O lítio é um dos minerais críticos mais comentados do mundo por seu papel essencial nas baterias que alimentam desde smartphones até veículos elétricos, e a América do Sul tem relevância na produção do metal. Chile e Argentina são, respectivamente, o segundo e o quinto maiores produtores mundiais, explorando as salmouras que contêm o mineral, uma das formas que o lítio aparece na Terra.
Esses dois países também avançaram na cadeia de valor e devem manter protagonismo em 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). De acordo com dados divulgados em 2025 pela IEA, a China, na quarta colocação, responderá por 28% da produção, seguida pela Austrália (26%) e pelo Chile (12%). Mas há uma diferença importante: na etapa de refino, a China manterá a dianteira em 2030, com 62% do total – Chile terá 13% e Argentina, 11%.
O movimento nos dois países sul-americanos inclui um recente acordo da SQM, uma das maiores produtoras de lítio no mundo, com a estatal Codelco, a gigante do cobre. A meta das duas é avançar na verticalização da produção.
O mesmo acontece na Argentina, onde a Rio Tinto estima investir US$ 2,5 bilhões para produzir 60 mil toneladas de carbonato de lítio em grau de bateria por ano. A empresa adquiriu recentemente a Arcadium, maior produtora argentina de lítio. Porém, avançar na cadeia de valor é algo complexo, ou seja, partir das salmouras para carbonato de lítio em grau de bateria não é uma operação simples.
Na ponta do lápis, a iLi Markets, consultoria especializada em lítio, avalia que, no Chile, a operação sustentável de uma refinaria para produção de carbonato de lítio seria de US$ 7,6/kg, enquanto na Argentina chega a US$ 9,6/kg. Na China, o custo operacional é estimado em US$ 7/kg de carbonato, considerando o uso de concentrado de lítio vindo da Argentina.
Brasil aposta na extração em rocha e busca ampliar beneficiamento
Diferentemente dos dois vizinhos, o Brasil produz lítio a partir do minério espodumênio, que precisa ser extraído de rochas pegmatíticas. O processo envolve a concentração, calcinação, lixiviação (remoção de substâncias solúveis) e purificação.
Dos três grandes players brasileiros, dois estão no Vale do Jequitinhonha. A Sigma Lithium, maior produtora, encerra sua operação na entrega de concentrado de espodumênio. A CBL tem metade da produção da primeira, mas fabrica a maior parte do carbonato e hidróxido de lítio. Apesar do avanço, a escala é pequena se comparada a dos vizinhos, totalizando 1,5 mil toneladas por ano de carbonato de lítio (dos quais 1,2 mil são produzidos pela CBL). A SQM chilena, por exemplo, tem capacidade para 210 mil toneladas anuais, enquanto a argentina Arcadium, por sua vez, tem capacidade para 75 mil toneladas/ano.
A terceira produtora baseada no Brasil é a alemã AMG, com uma extração de minério similar ao da CBL, exportando o concentrado para ser refinado na Alemanha. Segundo reportagem já publicada pela Folha de S.Paulo, a empresa teria a intenção de construir uma refinaria no Brasil.
Além dos dados da iLi Markets, a PLS, maior mineradora de lítio da Austrália, também faz um balanço sobre a vantagem de se avançar no processamento do lítio. Também à Folha, Leandro Gobbo, vice-presidente da companhia no Brasil, disse que os mercados globais não funcionam com essa lógica.
Bolívia ainda enfrenta entraves
No ABC do lítio, existe outro B além do Brasil. Trata-se da Bolívia, que teria um grande potencial de extração, também a partir de salmouras, mas sem concretizar projetos.
As conversações com investidores chineses e russos estão paralisadas por um detalhe da constituição boliviana que determina que o estado tem que ser o dono dos recursos naturais. Com isso, parceiros internacionais seriam vistos apenas como prestadores de serviços.
Segundo o governo boliviano, os salares do país concentrariam 23 milhões de toneladas de lítio metálico, correspondente a 30% das reservas mundiais.