- O Brasil possui reservas minerais de classe mundial, mas enfrenta gargalos crônicos em logística, licenciamento e previsibilidade regulatória que impedem sua competitividade global na mineração de críticos.
- A transição energética global aumentará demanda por minerais críticos, exigindo que o Brasil implemente uma agenda nacional com modernização regulatória, segurança jurídica e investimentos em infraestrutura e pesquisa mineral.
- A mineração brasileira deve se posicionar como parceira confiável e sustentável na geopolítica dos minerais estratégicos, integrando práticas ESG e descarbonização como condições fundamentais para gerar valor e atrair capital de longo prazo.
A transição energética global colocou a mineração brasileira em uma encruzilhada estratégica. Enquanto o mundo demanda seus minerais críticos, desafios crônicos como o “Custo Brasil”, gargalos regulatórios e a necessidade de previsibilidade ameaçam o potencial do país. Como o Brasil pode se posicionar como um parceiro confiável, sustentável e competitivo neste novo cenário geopolítico? Para debater esta agenda urgente, o Radar Mineração conversou com Ana Sanches, uma das vozes mais influentes do setor, que atua em uma dupla frente de liderança: como CEO da Anglo American no Brasil e como presidente do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Nesta conversa, ela detalha os passos necessários para criar uma “agenda nacional para a mineração do futuro”, analisa os entraves que precisam ser superados e explora as conexões indispensáveis entre competitividade, sustentabilidade, governança setorial e a licença social para operar.
Há um movimento claro de reconfiguração geopolítica em torno dos minerais críticos. O Brasil possui reservas minerais de classe mundial, mas enfrenta o crônico “Custo Brasil”. Qual é, na sua visão, a política pública ou a mudança regulatória mais importante que o país precisa implementar para destravar seu potencial e competir de igual para igual com nações como Austrália e Canadá?
Não há fonte de energia limpa que não demande minerais para a sua existência. A transição energética global vai aumentar a demanda por esses ativos, e pode colocar o Brasil em posição privilegiada, desde que o nosso país consiga ampliar o seu mapeamento geológico e a sua infraestrutura de produção.
Alguns passos têm sido realizados positivamente, por meio do Ibram e suas associadas, além da Frente Parlamentar da Mineração Sustentável (FPMin), inclusive, com articulações no Legislativo em apoio ao projeto de lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Essa proposta está em aprovação, com o objetivo fomentar a pesquisa, a lavra e a transformação desses minerais de forma sustentável no país.
O Brasil é um grande player em minério de ferro e níquel, mas ainda tem gargalos em logística, licenciamento e previsibilidade regulatória. Quais pontos o país precisa atacar com urgência para não perder relevância no mapa global da mineração?

Precisamos de uma agenda nacional para a mineração do futuro, com o objetivo de reduzir entraves e estimular investimentos. Isso inclui avanços no ambiente regulatório, previsibilidade tributária, segurança jurídica, cenário político estável, aportes em infraestrutura e estímulo à pesquisa mineral. O mundo está redesenhando suas cadeias de suprimento, e o Brasil precisa se posicionar como um parceiro confiável, sustentável e competitivo.
Como presidente do Conselho Diretor do Ibram, você tem uma visão privilegiada dos desafios coletivos do setor. Quais são hoje as pautas mais urgentes para a mineração brasileira – e como o Instituto pode atuar de forma coordenada para endereçá-las?
O setor mineral brasileiro vive um momento de grande transformação. Entre as pautas mais urgentes, destacaria a modernização do marco regulatório, o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) e a estruturação de uma política nacional para minerais críticos e estratégicos, fundamental para a transição energética.
O Ibram tem atuado de forma propositiva junto aos poderes públicos, defendendo a criação de um ambiente regulatório mais ágil, transparente e seguro para investimentos. Também estamos comprometidos com a agenda ESG da mineração brasileira, que envolve metas concretas em sustentabilidade, inovação, diversidade, segurança, entre outros tópicos. O papel do Ibram é justamente esse: articular, representar e impulsionar o setor para que ele esteja à altura dos desafios do nosso tempo.
Na sua visão, qual deve ser a próxima fronteira de atuação do instituto para fortalecer a reputação do setor?
O Instituto está liderando a construção de um modelo brasileiro para a gestão de minerais críticos e estratégicos, alinhado à justiça climática e à transição energética. Isso significa colocar o Brasil como protagonista de uma nova diplomacia mineral global. A reputação do setor será ainda mais fortalecida à medida que mostrarmos, com dados e ações concretas, que a mineração será parte fundamental da solução para o grande desafio atual da humanidade, que é a crise climática.
A mineração é indispensável para a transição energética, mas sua própria descarbonização exige capital e tempo. Como equilibrar a pressão do mercado por disciplina de capital e retornos de curto prazo com os altos investimentos e de longa maturação exigidos para posicionar o setor como uma solução, e não um problema, da crise climática?
O equilíbrio está em um bom planejamento estratégico, investimentos assertivos em inovação e relação de transparência com os investidores. Na Anglo American, temos a meta global de neutralidade de carbono até 2040 e já operamos, no Brasil, minas com energia 100% renovável. Além disso, realizamos o acompanhamento mensal dos inventários de Gases de Efeito Estufa (GEE) das nossas unidades, o que nos permite monitorar a performance operacional e conhecer o perfil de emissões de cada ativo. Ao mostrar com transparência os compromissos e avanços do setor, é possível atrair capital engajado com o futuro.
O capital intensivo da mineração tende a ficar cada vez mais caro em meio a juros altos e exigências ESG. Como equilibrar retorno financeiro, pressão de acionistas e compromisso socioambiental?
O compromisso socioambiental é parte do negócio e condição fundamental para geração de valor. As práticas ESG trazem mais segurança às operações e às comunidades, ao mesmo tempo em que garantem a reputação das empresas e do setor – o que, como consequência, valoriza os ativos minerários. Investir em tecnologia limpa, economia circular e desenvolvimento dos territórios, entre outras iniciativas sustentáveis, permite aumentar a eficiência operacional e a vida útil dos empreendimentos. Empresas que não estiverem comprometidas no sentido da ampla sustentabilidade de seus negócios, estarão fadadas a sucumbir, abrindo espaço para concorrentes conectadas com as novas demandas mundiais.
A fusão anunciada entre Anglo American e Teck Resources mexeu com o tabuleiro global. Quais são os principais ganhos estratégicos dessa união? E quais os desafios?
A fusão entre Anglo American e Teck representa um marco histórico para o setor de mineração. Ao unirmos forças, criamos a Anglo Teck, que será uma das cinco maiores produtoras globais de cobre, com um portfólio que incluirá, ainda, ativos de minério de ferro premium, zinco e nutrientes agrícolas. Acreditamos que a fusão será altamente atrativa para empregados, acionistas, comunidades e demais partes interessadas, aprimorando a qualidade do portfólio, a resiliência e o posicionamento estratégico.
Há quem veja essa fusão como resposta à consolidação do setor e à pressão por minerais ligados à transição energética. Concorda que estamos entrando numa nova “corrida global” por metais estratégicos?

O mundo está passando por uma transformação profunda em direção a uma economia de baixo carbono, e isso exige uma nova infraestrutura baseada em minerais críticos, como é o caso do cobre. A fusão entre Anglo American e Teck é uma resposta estratégica a essa realidade: queremos estar na vanguarda dessa nova era. Não se trata apenas de uma busca por volume de ativos, mas, sim, por qualidade, sustentabilidade e resiliência dos negócios. Acreditamos que o futuro da mineração será definido por empresas capazes de entregar esses três pilares de forma integrada.
A mineração tem sido cada vez mais demandada em transparência social. Como melhorar o diálogo com comunidades impactadas e obter a licença social para operar?
É necessário ouvir atentamente e com interesse genuíno o que as comunidades dizem. Isso inclui atenção total, empatia e mente aberta. A prática da escuta ativa pode melhorar significativamente a qualidade das nossas interações, ajudando a construir vínculos mais fortes e uma governança colaborativa. No caso da Anglo American, temos um padrão que rege nossa performance social, o Anglo American Social Way, que define nossa estrutura de trabalho e estabelece requisitos para todas as operações, sempre buscando oferecer uma contribuição positiva e duradoura para as comunidades anfitriãs.
Você tem se destacado internacionalmente, recebendo prêmios de liderança. Como enxerga a responsabilidade de ser uma das vozes femininas mais influentes do setor de mineração, historicamente dominado por homens?
Há 19 anos, quando iniciei minha trajetória na indústria mineral, era pouco comum encontrar outras mulheres nas operações. Mas eu sempre acreditei que os espaços podem ser transformados, e que abraçar a diversidade, a equidade e a inclusão é uma questão de justiça e de potência coletiva. Assumir o papel de liderança feminina na mineração é uma grande responsabilidade e uma oportunidade de transformação. Entendo que a minha trajetória pode inspirar outras mulheres a enxergarem o setor como um espaço de possibilidades, até porque as empresas estão cada vez mais entendendo que a diversidade é um fator crucial para a sustentabilidade dos negócios.
** Especial para o Radar Mineração