Em meio às discussões globais sobre o futuro do planeta na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, um debate crucial para a Amazônia ganhou destaque: como conciliar a potência mineral do Pará com a urgente necessidade de uma transição energética justa. No painel “A Importância da Mineração na Transição Energética”, realizado no estande da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), na Green Zone, a mensagem foi objetiva: a pauta mineral e a ambiental não podem mais andar separadas, mas o caminho para uni-las é complexo e cheio de contradições.
O debate, mediado pela deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa, expôs o paradoxo central da nova economia verde. “Para produzir um carro elétrico, precisamos de duas a quatro vezes mais cobre do que em um carro convencional. Para construir turbinas de energia eólica, são necessárias toneladas de ferro e outros minerais”, explicou Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) Amazônia, ilustrando por que a descarbonização global depende diretamente da extração de recursos naturais.

Essa realidade coloca o Pará, que caminha para ser o maior estado minerador do Brasil, hoje atrás de Minas Gerais, no centro de uma disputa geopolítica por “minerais críticos e estratégicos”, como cobre, nióbio e terras raras. “A gente percebe aí uma guerra silenciosa em busca desses minerais”, afirmou Santos.
Contudo, enquanto a demanda cresce, o Brasil mal conhece seu próprio potencial. O representante do Ibram destacou um dado alarmante: apenas 4% do território nacional foi mapeado geologicamente em escala detalhada (1:50.000), essencial para identificar novas jazidas. “Olha o tanto que a gente ainda tem para conseguir mapear”, ressaltou, defendendo o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) para atrair investimentos para uma mineração “responsável e sustentável”.
Avanços do governo e o paradoxo social
O governo do Pará, por sua vez, tenta se adiantar. Marcelo Moreno, diretor da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semas), detalhou os esforços para modernizar o licenciamento ambiental e superar o “abismo” entre empresas, comunidades e poder público. “Trouxemos para dentro do licenciamento a pauta ESG [ambiental, social e de governança] das empresas, alinhando as ações delas com as políticas públicas do Estado”, explicou.
Moreno também revelou que a secretaria está priorizando projetos de minerais estratégicos e adotando um novo conceito: o de “inclusão energética”, em vez de apenas “transição”. A mudança de termo não é cosmética e reflete uma dura realidade local. “Temos uma grande barragem de água para geração de energia, e próximo dela há comunidades que ainda utilizam lamparinas”, lamentou o diretor, citando um projeto paralisado que levaria um parque solar flutuante para beneficiar essas populações.
A deputada Maria do Carmo reforçou a urgência de resolver essa contradição. “O Pará tem uma das maiores reservas minerais do Brasil. A questão não é o não fazer, mas o como fazer para que essa riqueza se traduza em desenvolvimento social”, afirmou.

O debate também levantou a questão do controle sobre o que é exportado. Uma pesquisadora presente na plateia questionou a falta de laboratórios no país capazes de analisar os valiosos subprodutos que saem do Brasil junto com o minério principal, sem a devida compensação.
Para os especialistas, o caminho para o Pará e o Brasil liderarem a economia de baixo carbono passa por um modelo de governança robusto, que invista em pesquisa, fortaleça a fiscalização e, acima de tudo, garanta que a exploração dos recursos naturais contribua para um futuro mais justo para as pessoas que vivem na Amazônia.
** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração
Dúvidas mais comuns
-
-
A mineração é fundamental para a transição energética porque a produção de tecnologias limpas requer quantidades significativas de minerais críticos. Um carro elétrico precisa de duas a quatro vezes mais cobre do que um carro convencional, e as turbinas de energia eólica demandam toneladas de ferro e outros minerais. Sem a extração responsável desses recursos, a descarbonização global não será possível.
-
-
O Pará possui uma das maiores reservas minerais do Brasil e caminha para se tornar o maior estado minerador do país. Sua riqueza em minerais críticos e estratégicos como cobre, nióbio e terras raras o coloca no centro de uma disputa geopolítica internacional por esses recursos essenciais para a transição energética global.
-
-
O paradoxo central é conciliar a exploração das riquezas minerais do estado com a necessidade de garantir desenvolvimento social justo para as comunidades locais. Enquanto o Pará possui potencial para liderar a economia verde, muitas comunidades próximas a grandes projetos de infraestrutura energética ainda carecem de acesso básico a energia e serviços essenciais.
-
-
Os minerais críticos e estratégicos incluem cobre, nióbio e terras raras. Esses elementos são essenciais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e outras tecnologias de energia limpa que impulsionam a descarbonização global.
-
-
O Brasil enfrenta um desafio significativo: apenas 4% do seu território foi mapeado geologicamente em escala detalhada (1:50.000), essencial para identificar novas jazidas. Especialistas defendem o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) para atrair investimentos em mineração responsável e sustentável, além de expandir o mapeamento geológico nacional.
-
-
A 'inclusão energética' é um conceito que vai além da simples 'transição energética', buscando garantir que as comunidades locais também se beneficiem dos projetos de energia. Reflete a necessidade de que a exploração de recursos naturais não apenas atenda à demanda global, mas também leve energia e desenvolvimento para populações que ainda vivem em condições precárias.
-
-
O governo do Pará está modernizando o licenciamento ambiental ao incorporar a pauta ESG (ambiental, social e de governança) das empresas, alinhando suas ações com as políticas públicas estaduais. Essa abordagem busca superar o 'abismo' entre empresas, comunidades e poder público, criando um modelo de governança mais robusto e inclusivo.
-
-
O Brasil carece de laboratórios capazes de analisar adequadamente os valiosos subprodutos que saem do país junto com o minério principal. Essa deficiência resulta em falta de compensação adequada pelo valor real dos recursos exportados, representando uma perda econômica significativa para o país e suas comunidades.

