Reunião entre representantes do Brasil e da Índia na assinatura de acordo sobre minerais críticos e terras raras
Foto: Ricardo Stuckert / PR / Agência Brasil

O que está em jogo no acordo do Brasil com a Índia sobre terras raras e minerais estratégicos

Entenda os principais pontos da parceria que inclui transferência de conhecimento em tecnologia, processamento, capacitação profissional e investimentos em inovação

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 09/04/2026

Baixar PDF Copiar link
  • Brasil e Índia assinaram acordo de cooperação em terras raras e minerais críticos para construir cadeias de suprimento resilientes e reduzir dependência do fornecimento chinês.
  • O memorando de entendimento entre os ministérios de Minas dos dois países abrange pesquisa, desenvolvimento, intercâmbio tecnológico e gestão ambiental na exploração de elementos de terras raras e minerais estratégicos.
  • A cooperação amplia-se além de minerais para aço, saúde, defesa e empreendedorismo, com meta de elevar comércio bilateral de US$ 15 bilhões para US$ 20 bilhões até 2030.
Resumo revisado pela redação.

Em um movimento que sinaliza a busca de países por alternativas ao predomínio chinês no fornecimento de minerais críticos para fabricação de tecnologias digitais e energéticas, Brasil e Índia assinaram, no final de fevereiro, um acordo de cooperação sobre terras raras e outros insumos estratégicos. Segundo o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a iniciativa representa “um grande passo em direção à construção de cadeias de suprimento resilientes”.

Além do memorando envolvendo os minerais críticos, os países formalizaram mais dez atos governamentais e institucionais e dez instrumentos, entre público-privados e puramente privados. Os termos acordados tratam de áreas como saúde, defesa, bioenergia, educação, empreendedorismo e combate à pobreza multidimensional.

No setor empresarial, a Vale lidera duas iniciativas em parceria com organizações indianas. A primeira prevê, em conjunto com a NMDC Limited e a Adani Gangavaram Port Limited, a criação de uma zona econômica especial no Porto de Gangavaram voltada à blendagem e comercialização de finos de minério de ferro. Já a segunda envolve um projeto colaborativo com o Tata Group para o desenvolvimento de ações destinadas ao enfrentamento da pobreza multidimensional em ambos os países.

Os cinco principais pontos entre os acordos

Como principal parceiro comercial da Índia na América Latina, o Brasil discutiu, durante a visita da comitiva brasileira ao país asiático, a meta de ampliar o comércio bilateral dos atuais US$ 15 bilhões para US$ 20 bilhões até 2030. O encontro entre os líderes dos dois países, no entanto, trouxe mais do que aspectos econômicos para o debate.

A cooperação em terras raras e aço, o compartilhamento de conhecimento de processamento e de tecnologia, além da diversificação de cadeias para fugir da dependência, tiveram destaque no setor de mineração. Confira os principais aspectos de cada um.

Terras raras

O memorando de entendimento entre o Ministério de Minas e Energia (MME – Brasil) e o Ministério de Minas (Índia) sobre terras raras e minerais críticos trata do interesse mútuo na cooperação em pesquisa, desenvolvimento e inovação na mineração no setor. Os países se comprometeram buscar caminhos para o intercâmbio de tecnologias, a gestão ambiental responsável, o monitoramento e avaliação de iniciativas de investimentos e a exploração de ETR e minerais críticos

No cerne do acordo está a segunda maior reserva de terras raras no mundo, de domínio brasileiro. A partir dos elementos do conjunto a indústria é capaz de produzir telas de smartphones, lâmpadas LED, equipamentos de raio-x e tomografia, ímãs de motores elétricos, turbinas eólicas e mísseis teleguiados.

Processamento e tecnologia

O acordo prevê facilitação de investimentos voltados à exploração, extração, desenvolvimento de infraestrutura e processamento mineral, com foco em ETRs e minerais críticos. Também trata da promoção de intercâmbio de conhecimento por meiode cientistas, especialistas, delegações, treinamento de pessoal, informações científicas e técnicas publicadas, além de publicações geológicas, amostras padrão de ETRs e minerais críticos, programas de treinamento, workshops, seminários e simpósios.

Os países também prometem facilitar a colaboração entre startups e empresas para a inovação na área de exploração, processamento e reciclagem de ETRs e minerais críticos. E isso envolve apoio à incubação, financiamento e piloto de tecnologias com foco em aumentar a eficiência, sustentabilidade e resiliência em toda a cadeia de valor 

Setor de aço também foi considerado

Por mais que os olhares se voltem para as terras raras e minerais críticos, outras indústrias minerais foram contempladas no memorando de entendimento. Na cadeia de suprimento do aço, os objetivos dos partícipes também são: transferência mútua de conhecimentos e tecnologias, com o intuito de promover o desenvolvimento do segmento, e o beneficiamento de ambos os países.

A cooperação nesse setor aborda as seguintes áreas:

  • Atração de investimentos para a exploração e o desenvolvimento de infraestrutura;
  • Tecnologias de processamento e reciclagem de minerais; 
  • Automação e uso de tecnologias avançadas visando ao aumento da eficiência operacional e à redução do impacto ambiental;
  • Uso de IA na análise de dados geocientíficos para aperfeiçoar processos de exploração e na descoberta de minerais relacionados à cadeia de suprimentos do aço;
  • Melhores práticas nas etapas de extração, processamento e gestão ambiental de minerais.

Parcerias na saúde e setor empresarial

A cooperação se estende à área da saúde com três acordos que formam as “Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo”. Com isso, o Brasil visa garantir o fornecimento dos medicamentos pertuzumabe, dasatinibe e nivolumabe, utilizados no tratamento de diferentes tipos de câncer, ao Sistema Único de Saúde (SUS).

interior de uma unidade do SUS (Sistema Único de Saúde) com profissionais de saúde atendendo pacientes e um logo azul do SUS visível na parede
Foto: Divulgação / Agência Brasil

No setor empresarial, o memorando de entendimento para micro, pequenas e médias empresas menciona, entre os objetivos, “proporcionar formação para o aperfeiçoamento das competências de gestão e técnicas das MPMEs” e “prestar assistência técnica a organizações/institutos/MPMEs na República da Índia e na República Federativa do Brasil em projetos/setores mutuamente decididos entre as duas partes”.

Dúvidas mais comuns

É um memorando de entendimento assinado em fevereiro entre os Ministérios de Minas e Energia do Brasil e da Índia, focado em cooperação em pesquisa, desenvolvimento e inovação na exploração de terras raras e minerais críticos. O acordo busca construir cadeias de suprimento resilientes e reduzir a dependência da China no fornecimento desses insumos essenciais para tecnologias digitais e energéticas.

As terras raras são elementos fundamentais na produção de diversos produtos tecnológicos e de energia. A partir desses minerais, a indústria fabrica telas de smartphones, lâmpadas LED, equipamentos de raio-x e tomografia, ímãs de motores elétricos, turbinas eólicas e mísseis teleguiados. Sua importância estratégica reside na impossibilidade de substituição desses elementos em muitas aplicações modernas.

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o que o coloca em posição estratégica no mercado global. Essa abundância de recursos naturais foi um dos principais fatores que motivou o acordo com a Índia, permitindo ao país desenvolver sua capacidade de processamento e exploração desses minerais críticos.

O acordo prevê facilitação de investimentos em exploração, extração, desenvolvimento de infraestrutura e processamento mineral, com foco especial em terras raras e minerais críticos. Também inclui promoção de intercâmbio de conhecimento entre cientistas e especialistas, colaboração entre startups e empresas para inovação em exploração, processamento e reciclagem, além de apoio à incubação e financiamento de tecnologias que aumentem eficiência, sustentabilidade e resiliência na cadeia de valor.

Além das terras raras, o memorando contempla a cadeia de suprimento do aço com objetivos de transferência mútua de conhecimentos e tecnologias. Os países se comprometem a atrair investimentos para exploração e infraestrutura, desenvolver tecnologias de processamento e reciclagem, implementar automação e tecnologias avançadas para eficiência operacional, usar inteligência artificial na análise de dados geocientíficos e compartilhar melhores práticas em extração, processamento e gestão ambiental.

Os países discutiram a ampliação do comércio bilateral dos atuais US$ 15 bilhões para US$ 20 bilhões até 2030. O Brasil é o principal parceiro comercial da Índia na América Latina, e esse aumento representa um crescimento significativo nas relações econômicas entre as duas nações.

A Vale lidera duas iniciativas principais. A primeira, em parceria com a NMDC Limited e a Adani Gangavaram Port Limited, prevê a criação de uma zona econômica especial no Porto de Gangavaram para blendagem e comercialização de finos de minério de ferro. A segunda envolve colaboração com o Tata Group para desenvolvimento de ações destinadas ao enfrentamento da pobreza multidimensional em ambos os países.

O acordo busca diversificar as cadeias de suprimento de minerais críticos, criando alternativas ao predomínio chinês no fornecimento desses insumos. Ao fortalecer a cooperação entre Brasil e Índia em exploração, processamento e tecnologia de terras raras e minerais estratégicos, os países estabelecem rotas de suprimento mais resilientes e independentes, reduzindo a vulnerabilidade do mercado global a um único fornecedor.