canal especial
Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa e Marcelo Moreno, diretor da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semas)
Da esquerda para a direita: Anderson Santos, Maria do Carmo e Marcelo Moreno (Foto: Viviane Kulczynski)

Pará debate seu dilema: ser potência mineral para o mundo sem deixar sua gente para trás

Especialistas e autoridades expõem o paradoxo da transição energética: para salvar o clima, é preciso minerar mais, mas de forma sustentável, inclusiva e com governança

Por Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 19/11/2025

Baixar PDF Copiar link

Em meio às discussões globais sobre o futuro do planeta na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, um debate crucial para a Amazônia ganhou destaque: como conciliar a potência mineral do Pará com a urgente necessidade de uma transição energética justa. No painel “A Importância da Mineração na Transição Energética”, realizado no estande da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), na Green Zone, a mensagem foi objetiva: a pauta mineral e a ambiental não podem mais andar separadas, mas o caminho para uni-las é complexo e cheio de contradições.

O debate, mediado pela deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa, expôs o paradoxo central da nova economia verde. “Para produzir um carro elétrico, precisamos de duas a quatro vezes mais cobre do que em um carro convencional. Para construir turbinas de energia eólica, são necessárias toneladas de ferro e outros minerais”, explicou Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) Amazônia, ilustrando por que a descarbonização global depende diretamente da extração de recursos naturais.

Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram)
Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) (Foto: Viviane Kulczynski)

Essa realidade coloca o Pará, que caminha para ser o maior estado minerador do Brasil, hoje atrás de Minas Gerais, no centro de uma disputa geopolítica por “minerais críticos e estratégicos”, como cobre, nióbio e terras raras. “A gente percebe aí uma guerra silenciosa em busca desses minerais”, afirmou Santos.

Contudo, enquanto a demanda cresce, o Brasil mal conhece seu próprio potencial. O representante do Ibram destacou um dado alarmante: apenas 4% do território nacional foi mapeado geologicamente em escala detalhada (1:50.000), essencial para identificar novas jazidas. “Olha o tanto que a gente ainda tem para conseguir mapear”, ressaltou, defendendo o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) para atrair investimentos para uma mineração “responsável e sustentável”.

Avanços do governo e o paradoxo social

O governo do Pará, por sua vez, tenta se adiantar. Marcelo Moreno, diretor da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semas), detalhou os esforços para modernizar o licenciamento ambiental e superar o “abismo” entre empresas, comunidades e poder público. “Trouxemos para dentro do licenciamento a pauta ESG [ambiental, social e de governança] das empresas, alinhando as ações delas com as políticas públicas do Estado”, explicou.

Moreno também revelou que a secretaria está priorizando projetos de minerais estratégicos e adotando um novo conceito: o de “inclusão energética”, em vez de apenas “transição”. A mudança de termo não é cosmética e reflete uma dura realidade local. “Temos uma grande barragem de água para geração de energia, e próximo dela há comunidades que ainda utilizam lamparinas”, lamentou o diretor, citando um projeto paralisado que levaria um parque solar flutuante para beneficiar essas populações.

A deputada Maria do Carmo reforçou a urgência de resolver essa contradição. “O Pará tem uma das maiores reservas minerais do Brasil. A questão não é o não fazer, mas o como fazer para que essa riqueza se traduza em desenvolvimento social”, afirmou.

Deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa
Deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa (Foto: Viviane Kulczynski)

O debate também levantou a questão do controle sobre o que é exportado. Uma pesquisadora presente na plateia questionou a falta de laboratórios no país capazes de analisar os valiosos subprodutos que saem do Brasil junto com o minério principal, sem a devida compensação.

Para os especialistas, o caminho para o Pará e o Brasil liderarem a economia de baixo carbono passa por um modelo de governança robusto, que invista em pesquisa, fortaleça a fiscalização e, acima de tudo, garanta que a exploração dos recursos naturais contribua para um futuro mais justo para as pessoas que vivem na Amazônia.

** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A mineração é fundamental para a transição energética porque a produção de tecnologias limpas requer quantidades significativas de minerais críticos. Um carro elétrico precisa de duas a quatro vezes mais cobre do que um carro convencional, e as turbinas de energia eólica demandam toneladas de ferro e outros minerais. Sem a extração responsável desses recursos, a descarbonização global não será possível.

O Pará possui uma das maiores reservas minerais do Brasil e caminha para se tornar o maior estado minerador do país. Sua riqueza em minerais críticos e estratégicos como cobre, nióbio e terras raras o coloca no centro de uma disputa geopolítica internacional por esses recursos essenciais para a transição energética global.

O paradoxo central é conciliar a exploração das riquezas minerais do estado com a necessidade de garantir desenvolvimento social justo para as comunidades locais. Enquanto o Pará possui potencial para liderar a economia verde, muitas comunidades próximas a grandes projetos de infraestrutura energética ainda carecem de acesso básico a energia e serviços essenciais.

Os minerais críticos e estratégicos incluem cobre, nióbio e terras raras. Esses elementos são essenciais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e outras tecnologias de energia limpa que impulsionam a descarbonização global.

O Brasil enfrenta um desafio significativo: apenas 4% do seu território foi mapeado geologicamente em escala detalhada (1:50.000), essencial para identificar novas jazidas. Especialistas defendem o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) para atrair investimentos em mineração responsável e sustentável, além de expandir o mapeamento geológico nacional.

A 'inclusão energética' é um conceito que vai além da simples 'transição energética', buscando garantir que as comunidades locais também se beneficiem dos projetos de energia. Reflete a necessidade de que a exploração de recursos naturais não apenas atenda à demanda global, mas também leve energia e desenvolvimento para populações que ainda vivem em condições precárias.

O governo do Pará está modernizando o licenciamento ambiental ao incorporar a pauta ESG (ambiental, social e de governança) das empresas, alinhando suas ações com as políticas públicas estaduais. Essa abordagem busca superar o 'abismo' entre empresas, comunidades e poder público, criando um modelo de governança mais robusto e inclusivo.

O Brasil carece de laboratórios capazes de analisar adequadamente os valiosos subprodutos que saem do país junto com o minério principal. Essa deficiência resulta em falta de compensação adequada pelo valor real dos recursos exportados, representando uma perda econômica significativa para o país e suas comunidades.