionadas às áreas mineradas. Assim como a gestão de rejeitos (sem barragens do tipo a montante), que faz a substituição progressiva de tecnologias de disposição que implicam em maior risco hidrológico por métodos que reduzem o potencial de ruptura de estruturas.

Segurança hídrica em pauta

Engenheiros ambientais e técnicos em estação de tratamento de água trabalham juntos em projeto de reciclagem e reutilização de água, usando equipamentos de proteção.
Foto: Kittirat Roekburi / Modificada com IA / Shutterstock

Para que a mineração contribua efetivamente com a segurança hídrica, medidas podem ser aplicadas no curto e médio prazos. Entre elas estão:

  • a integração do planejamento de bacias e diagnósticos hidrológicos ao licenciamento minerário, com definição de metas de captação máxima aceitável;
  • a obrigatoriedade de publicação de planos de uso de água e relatórios de consumo em plataformas públicas, permitindo verificação independente; 
  • o vínculo da aprovação de novos projetos a tecnologias de baixo consumo hídrico e a garantias financeiras destinadas à recuperação e ao monitoramento da qualidade da água; 
  • a ampliação de programas de reúso, dessalinização e dessedentação artificial em áreas semiáridas, com avaliação de custo-benefício social e ambiental.  

O setor de mineração já opera com equipamentos modernos que favorecem práticas mais eficientes e sustentáveis. A decantação e a filtragem para o empilhamento de rejeito a seco são prova disso. Novos filtros e pás para centrifugação, por exemplo, mostram o potencial de transformação do setor: o material segue para tanques espessadores e o rejeito sai com cerca de 30% de umidade. Após a filtragem, esse índice cai entre 15% a 20%.

A água utilizada em todo o processo fica disponível para reúso e precisa ser devidamente tratada. Novamente, o avanço tecnológico entra em cena. A startup sueca Clearwell criou um polímero para remover micropartículas de sujeira de efluentes líquidos. A taxa de sucesso é de 95,5% a 99% (índice que serviria para manutenção de água para consumo humano, caso a legislação autorizasse). 

A gestão hídrica nas mineradoras também conta com outros aliados tecnológicos, como inteligência artificial (IA), aprendizado de máquina e internet das coisas (IoT). Essas ferramentas permitem monitorar em tempo real o consumo de água em todas as fases da exploração mineral. O acompanhamento contínuo possibilita ajustes imediatos nos sistemas, reduz perdas e otimiza o uso da água ao longo dos processos.

Dúvidas mais comuns

A mineração pode impactar significativamente os recursos hídricos através do aumento da turbidez e alteração do pH das águas, desperdício dos recursos hídricos, eutrofização, perda de habitats e espécies, além da contaminação de mananciais como rios, lagos e lençóis freáticos. No entanto, a indústria mineradora brasileira tem adotado práticas avançadas de gestão de água para reduzir essas retiradas de fontes superficiais e aumentar a recirculação, com tecnologias que recuperam entre 80% e 85% da água usada no processo.

As mineradoras estão implementando processamento a seco, reúso de água, decantação e filtragem para empilhamento de rejeito a seco, centrifugação com novos filtros e pás, além de polímeros avançados para remover micropartículas de efluentes. A Vale, por exemplo, prevê eliminar o uso de água no processamento de minério de ferro em Carajás até 2027. Tecnologias como inteligência artificial, aprendizado de máquina e internet das coisas também permitem monitorar em tempo real o consumo de água em todas as fases da exploração mineral.

O reúso de água na mineração refere-se à recirculação interna de água e programas de reutilização em unidades de produção, com metas e indicadores sobre volumes reaproveitados. Essa prática tem impacto direto na redução da demanda por captação em mananciais locais e é fundamental para a segurança hídrica. A água utilizada em processos como decantação e filtragem fica disponível para reúso após tratamento adequado, reduzindo significativamente o consumo de água doce.

Grandes empresas de mineração anunciaram metas ambiciosas para reduzir ou eliminar o uso de água doce em etapas críticas do beneficiamento mineral. A Vale, por exemplo, prevê eliminar completamente o uso de água no processamento de minério de ferro em seu complexo de Carajás até 2027, através da adoção de processos secos e reaproveitamento de rejeitos. Essas ações demonstram o compromisso do setor com a integração entre mineração e segurança hídrica.

Medidas de curto e médio prazos incluem: integração do planejamento de bacias e diagnósticos hidrológicos ao licenciamento minerário com definição de metas de captação máxima; obrigatoriedade de publicação de planos de uso de água e relatórios de consumo em plataformas públicas; vínculo da aprovação de novos projetos a tecnologias de baixo consumo hídrico; garantias financeiras para recuperação e monitoramento da qualidade da água; e ampliação de programas de reúso, dessalinização e dessedentação artificial em áreas semiáridas.

O monitoramento contínuo através de redes de amostragem, sensores remotos, inteligência artificial, aprendizado de máquina e internet das coisas permite detectar variações de vazão e qualidade da água em bacias relacionadas às áreas mineradas. Essas ferramentas possibilitam acompanhamento em tempo real do consumo de água em todas as fases da exploração mineral, permitindo ajustes imediatos nos sistemas, redução de perdas e otimização do uso da água ao longo dos processos.

As Soluções Baseadas na Natureza são práticas integradas à mineração moderna que visam manter o equilíbrio hidrológico e a biodiversidade. Combinadas com tecnologias de processamento seco e reúso, essas soluções diminuem as captações de água e contribuem para a recuperação ambiental. Além disso, a gestão de rejeitos sem barragens do tipo a montante substitui progressivamente tecnologias de disposição que implicam maior risco hidrológico por métodos que reduzem o potencial de ruptura de estruturas.

O BNDES e a Finep disponibilizam mecanismos de financiamento e chamadas públicas destinados a recursos para projetos de transformação e inovação na cadeia de minerais estratégicos, incluindo tecnologias que reduzem consumo hídrico e favorecem processamento de menor intensidade em água. Esses instrumentos estão presentes na agenda recente de investimento em minerais críticos, promovendo parcerias entre mineradoras, universidades e startups que conquistam avanços significativos na gestão hídrica.