Grandes tanques de evaporação de salmoura, em tons de verde e azul, cercados por área desértica, utilizados na etapa inicial da extração de lítio
Foto: Freedom Wanted / Shutterstock

Produção de lítio no Brasil segue caminho distinto dos vizinhos sul-americanos

Enquanto Chile e Argentina dominam a extração em salmouras e avançam na cadeia de valor, o Brasil aposta no espodumênio e busca ampliar beneficiamento local

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 04/02/2026

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  • Brasil produz lítio a partir do minério espodumênio extraído de rochas, diferentemente do Chile e Argentina que exploram salmouras, adotando estratégia tecnológica distinta na região.
  • A capacidade produtiva brasileira de carbonato de lítio é de 1,5 mil toneladas anuais, enquanto a SQM chilena produz 210 mil toneladas e a Arcadium argentina, 75 mil toneladas, evidenciando escala muito menor.
  • Chile e Argentina avançam na verticalização da cadeia de valor com investimentos em refino, enquanto Brasil ainda concentra operações no beneficiamento inicial de concentrado de espodumênio.
Resumo revisado pela redação.

O lítio é um dos minerais críticos mais comentados do mundo por seu papel essencial nas baterias que alimentam desde smartphones até veículos elétricos, e a América do Sul tem relevância na produção do metal. Chile e Argentina são, respectivamente, o segundo e o quinto maiores produtores mundiais, explorando as salmouras que contêm o mineral, uma das formas que o lítio aparece na Terra.

Esses dois países também avançaram na cadeia de valor e devem manter protagonismo em 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). De acordo com dados divulgados em 2025 pela IEA, a China, na quarta colocação, responderá por 28% da produção, seguida pela Austrália (26%) e pelo Chile (12%). Mas há uma diferença importante: na etapa de refino, a China manterá a dianteira em 2030, com 62% do total – Chile terá 13% e Argentina, 11%.  

O movimento nos dois países sul-americanos inclui um recente acordo da SQM, uma das maiores produtoras de lítio no mundo, com a estatal Codelco, a gigante do cobre. A meta das duas é avançar na verticalização da produção.

O mesmo acontece na Argentina, onde a Rio Tinto estima investir US$ 2,5 bilhões para produzir 60 mil toneladas de carbonato de lítio em grau de bateria por ano. A empresa adquiriu recentemente a Arcadium, maior produtora argentina de lítio. Porém, avançar na cadeia de valor é algo complexo, ou seja, partir das salmouras para carbonato de lítio em grau de bateria não é uma operação simples.

Na ponta do lápis, a iLi Markets, consultoria especializada em lítio, avalia que, no Chile, a operação sustentável de uma refinaria para produção de carbonato de lítio seria de US$ 7,6/kg, enquanto na Argentina chega a US$ 9,6/kg. Na China, o custo operacional é estimado em US$ 7/kg de carbonato, considerando o uso de concentrado de lítio vindo da Argentina.

Brasil aposta na extração em rocha e busca ampliar beneficiamento

Diferentemente dos dois vizinhos, o Brasil produz lítio a partir do minério espodumênio, que precisa ser extraído de rochas pegmatíticas. O processo envolve a concentração, calcinação, lixiviação (remoção de substâncias solúveis) e purificação.

Dos três grandes players brasileiros, dois estão no Vale do Jequitinhonha. A Sigma Lithium, maior produtora, encerra sua operação na entrega de concentrado de espodumênio. A CBL tem metade da produção da primeira, mas fabrica a maior parte do carbonato e hidróxido de lítio. Apesar do avanço, a escala é pequena se comparada a dos vizinhos, totalizando 1,5 mil toneladas por ano de carbonato de lítio (dos quais 1,2 mil são produzidos pela CBL). A SQM chilena, por exemplo, tem capacidade para 210 mil toneladas anuais, enquanto a argentina Arcadium, por sua vez, tem capacidade para 75 mil toneladas/ano.

A terceira produtora baseada no Brasil é a alemã AMG, com uma extração de minério similar ao da CBL, exportando o concentrado para ser refinado na Alemanha. Segundo reportagem já publicada pela Folha de S.Paulo, a empresa teria a intenção de construir uma refinaria no Brasil.

Além dos dados da iLi Markets, a PLS, maior mineradora de lítio da Austrália, também faz um balanço sobre a vantagem de se avançar no processamento do lítio. Também à Folha, Leandro Gobbo, vice-presidente da companhia no Brasil, disse que os mercados globais não funcionam com essa lógica.

Bolívia ainda enfrenta entraves

No ABC do lítio, existe outro B além do Brasil. Trata-se da Bolívia, que teria um grande potencial de extração, também a partir de salmouras, mas sem concretizar projetos. 

As conversações com investidores chineses e russos estão paralisadas por um detalhe da constituição boliviana que determina que o estado tem que ser o dono dos recursos naturais. Com isso, parceiros internacionais seriam vistos apenas como prestadores de serviços. 

Segundo o governo boliviano, os salares do país concentrariam 23 milhões de toneladas de lítio metálico, correspondente a 30% das reservas mundiais.

Dúvidas mais comuns

A produção de lítio no Brasil está concentrada em Minas Gerais, especialmente no Vale do Jequitinhonha. As principais empresas produtoras são a Sigma Lithium (maior produtora, focada em concentrado de espodumênio), a Companhia Brasileira de Lítio - CBL (que produz carbonato e hidróxido de lítio) e a alemã AMG (que exporta concentrado para refino na Alemanha).

O Brasil produz lítio a partir do minério espodumênio extraído de rochas pegmatíticas, enquanto Chile e Argentina exploram salmouras. O processo brasileiro envolve concentração, calcinação, lixiviação e purificação, sendo mais complexo e com custos operacionais diferentes. Além disso, a escala de produção brasileira é muito menor: apenas 1,5 mil toneladas anuais de carbonato de lítio, comparado aos 210 mil toneladas da SQM chilena e 75 mil toneladas da Arcadium argentina.

Embora o Brasil tenha potencial para expandir o beneficiamento, os mercados globais não funcionam com a lógica de verticalização completa da produção. Além disso, os custos operacionais para refino no Brasil seriam competitivos, mas a escala reduzida e a falta de investimentos em infraestrutura de refino limitam o avanço. Chile e Argentina têm vantagens de escala e acordos estratégicos, como entre SQM e Codelco, para avançar na cadeia de valor.

De acordo com dados da Agência Internacional de Energia (IEA) de 2025, a China é o maior produtor (28% da produção global), seguida pela Austrália (26%), Chile (12%), Brasil e Argentina. Em relação ao refino, a China mantém a liderança com 62% da capacidade global em 2030, enquanto Chile terá 13% e Argentina 11%.

Espodumênio é o minério de lítio extraído de rochas pegmatíticas no Brasil. Seu processamento envolve várias etapas: concentração do minério, calcinação (aquecimento), lixiviação (remoção de substâncias solúveis) e purificação final. Este processo é mais complexo que a extração de salmouras, mas permite a produção de concentrado e, em alguns casos, carbonato e hidróxido de lítio.

A Bolívia possui grande potencial de extração de lítio a partir de salmouras, com reservas estimadas em 23 milhões de toneladas de lítio metálico, correspondente a 30% das reservas mundiais. No entanto, o país enfrenta entraves para concretizar projetos devido a uma cláusula constitucional que determina que o estado deve ser o proprietário dos recursos naturais, limitando parcerias internacionais a contratos de prestação de serviços.

De acordo com a consultoria iLi Markets, o custo operacional sustentável para refinar carbonato de lítio varia por país: Chile (US$ 7,6/kg), Argentina (US$ 9,6/kg) e China (US$ 7/kg). Estes custos refletem as diferenças nas tecnologias utilizadas, matérias-primas disponíveis e economias de escala de cada país.

Chile e Argentina estão avançando na verticalização da produção através de acordos estratégicos. A SQM chilena firmou acordo com a estatal Codelco para expandir a cadeia de valor, enquanto na Argentina a Rio Tinto adquiriu a Arcadium e planeja investir US$ 2,5 bilhões para produzir 60 mil toneladas anuais de carbonato de lítio em grau de bateria, consolidando o protagonismo regional em 2030.