Em uma mina de cobre, um sistema de transporte móvel constrói constantemente uma pilha de lixiviação, crucial para a recuperação mineral.
Em uma mina de cobre, um sistema de transporte móvel constrói constantemente uma pilha de lixiviação, crucial para a recuperação mineral (Foto: Jose Luis Stephens/ Shutterstock)

Governo sugere parceria com os EUA para produção de minerais críticos

Cooperação envolveria investimentos, tecnologia e agregação de valor à produção nacional, porém sem alterar as regras de exploração mineral previstas na legislação brasileira

Por Mariana Sgarioni, 3 min de leitura

Publicado em 09/07/2026

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A possibilidade de uma parceria entre Brasil e Estados Unidos para fortalecer a cadeia de minerais críticos e terras raras parece estar na mira do governo federal. Na última sexta-feira (3/7) o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou, em uma agenda em Belo Horizonte, que o Brasil está aberto a construir uma cooperação estratégica com os norte-americanos nesse segmento. 

A proposta, segundo ele, buscaria ampliar investimentos, tecnologia e capacidade industrial em um setor considerado essencial para a transição energética. A iniciativa é vista como positiva por especialistas do setor mineral, desde que esteja voltada à atração de investimentos, à transferência de tecnologia e ao fortalecimento da indústria nacional e não ao acesso às jazidas brasileiras, hipótese que não encontra respaldo na legislação em vigor. 

O professor da Faculdade de Direito da UFMG e especialista em direito minerário e ambiental Leonardo Alves Corrêa explica que é preciso separar a dimensão geopolítica da jurídica. Embora os minerais críticos tenham assumido papel estratégico em vários aspectos da economia, o modelo legal brasileiro não permite que acordos entre governos definam o destino da produção mineral, muito menos concedam preferência de acesso ao subsolo.

Segundo Corrêa, a legislação estabelece que a União é proprietária do subsolo, mas a empresa que recebe a autorização de lavra passa a deter os direitos sobre a exploração e pode comercializar livremente sua produção. Na prática, isso significa que um eventual acordo de cooperação entre Brasil e Estados Unidos não obriga que os minerais extraídos no país sejam destinados ao mercado norte-americano.

“Seria ilegal o Estado brasileiro decidir qual será o destino do minério. Essa decisão pertence à empresa que detém a propriedade da lavra, e não ao governo”, ressalta o especialista, em entrevista ao Radar Mineração.

Leonardo Alves Corrêa, professor da Faculdade de Direito da UFMG e especialista em direito minerário e ambiental
Leonardo Alves Corrêa, professor da Faculdade de Direito da UFMG e especialista em direito minerário e ambiental (Foto: Divulgação/ Faculdade de Direito da UFMG)

Para ele, há espaço para acordos entre os dois países em áreas como pesquisa, inovação, investimentos, desenvolvimento tecnológico e ampliação da capacidade de processamento dos minerais críticos em território brasileiro. Protocolos de intenções e cooperação técnica entre governos são instrumentos comuns e podem contribuir para fortalecer a competitividade da mineração sem alterar as regras que disciplinam a atividade.

Ibram vê oportunidade com parceria

A avaliação é compartilhada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Para o diretor-presidente da entidade, Pablo Cesário, o Brasil reúne condições para ocupar posição de destaque na cadeia global de minerais críticos graças à combinação de reservas minerais relevantes, disponibilidade de energia, capacidade de atrair investimentos e potencial para ampliar o processamento industrial no próprio país.

Diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário
Pablo Cesário (Foto: Divulgação/ Ibram)

Embora defendam a ampliação da cooperação internacional, os especialistas alertam que esse movimento deve preservar a previsibilidade regulatória. Para Leonardo Alves Corrêa, o setor mineral demanda investimentos elevados e projetos de longo prazo, o que exige um ambiente jurídico estável e regras claras.

Nesse contexto, uma eventual parceria entre Brasil e Estados Unidos tende a se concentrar em investimentos, inovação, tecnologia e desenvolvimento industrial. O consenso entre os especialistas é que esse caminho pode fortalecer a posição brasileira no mercado global de minerais críticos sem alterar o regime jurídico da mineração nem comprometer a autonomia das empresas que operam no país.

Dúvidas mais comuns

Minerais críticos são elementos essenciais para a soberania, economia, segurança alimentar e transição energética, cuja oferta pode estar sujeita a riscos de abastecimento. Eles incluem lítio, cobalto, níquel, terras raras e titânio, fundamentais para a fabricação de baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e semicondutores, desempenhando papel crucial na transição energética global.

O governo federal estuda uma cooperação estratégica com os Estados Unidos para fortalecer a cadeia de minerais críticos e terras raras, buscando ampliar investimentos, tecnologia e capacidade industrial. A iniciativa visa atrair investimentos, transferir tecnologia e fortalecer a indústria nacional, sem alterar as regras de exploração mineral vigentes no Brasil.

Não. Segundo a legislação brasileira, embora a União seja proprietária do subsolo, a empresa que recebe autorização de lavra detém os direitos sobre a exploração e pode comercializar livremente sua produção. Seria ilegal o Estado brasileiro decidir o destino do minério, pois essa decisão pertence à empresa que detém a propriedade da lavra, não ao governo.

Um acordo de cooperação entre os dois países pode focar em pesquisa, inovação, investimentos, desenvolvimento tecnológico e ampliação da capacidade de processamento dos minerais críticos em território brasileiro. Protocolos de intenção e cooperação técnica entre governos são instrumentos comuns que podem fortalecer a competitividade da mineração sem alterar as regras que disciplinam a atividade.

O Brasil produz diversos minerais críticos, incluindo lítio, cobalto, níquel e terras raras. O país também é destaque na produção de nióbio, com duas empresas privadas controlando praticamente toda a oferta: a CBMM, que detém 80% da produção mundial, e a Mineração Catalão de Goiás.

O Brasil reúne condições ideais para ocupar posição de destaque graças à combinação de reservas minerais relevantes, disponibilidade de energia, capacidade de atrair investimentos e potencial para ampliar o processamento industrial no próprio país. Isso permite que o Brasil participe não apenas como fornecedor de matérias-primas, mas como parceiro relevante no desenvolvimento de soluções industriais de maior valor agregado.

A parceria pode fortalecer a posição brasileira no mercado global através de transferência de tecnologia, atração de investimentos e desenvolvimento de capacidade industrial. Especialistas destacam que esse movimento deve preservar a previsibilidade regulatória e manter um ambiente jurídico estável, permitindo que o setor mineral continue atraindo investimentos elevados e projetos de longo prazo.