Máquina de triagem e empilhadeira em operação durante a formação de pilhas de estoque de minério de ferro em terminal portuário
Máquina de triagem e empilhadeira em operação durante a formação de pilhas de estoque de minério de ferro em terminal portuário (Foto: Azad Pirayandeh/ Shutterstock)

Pré-pagamento avança como modelo de financiamento para minério de ferro, explica especialista

Consultor detalha ao Radar Mineração a modalidade na qual um comprador antecipa recursos em troca do compromisso de fornecimento futuro de minerais

Por Nelson Valencio, 4 min de leitura

Publicado em 12/08/2026

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O recente acordo entre a mineradora brasileira Itaminas e a trading chinesa IXM, subsidiária da mineradora CMOC, mostra a expansão do modelo de pré-pagamento para o mercado de minério de ferro. Em suma, a negociação prevê o pagamento adiantado em troca do fornecimento garantido a longo prazo.

Para o líder de Energia e Recursos Naturais da EY, Afonso Sartorio, o pré-pagamento se popularizou inicialmente no setor de petróleo, onde se tornou um dos pilares do financiamento de trading internacional. Segundo ele, o instrumento se expandiu ao longo das últimas duas décadas para metais e mineração e é amplamente utilizado em cobre, cobalto, níquel, lítio e outros minerais críticos.

“No minério de ferro, a adoção é mais recente, em parte porque o setor historicamente foi dominado por grandes produtores com forte capacidade de autofinanciamento”, explica em conversa com o Radar Mineração. “À medida que projetos de médio porte ganham relevância e a necessidade de investimentos aumenta, o modelo vem se tornando mais presente também nesse mercado”, diz o consultor.

Sartorio avalia que para as mineradoras brasileiras, especialmente as de médio porte, o pré-pagamento pode ser particularmente atrativo no cenário atual. O principal benefício é o acesso rápido a capital em dólar, normalmente a custos mais competitivos do que o crédito doméstico em reais.

Segundo o consultor, outro benefício é que a estrutura não exige diluição acionária, preserva a participação dos sócios e, em muitos casos, dispensa garantias reais tradicionais, uma vez que o próprio fluxo futuro de produção funciona como suporte econômico da operação.

Benefícios incluem frete e distribuição  

Outro ganho importante é que o financiamento frequentemente vem acompanhado do acesso à rede comercial e logística dos grandes compradores globais.

“Não se trata apenas de capital: o produtor passa a contar com acesso a mercados, soluções de frete, blending, distribuição e relacionamento com consumidores finais que dificilmente conseguiria construir sozinho”, detalha. “Para empresas que buscam crescer ou acessar novos mercados internacionais, esse componente pode ser tão relevante quanto o financiamento em si”, diz.

Afonso Sartorio, líder de Energia e Recursos Naturais da EY
Afonso Sartorio, líder de Energia e Recursos Naturais da EY (Foto: Divulgação/ EY)

Por outro lado, o instrumento exige atenção, segundo o especialista. Diferente de uma dívida convencional, a obrigação é liquidada por meio da entrega de produção futura. Desta forma, em cenários de queda relevante da commodity, o volume necessário para amortizar a operação pode aumentar, elevando a pressão sobre o fluxo operacional. Pode haver ainda uma limitação em captura altas de preços, a depender da estrutura do contrato.

Também existem desafios relacionados à governança e à execução. Sartorio lembra que são contratos sofisticados, com mecanismos complexos de monitoramento, desempenho operacional e gestão de riscos.

Ele explica que fatores como licenciamento ambiental, disponibilidade logística, barragens, ferrovias e portos tornam-se elementos centrais em mineração, uma vez que o risco muitas vezes não está na capacidade de pagamento financeiro, mas na capacidade de entregar o minério contratado.  

Outro aspecto particularmente interessante do processo é a crescente convergência entre financiamento e comercialização.

“Tradicionalmente, os bancos financiavam e tradings compravam. Hoje, essas fronteiras estão cada vez menos nítidas”, argumenta.

As grandes tradings globais passaram a desempenhar um papel mais ativo no financiamento da cadeia produtiva, utilizando sua capacidade de originar, comercializar e distribuir commodities como base para estruturar operações de crédito. “Em muitos casos, o trader deixa de ser apenas comprador e passa a atuar como financiador do crescimento do produtor”, completa.

Uso no Brasil pode aumentar

Do ponto de vista regulatório, o pré-pagamento também ocupa uma posição singular, na análise do consultor. Por não envolver aquisição societária nem transferência de controle, normalmente não aciona os mesmos processos regulatórios associados a investimentos diretos ou operações de fusão e aquisição (M&A).

Com isso, a alternativa pode ser mais rápida e eficiente para mobilização de capital internacional. Ao mesmo tempo, o avanço dessas estruturas levanta discussões sobre concentração de oferta, dependência comercial e influência econômica exercida por financiadores sobre cadeias estratégicas de minerais.

No caso da China, por exemplo, ele avalia que se trata de um facilitador e acelerador de acesso a suprimento de minérios e diversificação.

Sartorio explica ainda que, para as mineradoras brasileiras, a relevância do instrumento tende a aumentar. O setor enfrenta a necessidade de investir em segurança operacional, beneficiamento, aumento de qualidade do produto e expansão de capacidade em um ambiente de juros elevados.

Ao mesmo tempo, a competição internacional se intensifica, especialmente com a entrada de novos projetos de baixo custo em outras regiões produtoras, como a África Ocidental.

“O pré-pagamento mostra como a mineração está evoluindo financeiramente, sendo que o trader deixa de ser apenas comprador de minério e passa a exercer também o papel de financiador do crescimento do setor, aproximando capital, produção e acesso aos mercados globais em uma única estrutura”, conclui.

Como funciona o pré-pagamento

O pré-pagamento ou prepayment é uma estrutura de financiamento em que um comprador, normalmente uma trading global, siderúrgica ou grande consumidor industrial, antecipa recursos ao produtor em troca do compromisso de fornecimento futuro de minério.

Na prática, funciona como um financiamento lastreado na produção futura (production-backed financing), combinando crédito e contrato de venda de longo prazo. Assim, o produtor recebe caixa imediatamente para investir, enquanto o financiador garante acesso futuro à commodity.