- Minerais críticos como lítio, cobre e nióbio assumem protagonismo geopolítico como essenciais para transição energética e economia de baixo carbono, com executivos descrevendo-os como "o petróleo do próximo século".
- A Bahia projeta receber US$ 9 bilhões em investimentos minerários até 2029, consolidando-se como terceiro maior produtor mineral do país com 200 municípios mineradores e diversidade de recursos como terras raras, ferro e fosfato.
- O setor enfrenta desafios estruturais em legislação desatualizada, financiamento com taxas altas, infraestrutura portuária limitada e escassez de mão de obra qualificada para operacionalizar a expansão minerária planejada.
A Exposibram 2025 começou ontem em Salvador com a palavra “oportunidade” como mote. Isto envolve de geopolítica às pessoas e comunidades, culminando na transição energética e na expectativa de que a mineração apoie o desenvolvimento da economia nacional.
A questão foi consenso entre as lideranças presentes nos painéis de abertura do evento e também nas falas colhidas pela reportagem do Radar Mineração nos corredores do Centro de Convenções de Salvador, um espaço recém-construído e o primeiro do Nordeste a abrigar a Exposibram.
A escolha é representativa, já que a Bahia se consolidou como o terceiro maior produtor mineral do país. Para os próximos anos (2025-2029), o estado projeta receber US$ 9 bilhões em investimentos, o que equivale a 13,2% do total esperado para o país.
Com mais de 400 estandes, a Exposibram 2025 sinaliza o otimismo do setor na Bahia e, não por outro motivo, a abertura do evento reuniu governo, setor produtivo, academia e representantes internacionais de países como Espanha, Chile, Bélgica, Portugal e Coreia do Sul.

A maioria das lideranças classificou que os minerais críticos – como lítio, cobre, nióbio e terras raras – assumiram protagonismo na geopolítica desde que foram percebidos como essenciais para baterias, redes elétricas e tecnologias digitais necessárias para a transição energética e para uma economia de baixo carbono. “Os minerais críticos serão o petróleo do próximo século”, resumiu Gustavo Pimenta, CEO da Vale, que defendeu uma mineração “mais digital, autônoma e de menor impacto ambiental”.
Terra de oportunidades
Na Bahia, o “novo petróleo” está sendo encontrado mais rapidamente. De modo geral, o subsolo baiano está sendo prospectado em um ritmo mais acelerado do que na maioria dos demais estados, e isso foi exaltado em diferentes momentos no dia de abertura da Exposibram. Parte importante desse avanço é creditado ao trabalho da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), uma empresa estatal fundada nos anos 1970 e que está mudando o enfoque para se dedicar exclusivamente a pesquisas para produção mineral.
Segundo Henrique Carballal, presidente da CBPM, a mineração baiana arrecadou mais de R$ 10 bilhões no ano passado. São cerca de 200 municípios mineradores no estado, fontes de níquel sulfetado, diamantes em kimberlito, urânio, grafita, cobre, cobalto, ferro, terras raras e fósforo. Carballal detalhou ainda que há 64 áreas de terras raras prontas para negociação, assim como um corredor de cerca de 300 quilômetros com ocorrência de ferro (com alto teor), titânio, vanádio, níquel, cobre, cobalto, grafita, terras raras e fosfatos.
Com essa diversidade, a Bahia vai confirmando empreendimentos, inclusive para reduzir a dependência brasileira na importação de fertilizantes fosfatados e para instalar a primeira indústria de vidro solar fora da China, em projeto da Homerun Brasil em parceria com a CBPM.
A canadense Ero Copper também investe no estado. Já presente no Brasil em operações como a de Tucumã (PA), em parceria com a Vale, ela acredita no cobre como um metal estratégico para a transição energética e avalia que terá demanda crescente. De fato, as projeções do Banco Mundial são de que o mundo deverá consumir 60% mais cobre até 2050 e a Ero Copper quer, como mostrou o CEO da companhia, Eduardo Come, atender a parte dessa demanda com a sua produção na Bahia.
A Ero tem operações no município de Caraíba, no nordeste do estado, onde estão as minas subterrâneas Pilar e Vermelhos, além da mina a céu aberto Surubim. Segundo Come, a jazida baiana é explorada desde a década de 1980 e já tem vida útil projetada até 2042, com perspectivas de ampliação.
Ele explicou que as previsões de investimentos da Ero estão concentradas em geologia e aumento da capacidade de processamento. “Afinal, o minério de alto teor foi, em grande parte, consumido. Para manter o mesmo nível de produção, precisamos processar mais minério”, afirmou.
Nessa linha, a empresa vem ampliando a capacidade de moinho na mineração de Caraíba. Nos últimos anos, ela passou de 1,8 milhão de toneladas para 3 milhões, e deve chegar a 4,2 milhões de toneladas em breve. Além disso, vem desenvolvendo um poço de 1,5 mil metros de profundidade, que deve se tornar o mais profundo para mineração de cobre do país, permitindo acessar depósitos de alto teor já comprovados em níveis mais profundos.
Contra o desenvolvimento, pontos da legislação brasileira são, para Come, entraves a serem superados. “A legislação para minas subterrâneas é da década de 1940. Somos o único país entre as economias desenvolvidas que limita o trabalho em mina subterrânea a seis horas, enquanto a maioria permite turnos de 12 horas. Além disso, profissionais altamente qualificados precisam se aposentar cedo por exigência legal”, observou.
Outro ponto é a necessidade de requalificação da mão de obra. “A Bahia tem posição privilegiada, com instituições técnicas e universidades capazes de preparar profissionais locais para atuar nas novas tecnologias”, disse.
O terceiro desafio é a infraestrutura. “O estado tem o maior litoral do país, mas ainda enfrenta limitações nos portos. Também competimos com outros grandes consumidores de energia, como data centers e veículos elétricos. Acreditamos que a Bahia pode ocupar posição de destaque na produção de cobre, desde que supere esses entraves”, disse.
Terra de desafios
O deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) exaltou avanços que, segundo ele, abriram as oportunidades ao setor de mineração, mas também reconheceu – e listou – desafios para que as aproveitemos.

Com a visão de quem “deve pensar em como as regras podem dialogar com o setor”, ele avaliou que a mineração saiu de uma posição defensiva – assumida após os desastres de Mariana e Brumadinho – para o cenário de oportunidades. “O setor mudou isso de diversas formas, sendo a principal com iniciativa, assumindo custos. Agora, a Exposibram mostra que o setor não só assumiu sua responsabilidade social, como também a ambiental, que já está plenamente assimilada. Eu parabenizo e acho que isso veio para ficar”, disse.
Quanto à responsabilidade social, a presidente da Associação de Familiares das Vítimas de Brumadinho (Avabrum), Josiane Melo, esteve na abertura do evento, mostrando que as lições do rompimento da barragem de Brumadinho devem continuar sendo assimiladas por todos. “Precisamos de um setor de mineração que ponha a vida em primeiro lugar. Os funcionários que saem de casa precisam deixar suas famílias tranquilas. Lutamos por nossas 272 ‘joias’ (as vítimas do rompimento da barragem) e pela vida de cada pessoa que trabalha na mineração”, afirmou.
Na visão de Arnaldo Jardim, os avanços (como os ocorridos com a descaracterização de barragens e cuidados ambientais e com comunidades), mostram que o país tem um arcabouço legal robusto, com leis como a de Crimes Ambientais e da Mata Atlântica, que não têm correlatas na maioria dos outros países. Agora, ele avalia que o desafio é aprimorar os instrumentos de licenciamento ambiental, ao mesmo tempo em que os instrumentos de inovação avançam.
O debate em curso sobre a legislação de licenciamento ambiental está produtivo e com ampla participação, segundo o deputado. “Ainda vamos ter definição, mas o próprio governo federal mandou projeto de Medida Provisória”, disse, exemplificando que há uniformidade entre o Legislativo e o Executivo em torno do tema. “Incluímos a mineração, mas não abrandamos qualquer questão de licença ambiental. Só demos celeridade. Outro ponto é fazer com que tenhamos instrumentos de inovação tecnológica. Há alguns dispositivos, como a Lei do Bem, mas precisamos identificar o esforço do país com o esforço de legislação tecnológica”, completou o parlamentar.
Como desafio, o deputado também elencou a competitividade financeira para viabilizar o financiamento no setor. “Com uma taxa Selic de 15%, o Brasil acaba tendo uma concorrência desleal em relação ao ponto de vista de capital. No Parlamento, um passo importante foi o estabelecimento das debêntures de infraestrutura. É um título espelho que já vem ajudando a diminuir o custo de captação”, disse.
Outros especialistas comentaram sobre a questão do financiamento no primeiro dia de Exposibram e um dos argumentos para demonstrar a necessidade de avanço é que apenas dez mineradoras estariam listadas na bolsa de valores brasileiras (a B3), enquanto no Canadá, por exemplo, há 41 empresas do setor só na Bolsa de Toronto, evidenciando a necessidade de mecanismos domésticos de capitalização, incentivos e instrumentos de mercado que fomentem a indústria brasileira.

O presidente da Bamin, Eduardo Jorge Ledsham, demonstrou a relevância financeira para viabilizar projetos como o que pode levar à produção de 26 milhões de toneladas de minérios no corredor da Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste). “Buscamos investidores para concluir as obras. A Bahia é um novo corredor de mineração porque combina quatro coisas: diversidade de 47 meios minerais, o maior parque de energia renovável do país e uma história de sucesso como a mina operada por brasileiros há 40 anos. O Canadá reconhece o minério de ferro de alta qualidade como crítico e o Brasil tem potencial com a Bahia. Também cito o vanádio e outros diferenciais de qualidade.”
Fortalecendo as oportunidades
Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil e membro do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), endereçou o conceito de “oportunidade” para o momento que vive o setor brasileiro de mineração. E ele passa pelos pontos comentados na reportagem, mas também envolve as pessoas.

Para Ana, aliás, é nelas que está o principal aspecto. Em uma analogia do setor mineral com o corpo humano, o coração é para o corpo como as pessoas são para a mineração, em sua visão. “Vivemos um momento turbulento na geopolítica global e também local e, do dia para a noite, vemos a mineração no centro desse debate. O que poderia ser um ambiente de incerteza pode agora ser um momento de oportunidade [com as pessoas ao centro]”, disse.
Para Ledsham o estado da Bahia está um passo à frente porque teria a maior cobertura geológica do país atualmente. “No número de áreas requeridas hoje, a Bahia passou todos os outros estados entre 2023 e 2025. Ocorre que, se combinarmos os projetos de estrutura de mineração e o potencial de crescimento, não temos mão de obra para atender. O número de geólogos se formando é muito aquém”, avaliou.
Ao mesmo tempo em que a mineração precisa de pessoas qualificadas para operá-la, deve atuar em prol de melhorar a vida das pessoas agora e no futuro próximo.

Rodrigo Magalhães, diretor global de mineração da Mosaic, pontuou que dados da ONU mostram que até 2050 teremos acréscimo de 60% na demanda por alimentos e, por isso, todas as cadeias da mineração têm de estar atentas ao “mercado pujante”, como ele classificou. “O Brasil é um grande importador de fertilizantes. Historicamente, 85% deles são importados. Por isso o potássio e o fosfato precisam estar na política de minerais críticos estratégicos (que está em discussão)”, disse Magalhães. O CEO da Galvani Fertilizantes, Marcelo Silvestre, reforçou que 24% do PIB está relacionado ao agro e, independentemente da mineração, o país precisa aproveitar o potencial do subsolo. “O Brasil, que tem um subsolo tão rico – talvez pouco conhecido ainda (apenas 27% do subsolo brasileiro está mapeado, segundo o Ibram). É uma grande oportunidade, como país e como setor da sociedade, trazer desenvolvimento por meio dele”. “Já falamos da grande quantidade de fertilizantes importados [e do problema que isso representa], pois covid, guerra, tarifaço mudam as dinâmicas de importação”, concluiu, sugerindo que uma cadeia de fertilizantes nacional mais forte envolve também segurança alimentar para o país.
Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

