Edifício do Parlamento Europeu com várias bandeiras da União Europeia ao vento, simbolizando o pacote legislativo Omnibus da UE que busca simplificar e harmonizar regras
Foto: Sergii Figurnyi/ Adobe Stock

Europa discute flexibilização de regras ESG

Pacote legislativo conhecido como “Omnibus”, da União Europeia, visa a simplificar e harmonizar regras, o que pode ser uma boa notícia para organizações brasileiras

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 07/11/2025 | Atualizado em 08/11/2025

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A União Europeia está analisando a possibilidade de adiamento nos prazos e o abrandamento das exigências de suas regras ESG (metas ambientais, sociais e de governança corporativa), estabelecidas pelo “Green Deal”. O objetivo da mudança é reduzir a carga burocrática e aumentar a competitividade das empresas. Se aprovada, a regra valerá para empresas brasileiras com faturamento anual líquido na UE igual ou superior a 150 milhões de euros e sucursal com volume de negócios de 40 milhões de euros. 

“Ainda não é possível afirmar que haverá mudanças, mas as companhias que fazem negócios com o bloco europeu precisam ficar atentas às movimentações”, destaca artigo da Capital Reset. 

Atualmente, mais de 60% das organizações do bloco europeu afirmam que a complexidade das normas ambientais e sociais representa um obstáculo ao investimento.

A proposta, conhecida como “Omnibus”, inclui a extensão dos prazos para apresentação de relatórios de sustentabilidade (CSRD, na sigla em inglês), além da isenção desta obrigação  para 80% das empresas e mudanças na taxação de produtos importados por empresas europeias. 

A possível alteração das regras deve afetar positivamente companhias brasileiras que mantêm negócios na União Europeia, inclusive com extensão de prazos para apresentação de reportes. 

Caso a mudança não ocorra, o Green Deal estabelece, a partir de 2026, a obrigação de apresentação de relatórios analisando a influência de fatores externos nas atividades e cadeias de fornecimento das empresas, como mudanças climáticas ou riscos de vulnerabilidade social. 

Green Deal

European Green Deal
Foto: Alexandros Michailidis/ Shutterstock

As regras foram estabelecidas em 2019, quando a Comissão Europeia apresentou o European Green Deal, política de transição energética com meta de neutralidade de carbono até 2050, e meta intermediária (para 2030) de redução de 55% das emissões de gases de efeito estufa, em comparação com os níveis de 1990. 

O acordo abrange energia, transporte, construção civil, compras públicas, agricultura, clima, meio ambiente e indústria, sob o lema “nenhuma pessoa e nenhum lugar será deixado para trás”.

Para sustentar o Green Deal, algumas propostas legislativas foram aprovadas, como um sistema de taxonomia que define atividades econômicas sustentáveis e estabelece parâmetros para investimentos ESG, buscando transparência e combate ao greenwashing. A taxonomia da UE, adotada em junho de 2020, visa a guiar investimentos para setores ambientalmente responsáveis. Além da obrigação de apresentar relatórios CSRD, o Green Deal também criou o Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD), aprovado em abril de 2024. A regra exige que empresas realizem due diligence sobre impactos ambientais e de direitos humanos de suas operações e cadeia de valor na Europa e também fora dela. 

Empresas brasileiras com faturamento líquido maior ou igual a 1,5 bilhão de euros a partir de 2027, ou a 450 milhões de euros a partir de 2029, por exemplo, estariam sujeitas à determinação. 

A norma impõe ainda monitoramento e mitigação de impactos negativos na cadeia de valor, exigindo que corporações europeias garantam que fornecedores, subcontratados e parceiros sigam padrões sustentáveis.

Por fim, o Green Deal também criou o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), uma sobretaxa para importações de produtos intensivos em carbono, a ser paga pelo importador europeu. Isso significa que quem quiser vender para o mercado europeu precisa estar em conformidade com as regras estabelecidas.

No caso do setor de mineração, a União Europeia exige que as atividades comerciais ocorram somente após avaliação ambiental de impacto, sejam legalizadas e respeitem os direitos dos povos indígenas e comunidades locais, permitindo mineração sustentável.

Omnibus traz proposta de abrandamento das exigências

O rigor das regras estava sendo visto como uma barreira à competitividade. Estudos da Comissão Europeia e de consultorias especializadas indicavam encargos regulatórios como obstáculo ao investimento de longo prazo na Europa. Além disso, o custo de cumprimento regulatório da UE foi estimado em 150 bilhões de euros ao ano. 

Críticos à regra afirmam que as várias legislações que fazem parte do chamado Green Deal europeu contêm sobreposições e são excessivamente complexas – o que dificulta tanto o seu cumprimento quanto a sua fiscalização.

Para equilibrar a questão, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs cortar a burocracia para as empresas em 25%, chegando a 35% para pequenas e médias organizações, o que pode resultar em 50 bilhões de euros em novos investimentos privados.

Nesse contexto, surgiu o “omnibus”, um pacote de medidas legislativas para discutir regras de forma integrada. O objetivo é harmonizar a aplicação formal das normas e facilitar a entrega de relatórios por empresas, sem comprometer o conteúdo material. Taxonomia, CSRD e CSDDD foram incluídas. 

As propostas de flexibilização incluem a isenção da maior parte (80%) das companhias que teriam de se adequar. Apenas empresas com mais de mil funcionários, ou faturamento superior a 50 milhões de euros na UE, ficariam sujeitas à regra. Além disso, os critérios de faturamento líquido para companhias estrangeiras mudariam de 150 milhões para 450 milhões de euros, e os ativos da filial europeia de 40 milhões para 50 milhões de euros.

Já a CSDDD pode ter sua entrada em vigor adiada em um ano, para julho de 2028, o que pode aliviar a pressão para entrega de informações por companhias brasileiras.

No caso do CBAM, a proposta pode isentar quase 200 mil empresas, ou 90% das afetadas originalmente, incidindo sobre grandes importadores de bens como aço, alumínio e derivados. Mesmo com a mudança, 99% das emissões importadas pelo bloco serão cobertas, segundo a Comissão Europeia. Informações a serem declaradas na importação também serão revisadas.

Tema polêmico

O Partido do Povo Europeu, o mesmo da presidente von der Leyen, defende reduções na agenda ESG para evitar o peso das medidas em pequenas e médias empresas, o que seria uma ameaça ao futuro econômico da UE. 

O governo francês pediu reconsideração de 18 legislações, sugerindo a suspensão indefinida da CSDDD e redução de pontos a serem relatados pela CSRD. A porta-voz do governo francês, Sophie Primas, por sua vez, disse que a União Europeia “foi longe demais”. Já o governo alemão solicitou a prorrogação da CSRD por ao menos dois anos e a elevação do número de funcionários para que a empresa seja enquadrada no escopo.

Do outro lado, há forças contrárias à ideia do omnibus, ressaltando os seus riscos. As organizações não-governamentais (ONGs) WWF e Frank Bold, por exemplo, se posicionaram favoravelmente à CSRD. Além disso, grandes empresas, incluindo Nestlé, Unilever, Mars, DP World, NEI Investments, Ferrero, Primark e L’Occitane, também manifestaram apoio à regulamentação mais rigorosa.

Dúvidas mais comuns

O European Green Deal é uma política de transição energética apresentada pela Comissão Europeia em 2019, com meta de neutralidade de carbono até 2050 e redução de 55% das emissões de gases de efeito estufa até 2030 em comparação com os níveis de 1990. A política abrange energia, transporte, construção civil, compras públicas, agricultura, clima, meio ambiente e indústria, sob o lema 'nenhuma pessoa e nenhum lugar será deixado para trás'.

Os três pilares da ESG são: E de Environmental (Ambiental), que inclui práticas de energia limpa, gestão de resíduos e emissões de carbono; S de Social, que aborda diversidade, direitos trabalhistas e impacto na comunidade; e G de Governança, que envolve ética, transparência, conselhos independentes e compliance.

O 'Omnibus' é um pacote de medidas legislativas proposto pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para simplificar e harmonizar as regras ESG do Green Deal. Foi proposto porque estudos indicavam que a complexidade das normas ambientais e sociais representava um obstáculo ao investimento, com mais de 60% das organizações do bloco europeu afirmando isso. O objetivo é reduzir a burocracia em 25% (até 35% para pequenas e médias empresas) e gerar aproximadamente 50 bilhões de euros em novos investimentos privados.

Empresas brasileiras com faturamento anual líquido na UE igual ou superior a 150 milhões de euros e sucursal com volume de negócios de 40 milhões de euros serão afetadas pelas regras ESG. Além disso, empresas brasileiras com faturamento líquido maior ou igual a 1,5 bilhão de euros a partir de 2027, ou 450 milhões de euros a partir de 2029, estarão sujeitas ao Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD).

As principais propostas incluem: isenção de 80% das companhias, mantendo obrigações apenas para empresas com mais de mil funcionários ou faturamento superior a 50 milhões de euros na UE; aumento do critério de faturamento líquido para empresas estrangeiras de 150 para 450 milhões de euros; adiamento da CSDDD em um ano, para julho de 2028; e isenção de aproximadamente 90% das empresas afetadas pelo CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism), incidindo principalmente sobre grandes importadores de bens como aço e alumínio.

A CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) é a obrigação de apresentação de relatórios de sustentabilidade estabelecida pelo Green Deal. Atualmente, a partir de 2026, as empresas devem apresentar relatórios analisando a influência de fatores externos nas atividades e cadeias de fornecimento. O 'Omnibus' propõe a extensão dos prazos para apresentação desses relatórios e a isenção desta obrigação para 80% das empresas, reduzindo significativamente a carga regulatória.

O CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) é uma sobretaxa para importações de produtos intensivos em carbono, a ser paga pelo importador europeu. Quem quiser vender para o mercado europeu precisa estar em conformidade com as regras estabelecidas. A proposta do 'Omnibus' pode isentar quase 200 mil empresas (90% das afetadas originalmente), incidindo principalmente sobre grandes importadores, enquanto mantém cobertura de 99% das emissões importadas pelo bloco.

As possíveis alterações das regras devem afetar positivamente companhias brasileiras que mantêm negócios na União Europeia, principalmente através da extensão de prazos para apresentação de relatórios e redução da complexidade regulatória. Com critérios de faturamento aumentados e isenções para empresas menores, empresas brasileiras terão menos pressão regulatória e custos de conformidade reduzidos, facilitando seus negócios no bloco europeu.