O minério de ferro, principal matéria-prima utilizada na produção de aço, ocupa posição estratégica na economia global e na transição para uma indústria de menor emissão de carbono. Peça-chave para setores como construção civil, infraestrutura e indústria automotiva, o insumo passou a figurar nas discussões sobre sustentabilidade e competitividade industrial em meio à pressão internacional por redução de emissões.
Nesse contexto, o Brasil surge como um dos líderes do mercado ao estar entre os maiores produtores globais do minério e reunir vantagens como disponibilidade de energia renovável, estrutura consolidada de mineração e capacidade de fornecer insumos de menor intensidade de carbono. As condições brasileiras levaram a Agência Internacional de Energia (AIE) a estimar que o minério brasileiro pode contribuir para a redução de até 20% do custo adicional do aço verde da Europa.
Minério de ferro: o que é?
De acordo com o glossário do Radar Mineração, o minério de ferro é a “rocha ou mineral que contém ferro em concentração economicamente viável para extração e processamento”, sendo a hematita e a magnetita os tipos mais comuns. Trata-se da principal matéria-prima para a fabricação do aço, material amplamente utilizado em praticamente todas as cadeias produtivas modernas.
A relevância do minério de ferro está diretamente ligada ao papel do aço na economia mundial. O material está presente em edifícios, pontes, trilhos ferroviários, veículos, máquinas industriais, eletrodomésticos e equipamentos de geração de energia. Por isso, o desempenho do mercado de minério costuma acompanhar o ritmo de crescimento da infraestrutura e da atividade industrial global.
Brasil e Austrália lideram a produção mundial desse recurso estratégico, respondendo por mais de 78% do comércio marítimo internacional da commodity. Dados da Signal Ocean apontaram o Canadá como maior força exportadora, depois do Brasil e Austrália, com participação inferior a 4%.
Aplicação na produção de aço
O minério de ferro é o insumo central da cadeia siderúrgica. Após ser extraído e beneficiado, ele é aglomerado em forma de sínter, pelotas ou briquetes, que alimentam altos-fornos ou processos de redução direta utilizados na fabricação do ferro-gusa e, posteriormente, do aço.
No modelo tradicional de siderurgia, de alto-forno, o minério é combinado com fundentes e coque metalúrgico (proveniente de carvão mineral ou vegetal) para então ser submetido a altas temperaturas. O processo resulta no ferro-gusa líquido, que é levado à aciaria, onde o excesso de carbono e as impurezas são eliminados, dando origem ao aço líquido. Posteriormente, o produto segue para lingotamento e laminação.

Nos últimos anos, porém, a indústria tem investido em rotas de produção com menor emissão de carbono, como a de redução direta. Nesta, o coque é substituído pelo gás natural na redução do minério de ferro.
As etapas iniciais também avançaram no quesito sustentabilidade, especialmente na substituição de processos de pelotização e sinterização pela briquetagem. A Vale, ao longo de quase 20 anos, desenvolveu os briquetes de minério de ferro produzidos com menor intensidade de carbono, capazes de contribuir para a redução das emissões na fabricação do aço. O produto da mineradora tem o potencial de reduzir em até 10% as emissões de GEE na cadeia de valor.
Além de atender à demanda crescente por aço de menor impacto ambiental, essas iniciativas também respondem às novas exigências regulatórias de mercados internacionais, especialmente europeus.
Conexão com a sustentabilidade
A discussão sobre sustentabilidade evidenciou o papel do minério de ferro na transição energética global. Isso porque a siderurgia é responsável por cerca de 7% das emissões de dióxido de carbono, sobretudo devido ao uso de carvão mineral nos altos-fornos.
Segundo avaliação da IEA, o Brasil possui condições estratégicas para ajudar na descarbonização da indústria siderúrgica europeia. O relatório Energy Technology Perspectives 2026 aponta que a combinação entre minério brasileiro e energia renovável competitiva pode reduzir significativamente o custo do chamado aço verde produzido na Europa.

A agência destaca que os polos industriais europeus enfrentam o alto custo da energia e às limitações estruturais para conseguir atingir um custo competitivo na produção de aço de baixo carbono. Nesse cenário, importar ferro de regiões que preencham essas lacunas se torna a alternativa economicamente viável. O aspecto econômico é agravado diante dos mecanismos de taxação em implementação.
Mercado nacional e mercado global
O mercado de minério de ferro segue fortemente concentrado na Ásia, especialmente na China, principal consumidora global da commodity. Em 2025, o fluxo marítimo global de minério de ferro atingiu 1,7 bilhão de toneladas, crescimento de 3% em relação ao ano anterior, de acordo com a Signal Ocean. O avanço foi impulsionado principalmente pela demanda chinesa e pela expansão do consumo na Índia.
A China registrou aumento de 3% nas importações de minério de ferro em 2025, enquanto a Índia ampliou seu fluxo em 72%, refletindo a expansão de sua indústria siderúrgica e os investimentos em infraestrutura e urbanização. Ainda assim, o mercado global permanece altamente dependente da demanda chinesa, responsável por mais de 75% do minério transportado por via marítima.
Apesar do crescimento no fluxo comercial, a produção de aço na China apresentou retração de 4% em 2025, movimento que levou ao aumento dos estoques de minério. As perspectivas para 2026 indicam continuidade da desaceleração da siderurgia chinesa, em meio ao esforço do governo para controlar a capacidade ociosa do segmento.
Em contrapartida, a Índia pretende elevar sua capacidade de produção de aço para 300 milhões de toneladas até 2030, um aumento de 50%.
No cenário brasileiro, 2025 foi marcado pelo recorde nas exportações de minério de ferro, com 416 milhões de toneladas da commodity embarcadas, alta de cerca de 7% em relação ao ano anterior. Dessa forma, o minério de ferro se consolidou como o terceiro produto mais exportado pelo Brasil e somou US$ 28,9 bilhões em vendas.
Seguindo a lógica comercial mencionada anteriormente, a China permaneceu como principal destino do minério brasileiro, respondendo por aproximadamente 67% das exportações. A retomada das compras pela Índia também contribuiu para o desempenho do setor com US$ 440 milhões em importações.
Além da liderança consolidada de Brasil e Austrália, o mercado acompanha com atenção o avanço do projeto Simandou, na Guiné, que poderá exportar até 120 milhões de toneladas de minério de ferro quando atingir plena capacidade operacional.