- Nenhum dos 45 indicadores climáticos globais está no ritmo necessário para manter aquecimento em 1,5°C até 2030, segundo relatório do WRI apresentado na COP30.
- Hidrogênio verde quadruplicou produção em um ano e cimento verde reduziu aceleração necessária de dez para quatro vezes, demonstrando que transições industriais podem ser exponenciais quando tecnologia, investimento e demanda se alinham.
- Mineradoras brasileiras devem estruturar oferta descarbonizada de cobre, níquel e ferro antes que demanda internacional intensifique, pois a transição energética aumentará consumo de minérios verdes em escala estruturalmente maior.
O cenário traçado pelo State of Climate Action Report, relatório anual publicado pelo World Resources Institute (WRI) e parceiros, que rastreia o progresso global para atingir as metas do Acordo de Paris, é contundente: nenhum avanço, isoladamente, está acelerado o suficiente. Dos 45 indicadores essenciais para manter o aquecimento global em 1,5°C, nenhum está no ritmo necessário para cumprir as metas de 2030. Clea Schumer, autora principal do WRI, participa da COP30, em Belém, e em encontro na Climate Action House não suavizou a conclusão: “É uma realidade preocupante. Os números mostram que estamos avançando na direção certa em muitos fronts, mas a velocidade é insuficiente.”.
Mas há um porém que importa profundamente à mineração.
Quando a ruptura exponencial acontece
Em meio ao diagnóstico, duas frentes detonam a narrativa de impossibilidade: hidrogênio verde e cimento.
O hidrogênio verde é o case de transformação iminente. A produção quadruplicou num único ano. Ainda representa uma fração minúscula da produção total de hidrogênio, mas o ritmo de crescimento sinaliza algo que raramente se vê em transições industriais: virada de paradigma acelerada. “Isso é exatamente o que vimos com energia solar e veículos elétricos”, explica Schumer. “Uma mudança verdadeiramente acelerada é completamente possível.”
No caso do cimento (produto de transformação mineral), o progresso é igualmente revelador, mas por razões diferentes. Em 2023, o WRI calculava que a indústria precisaria acelerar dez vezes para atingir as metas. Agora, esse fator caiu para quatro. “E isso é ainda mais impressionante porque o tempo que nos resta até 2030 está correndo”, destaca Schumer. Os ganhos vêm de eficiência operacional, novos projetos e, especialmente, da proliferação de tecnologias de captura de carbono (CCUS) e fornos de próxima geração.
O padrão é inescapável: quando há demanda estruturada, investimento concentrado e tecnologia viável, a transição não é gradual — é acelerada.
O governo como primeiro comprador

Para que hidrogênio verde e cimento verde escalem de laboratório para indústria em massa, há um pré-requisito que nenhuma empresa resolve sozinha: demanda garantida.
James Schofield, especialista em planejamento estratégico e de cenários energéticos, presente também na COP30, é direto: “Bancos não emprestam dinheiro para novas tecnologias sem fluxos de receita previsíveis. Governos têm de ser os primeiros grandes compradores.” Na prática, isso significa: compras públicas de aço verde, cimento verde e produtos descarbonizados para infraestrutura. Significa exigências regulatórias que obriguem indústrias a especificar materiais de baixo carbono. Significa subsidiar a primeira geração de plantas — não para sempre, mas o tempo suficiente para que custos caiam e competitividade emerja naturalmente.
O paradoxo que trava o financiamento tradicional também é revelador. Schofield destacou a hesitação de grandes instituições financeiras: “Elas dizem querer liderar a transição, mas relutam em financiar porque isso aumentaria as emissões medidas nos seus portfólios. É uma contradição que trava bilhões (em investimento).”
Para o setor de mineração, a implicação é direta: não esperem que a transição aconteça por iniciativa do setor financeiro, alertam os dois especialistas. Acontecerá porque governos vão criar demanda — e bancos, eventualmente, seguirão.
A geografia da oportunidade
Há outra peça nesse tabuleiro que interessa à mineração brasileira: comércio internacional e geografia.
Os “países do cinturão solar” — economias ricas em recursos naturais e radiação solar, como o Brasil — estão em posição privilegiada para produzir commodities verdes a custos competitivos. A Índia exemplifica o potencial: recursos excepcionais, eletricidade fóssil a custo abaixo da média global e, em leilões recentes, hidrogênio verde abaixo de 4 dólares por quilo.
“O potencial deles para exportar para Europa e Ásia é fundamental”, analisa Schofield. “Essas dinâmicas ganha-ganha de comércio internacional são o que viabiliza a escala.”
O Brasil está nessa geografia. O questionamento que as mineradoras devem fazer a si mesmas não é se a transição vai acontecer — os dados mostram que acontecerá. A questão é: quem vai fornecer os minérios de qualidade, o processamento verde e os produtos aglomerados que viabilizam essa transição? Quem vai estruturar oferta de cobre, níquel e minério de ferro processados com energia limpa e competitiva antes que a demanda internacional atinja máxima intensidade?
O que não muda: urgência
Uma última perspectiva de Schumer encerra o relatório com clareza: “Dez anos após o Acordo de Paris, a transformação que vimos em veículos elétricos era inimaginável em 2015. Mudanças aceleradas são possíveis — quando tecnologia, investimento público e demanda estruturada se alinham.”
A mineração não está à margem dessa transformação. Está no centro dela. Hidrogênio verde descarboniza siderurgia. Cimento verde exige calcário e aglomerantes. Baterias e energia renovável demandam cobre em escala crescente. A eletrificação de frota de transportes requer níquel e cobalto. A transição não consome menos minerais — consome outros minerais, em quantidades estruturalmente maiores.
O relatório do WRI não é um alerta apenas para governos e indústria energética. É um relógio marcando quanto tempo resta para que as mineradoras se reposicionem. Quando as demandas aumentarem, quem não tiver estrutura de oferta descarbonizada correrá o risco de ficar fora do tabuleiro.
Não é questão de quando a transição começa. Já começou. A questão é quem captura valor nela.
* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

