A Amazônia surge no debate como coração climático do planeta e epicentro de um desafio social que exige novas alianças entre governos, empresas e ciência. Em um painel que reuniu a economista Esther Duflo, premiada com o Nobel de Economia, Gustavo Pimenta, CEO da Vale, e o pesquisador e cofundador do Imazon Beto Veríssimo, o tom foi de urgência e pragmatismo: sem políticas formadas por evidência e sem financiamento justo, o século pode terminar com milhões de mortes adicionais por calor — concentradas nas faixas mais pobres.
Abrindo a sessão, Veríssimo dimensionou o bioma: “A região amazônica é maior que a Europa”. O pesquisador apontou gargalos como insegurança fundiária e alta taxa de desmatamento em áreas públicas como fatores que minam a eficácia de fundos e políticas tradicionais. Sua provocação foi direta: “Quero que vocês sintam o calor extremo — persistente, mais forte e concentrado”, lembrando que a crise climática já pressiona economias e comunidades amazônicas.
Do lado empresarial, Pimenta cravou que a sustentabilidade de longo prazo passa por metas sociais concretas. Com 60% do minério de ferro da Vale saindo da Amazônia, ele defendeu que conservação e inclusão caminham juntas: “Para além dos nossos compromissos ambientais, as pessoas vivem no bioma e buscam trabalho”. Em 2021, a Vale assumiu a meta inédita de contribuir para tirar 500 mil pessoas da pobreza no Brasil, enfrentando a reação de acionistas que viam o tema como “papel do governo”. Para Pimenta, é parte da licença para operar e do propósito corporativo de “melhorar vidas e transformar o futuro”. A abordagem é bottom-up, ancorada em dores locais e em uma rede de cerca de 30 organizações parceiras.
Duflo, por sua vez, levou ao palco o peso dos números. Citando evidências do Climate Impact Lab sob o cenário RCP 8.5, ela descreveu um “mapa da morte pelo calor” até 2100, com regiões como Sahel, Paquistão, norte da Índia e o Norte do Brasil em risco extremo. Mesmo sem incluir enchentes ou secas, o calor extremo poderia adicionar cerca de 6 milhões de mortes por ano no fim do século. E a assimetria é brutal: os 10% mais ricos respondem por cerca de 50% das emissões globais, enquanto 98% dos danos mortais projetados recaem sobre os pobres.
Com um valor estatístico de vida de US$ 2 milhões (referência do México), Duflo estima em US$ 30 a mortalidade futura causada por cada tonelada de carbono — só as emissões da OCDE em 2022 embutem US$ 1,8 trilhão/ano em danos mortais, um “passivo invisível” que redefine a justiça climática.

A economista apresentou um caminho com base em um desenho ousado: uma “Grande Barganha” que combina compensações diretas por danos climáticos, precificação de carbono calibrada por renda e reforma tributária global para ampliar a arrecadação sobre multinacionais e ultrarricos. Países de baixa e média renda adotariam preços de carbono compatíveis com responsabilidades diferenciadas (valores indicativos de US$ 10–30 por tonelada, conforme faixa de renda), com a arrecadação ficando integralmente nos orçamentos nacionais. Os recursos financiariam um tripé de adaptação com execução automática e previsível:
• Transferências diretas a famílias, para amortecer picos de calor e proteger saúde e renda — inclusive gatilhos mensais ativados por indicadores climáticos em países como Índia e Brasil.
• Subvenções em bloco para comunidades (cerca de 15% dos recursos), destinadas a obras e serviços locais que indivíduos não conseguem prover sozinhos: drenagem, sombreamento, abrigos térmicos, manejo de água e saúde comunitária.
• Seguro e financiamento soberano para desastres, com linhas paramétricas vinculadas a vento, chuva e calor, evitando o ciclo de endividamento pós-evento e acelerando a reconstrução.
Para viabilizar o acordo, Duflo defende reforçar o pacto fiscal internacional: elevar a alíquota mínima global sobre multinacionais (acordo OCDE de 2021) para 20%–21% e avançar na tributação de ultrarricos via G20, bloqueando erosão de base e competição fiscal. “O dinheiro existe e o planeta nos pede para compartilhar”, resumiu, argumentando que compensar danos climáticos é um esforço público, comparável em escala — ainda que menor — aos subsídios fósseis hoje vigentes.
A interseção com a mineração foi direta. Setores intensivos em energia, com operações em regiões quentes e vulneráveis, tornam-se pilares da execução. Segundo Duflo, quatro implicações práticas se impõem às empresas:
• Precificação interna robusta de carbono: adotar um preço alinhado ao custo social estimado e refletir isso em Capex, contratos e P&D, reduzindo risco regulatório e sinalizando seriedade ao investidor.
• Adaptação como core business: infraestrutura térmica para trabalhadores e comunidades (refúgios climatizados, pausas térmicas, água, saúde ocupacional), engenharia de drenagem e sombreamento e reflorestamento funcional com serviços ecossistêmicos nas áreas de influência.
• Financiamento inteligente e seguro climático: estruturar mecanismos paramétricos com governos e multilaterais e contribuir com fundos comunitários de adaptação com governança local e transparência.
• Cadeia de valor com responsabilidade: mapear emissões incorporadas e reduzir intensidade de carbono em minério e metais — especialmente para baterias e aço verde — numa economia que começa a precificar externalidades.
No plano institucional, o painel convergiu em três pilares para um “Bill of Rights” da Amazônia: empresas com compromissos mensuráveis e metas sociais reais; ciência rigorosa para desenhar, testar e escalar políticas que funcionam; e governança/financiamento internacional que torne a cooperação efetiva e justa.

“Não existe CEO do clima”, lembrou Duflo — soluções precisam alinhar interesses e compensar trade-offs percebidos por países de renda média e baixa. Com a confiança corroída por promessas não entregues, é necessário que o contrato proposto tente reconstruí-la com fluxo automático, critérios claros e benefício líquido para quem mais sofre.
Gustavo Pimenta qualificou o desenho como “impressionante” e “o caminho certo”, reconhecendo os desafios de execução em um multilateralismo tenso, mas conclamando parcerias para melhorias incrementais no estado atual das coisas. Para o setor de mineração — especialmente com presença na Amazônia — o recado final é pragmático: adaptação não é caridade nem marketing; é gestão de risco humano e operacional. Em territórios onde o calor já ameaça vidas e produtividade, a licença para operar será concedida a quem reduzir emissões, financiar adaptação territorial e provar impacto social com métricas, transparência e resultados verificáveis.
*Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

