- Preços do ouro acima de US$ 4 mil por onça impulsionam reativação de minas paralisadas e viabilizam projetos de baixo teor no Brasil, ampliando a produção de 30 para 70 toneladas entre 2005 e 2024.
- Crises geopolíticas, endividamento governamental e políticas de desdolarização reforçam a demanda por ouro como ativo de refúgio, sustentando cotações elevadas e atraindo investimentos institucionais globais.
- Fusões e aquisições entre mineradoras reorganizam ativos, consolidam o setor brasileiro e criam ambiente competitivo que deve manter o crescimento produtivo nos próximos anos.
A disparada dos preços do ouro em 2025 tem redesenhado o mapa da mineração mundial e impulsionado investimentos em jazidas antes consideradas de baixo teor. Com a cotação superando os US$ 4 mil por onça troy — um recorde histórico —, o metal voltou a atrair grandes mineradoras e investidores institucionais. No Brasil, a alta do preço não apenas viabilizou a retomada de minas paralisadas, como também incentivou a pesquisa mineral e a retomada de projetos de pouca atratividade há alguns anos.
No artigo Estrutura produtiva e cenários do ouro no Brasil em 2024, na revista In the Mine, Mathias Heider e David Siqueira Fonseca, especialistas da Agência Nacional de Mineração (ANM), detalham esse novo ciclo de valorização e expansão. Segundo os autores, o avanço das cotações a partir de 2020 consolidou um movimento que já se desenhava na década anterior, quando o preço do ouro saiu da média de US$ 444 por onça em 2005 para US$ 1,67 mil em 2012, provocando uma corrida global por novos projetos e reativação de minas.
Nos anos seguintes, o mercado viveu uma fase de ajustes, até que a combinação de crises geopolíticas, incertezas econômicas e políticas monetárias expansionistas reverteu o cenário. A partir de 2020, a valorização ganhou novo fôlego, alimentada por fatores como a desconfiança em relação a títulos públicos, o aumento do endividamento das principais economias, a desdolarização parcial do comércio internacional e o fortalecimento das reservas de ouro nos bancos centrais, em especial na China e em países emergentes. Somaram-se a isso os efeitos das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e as tensões comerciais entre Estados Unidos e seus parceiros, que reforçaram a busca por ativos de refúgio.
Reavaliações de viabilidade e risco

O texto destaca que, diante desse contexto, o Brasil vive uma fase de expansão de seu parque produtivo. A produção industrial de ouro cresceu de 30 toneladas em 2005 para 70 toneladas em 2024, acompanhada por expressivo volume de exportações, da ordem de US$ 3,96 bilhões.
A valorização reduziu a aversão ao risco e estimulou investimentos em jazidas de menor teor e em regiões antes fora do radar das grandes companhias. Projetos como Jacobina (BA), Paracatu (MG) e Salobo (PA) exemplificam esse avanço, somando-se à atuação de junior companies capitalizadas nas bolsas de Toronto e Sydney, que contribuem para financiar a exploração mineral e ampliar a transparência do setor.
Entre os fatores estruturais dessa expansão, o artigo detalha um extenso histórico de fusões e aquisições no mercado brasileiro. A movimentação começou nos anos 2000 e se intensificou na última década, envolvendo companhias como Yamana, AngloGold Ashanti, Kinross, Equinox, Aura, GMining e Pilar Gold. Os autores defendem que essas operações permitiram reorganizar ativos, retomar minas desativadas e criar um ambiente mais competitivo e diversificado.
Expectativas de manutenção de tendências
Heider e Fonseca observam que o cenário global continua a favorecer a manutenção desse ciclo de alta. A incerteza política e monetária, o endividamento recorde de governos e empresas e o avanço de políticas de desdolarização tendem a sustentar a demanda por ouro como reserva de valor. Ao mesmo tempo, os custos crescentes e a complexidade geológica das novas jazidas mantêm a oferta restrita, o que reforça a tendência de preços elevados no médio prazo.
Para os autores, essa combinação de valorização, investimento em pesquisa e reativação de minas deve garantir o crescimento da produção brasileira nos próximos anos. O ouro, afirmam, seguirá exercendo seu papel histórico de ativo de proteção, mas agora ancorado em um setor minerador mais consolidado, tecnologicamente avançado e integrado às novas dinâmicas do mercado global.