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James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos e Clea Schumer, autora principal do WRI
Da esquerda para a direita: James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos, e Clea Schumer, autora principal do WRI (Foto: Viviane Kulczynski)

O relógio da mineração verde: oportunidades exponenciais e a urgência climática

Dados do ‘State of Climate Action Report’, apresentados na COP30, mostram avanço lento global, mas produtos como hidrogênio verde e cimento revelam que a mudança acelerada é possível

Por Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 17/11/2025

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  • Nenhum dos 45 indicadores climáticos globais está no ritmo necessário para manter aquecimento em 1,5°C até 2030, segundo relatório do WRI apresentado na COP30.
  • Hidrogênio verde quadruplicou produção em um ano e cimento verde reduziu aceleração necessária de dez para quatro vezes, demonstrando que transições industriais podem ser exponenciais quando tecnologia, investimento e demanda se alinham.
  • Mineradoras brasileiras devem estruturar oferta descarbonizada de cobre, níquel e ferro antes que demanda internacional intensifique, pois a transição energética aumentará consumo de minérios verdes em escala estruturalmente maior.
Resumo revisado pela redação.

O cenário traçado pelo State of Climate Action Report, relatório anual publicado pelo World Resources Institute (WRI) e parceiros, que rastreia o progresso global para atingir as metas do Acordo de Paris, é contundente: nenhum avanço, isoladamente, está acelerado o suficiente. Dos 45 indicadores essenciais para manter o aquecimento global em 1,5°C, nenhum está no ritmo necessário para cumprir as metas de 2030. Clea Schumer, autora principal do WRI, participa da COP30, em Belém, e em encontro na Climate Action House não suavizou a conclusão: “É uma realidade preocupante. Os números mostram que estamos avançando na direção certa em muitos fronts, mas a velocidade é insuficiente.”.

Mas há um porém que importa profundamente à mineração.

Quando a ruptura exponencial acontece

Em meio ao diagnóstico, duas frentes detonam a narrativa de impossibilidade: hidrogênio verde e cimento.

O hidrogênio verde é o case de transformação iminente. A produção quadruplicou num único ano. Ainda representa uma fração minúscula da produção total de hidrogênio, mas o ritmo de crescimento sinaliza algo que raramente se vê em transições industriais: virada de paradigma acelerada. “Isso é exatamente o que vimos com energia solar e veículos elétricos”, explica Schumer. “Uma mudança verdadeiramente acelerada é completamente possível.”

No caso do cimento (produto de transformação mineral), o progresso é igualmente revelador, mas por razões diferentes. Em 2023, o WRI calculava que a indústria precisaria acelerar dez vezes para atingir as metas. Agora, esse fator caiu para quatro. “E isso é ainda mais impressionante porque o tempo que nos resta até 2030 está correndo”, destaca Schumer. Os ganhos vêm de eficiência operacional, novos projetos e, especialmente, da proliferação de tecnologias de captura de carbono (CCUS) e fornos de próxima geração.

O padrão é inescapável: quando há demanda estruturada, investimento concentrado e tecnologia viável, a transição não é gradual — é acelerada.

O governo como primeiro comprador

James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos e Clea Schumer, autora principal do WRI
Da esquerda para a direita: James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos e Clea Schumer, autora principal do WRI (Foto: Viviane Kulczynski)

Para que hidrogênio verde e cimento verde escalem de laboratório para indústria em massa, há um pré-requisito que nenhuma empresa resolve sozinha: demanda garantida.

James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos, presente também na COP30, é direto: “Bancos não emprestam dinheiro para novas tecnologias sem fluxos de receita previsíveis. Governos têm de ser os primeiros grandes compradores.” Na prática, isso significa: compras públicas de aço verde, cimento verde e produtos descarbonizados para infraestrutura. Significa exigências regulatórias que obriguem indústrias a especificar materiais de baixo carbono. Significa subsidiar a primeira geração de plantas — não para sempre, mas o tempo suficiente para que custos caiam e competitividade emerja naturalmente.

O paradoxo que trava o financiamento tradicional também é revelador. Schofield destacou a hesitação de grandes instituições financeiras: “Elas dizem querer liderar a transição, mas relutam em financiar porque isso aumentaria as emissões medidas nos seus portfólios. É uma contradição que trava bilhões (em investimento).”

Para o setor de mineração, a implicação é direta: não esperem que a transição aconteça por iniciativa do setor financeiro, alertam os dois especialistas. Acontecerá porque governos vão criar demanda — e bancos, eventualmente, seguirão.

A geografia da oportunidade

Há outra peça nesse tabuleiro que interessa à mineração brasileira: comércio internacional e geografia.

Os “países do cinturão solar” — economias ricas em recursos naturais e radiação solar, como o Brasil — estão em posição privilegiada para produzir commodities verdes a custos competitivos. A Índia exemplifica o potencial: recursos excepcionais, eletricidade fóssil a custo abaixo da média global e, em leilões recentes, hidrogênio verde abaixo de 4 dólares por quilo.

“O potencial deles para exportar para Europa e Ásia é fundamental”, analisa Schofield. “Essas dinâmicas ganha-ganha de comércio internacional são o que viabiliza a escala.”

O Brasil está nessa geografia. O questionamento que as mineradoras devem fazer a si mesmas não é se a transição vai acontecer — os dados mostram que acontecerá. A questão é: quem vai fornecer os minérios de qualidade, o processamento verde e os produtos aglomerados que viabilizam essa transição? Quem vai estruturar oferta de cobre, níquel e minério de ferro processados com energia limpa e competitiva antes que a demanda internacional atinja máxima intensidade?

O que não muda: urgência

Uma última perspectiva de Schumer encerra o relatório com clareza: “Dez anos após o Acordo de Paris, a transformação que vimos em veículos elétricos era inimaginável em 2015. Mudanças aceleradas são possíveis — quando tecnologia, investimento público e demanda estruturada se alinham.”

A mineração não está à margem dessa transformação. Está no centro dela. Hidrogênio verde descarboniza siderurgia. Cimento verde exige calcário e aglomerantes. Baterias e energia renovável demandam cobre em escala crescente. A eletrificação de frota de transportes requer níquel e cobalto. A transição não consome menos minerais — consome outros minerais, em quantidades estruturalmente maiores.

O relatório do WRI não é um alerta apenas para governos e indústria energética. É um relógio marcando quanto tempo resta para que as mineradoras se reposicionem. Quando as demandas aumentarem, quem não tiver estrutura de oferta descarbonizada correrá o risco de ficar fora do tabuleiro.

Não é questão de quando a transição começa. Já começou. A questão é quem captura valor nela. 

* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A transição verde na mineração refere-se ao processo de reposicionamento do setor para produzir commodities descarbonizadas, utilizando energias renováveis e tecnologias limpas. Conforme apresentado no relatório do WRI na COP30, essa transição não significa reduzir o consumo de minerais, mas sim atender a uma demanda estruturalmente maior por minérios processados com energia limpa e competitiva, como cobre, níquel, minério de ferro e cobalto, essenciais para a transição energética global.

Segundo o State of Climate Action Report do WRI, dos 45 indicadores essenciais para manter o aquecimento global em 1,5°C, nenhum está acelerado o suficiente para cumprir as metas de 2030. Embora o mundo esteja avançando na direção certa em muitos fronts, a velocidade de progresso é insuficiente para conter o aquecimento global conforme estabelecido no Acordo de Paris.

O hidrogênio verde representa um case de transformação iminente, com produção que quadruplicou em um único ano. Embora ainda represente uma fração minúscula da produção total de hidrogênio, o ritmo de crescimento sinaliza uma virada de paradigma acelerada, similar ao que ocorreu com energia solar e veículos elétricos, demonstrando que mudanças verdadeiramente aceleradas são completamente possíveis em transições industriais.

O progresso do cimento verde é revelador: em 2023, o WRI calculava que a indústria precisaria acelerar dez vezes para atingir as metas, mas esse fator caiu para quatro em 2024. Os ganhos vêm de eficiência operacional, novos projetos e, especialmente, da proliferação de tecnologias de captura de carbono (CCUS) e fornos de próxima geração, demonstrando que quando há demanda estruturada, investimento concentrado e tecnologia viável, a transição é acelerada.

Os governos são essenciais como primeiros grandes compradores de tecnologias verdes, pois bancos não emprestam dinheiro para novas tecnologias sem fluxos de receita previsíveis. Isso significa compras públicas de aço verde, cimento verde e produtos descarbonizados para infraestrutura, exigências regulatórias que obriguem indústrias a especificar materiais de baixo carbono, e subsídios para a primeira geração de plantas até que custos caiam e competitividade emerja naturalmente.

O Brasil, como um dos 'países do cinturão solar' — economias ricas em recursos naturais e radiação solar — está em posição privilegiada para produzir commodities verdes a custos competitivos. Essa geografia favorável, combinada com recursos excepcionais e eletricidade renovável, permite que o país estruture oferta de minérios processados com energia limpa antes que a demanda internacional atinja máxima intensidade, capturando valor na transição global.

Uma das principais maneiras de tornar a mineração mais sustentável é através do uso de energias renováveis, como solar e eólica. Essas fontes de energia não só reduzem a pegada de carbono das operações de mineração, mas também podem diminuir os custos operacionais a longo prazo, tornando a mineração verde economicamente competitiva.

A transição energética global demanda quantidades estruturalmente maiores de minérios específicos: cobre em escala crescente para baterias e energia renovável, níquel e cobalto para eletrificação de frotas de transportes, calcário e aglomerantes para cimento verde, e minério de ferro processado com energia limpa para siderurgia descarbonizada. A mineração não está à margem dessa transformação, mas no centro dela.