- O Pará enfrenta o desafio de expandir sua produção mineral para atender à demanda global por recursos críticos à transição energética sem aprofundar desigualdades sociais locais.
- A descarbonização global depende de minerais como cobre, nióbio e terras raras, mas apenas 4% do território brasileiro foi mapeado geologicamente em detalhe para identificar novas jazidas.
- A solução requer governança robusta que integre pauta ambiental e social no licenciamento, invista em pesquisa local e garanta que a exploração mineral gere desenvolvimento para comunidades amazônicas.
Em meio às discussões globais sobre o futuro do planeta na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, um debate crucial para a Amazônia ganhou destaque: como conciliar a potência mineral do Pará com a urgente necessidade de uma transição energética justa. No painel “A Importância da Mineração na Transição Energética”, realizado no estande da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), na Green Zone, a mensagem foi objetiva: a pauta mineral e a ambiental não podem mais andar separadas, mas o caminho para uni-las é complexo e cheio de contradições.
O debate, mediado pela deputada Maria do Carmo (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepa, expôs o paradoxo central da nova economia verde. “Para produzir um carro elétrico, precisamos de duas a quatro vezes mais cobre do que em um carro convencional. Para construir turbinas de energia eólica, são necessárias toneladas de ferro e outros minerais”, explicou Anderson Santos, gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) Amazônia, ilustrando por que a descarbonização global depende diretamente da extração de recursos naturais.

Essa realidade coloca o Pará, que caminha para ser o maior estado minerador do Brasil, hoje atrás de Minas Gerais, no centro de uma disputa geopolítica por “minerais críticos e estratégicos”, como cobre, nióbio e terras raras. “A gente percebe aí uma guerra silenciosa em busca desses minerais”, afirmou Santos.
Contudo, enquanto a demanda cresce, o Brasil mal conhece seu próprio potencial. O representante do Ibram destacou um dado alarmante: apenas 4% do território nacional foi mapeado geologicamente em escala detalhada (1:50.000), essencial para identificar novas jazidas. “Olha o tanto que a gente ainda tem para conseguir mapear”, ressaltou, defendendo o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) para atrair investimentos para uma mineração “responsável e sustentável”.
Avanços do governo e o paradoxo social
O governo do Pará, por sua vez, tenta se adiantar. Marcelo Moreno, diretor da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semas), detalhou os esforços para modernizar o licenciamento ambiental e superar o “abismo” entre empresas, comunidades e poder público. “Trouxemos para dentro do licenciamento a pauta ESG [ambiental, social e de governança] das empresas, alinhando as ações delas com as políticas públicas do Estado”, explicou.
Moreno também revelou que a secretaria está priorizando projetos de minerais estratégicos e adotando um novo conceito: o de “inclusão energética”, em vez de apenas “transição”. A mudança de termo não é cosmética e reflete uma dura realidade local. “Temos uma grande barragem de água para geração de energia, e próximo dela há comunidades que ainda utilizam lamparinas”, lamentou o diretor, citando um projeto paralisado que levaria um parque solar flutuante para beneficiar essas populações.
A deputada Maria do Carmo reforçou a urgência de resolver essa contradição. “O Pará tem uma das maiores reservas minerais do Brasil. A questão não é o não fazer, mas o como fazer para que essa riqueza se traduza em desenvolvimento social”, afirmou.

O debate também levantou a questão do controle sobre o que é exportado. Uma pesquisadora presente na plateia questionou a falta de laboratórios no país capazes de analisar os valiosos subprodutos que saem do Brasil junto com o minério principal, sem a devida compensação.
Para os especialistas, o caminho para o Pará e o Brasil liderarem a economia de baixo carbono passa por um modelo de governança robusto, que invista em pesquisa, fortaleça a fiscalização e, acima de tudo, garanta que a exploração dos recursos naturais contribua para um futuro mais justo para as pessoas que vivem na Amazônia.
** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

