Raul Jungmann, Diretor-presidente do Ibram
Foto: Mari Soares/ IBRAM

Diretor-presidente do Ibram, Raul Jungmann morre aos 73 anos

Após longa carreira política, Jungmann dedicou os últimos anos à transformação do setor mineral brasileiro para torná-lo mais seguro, sustentável e responsável

Por Redação, 5 min de leitura

Publicado em 18/01/2026 | Atualizado em 19/01/2026

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O diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Belens Jungmann Pinto, morreu neste domingo (18/01/2026), aos 73 anos, em Brasília (DF). No cargo desde março de 2022, ele trouxe para o Instituto a experiência para estruturar “um audacioso processo de transformação do setor mineral brasileiro, de modo a torná-lo ainda mais seguro, sustentável e responsável”, como consta nas comunicações do Ibram.

Em entrevista ao Radar Mineração, em outubro de 2025, Jungmann demonstrou preocupação com o arcabouço burocrático do Brasil, que pode afastar a oportunidade do país se tornar um player na agenda de minerais críticos. Para ele, os principais gargalos para o desenvolvimento do setor são: burocracia regulatória, licenciamento ambiental moroso e um imposto seletivo que ele classifica como “tiro no peito” da mineração.

Na mesma entrevista, ele ilustrou o papel essencial da mineração para a vida contemporânea, pontuando que não haverá futuro (inclusive o livre de emissões de gases de efeito estufa) sem mineração. “O futuro estendeu a mão a nós (setor de mineração). Se éramos muitas vezes vistos apenas pela ótica do passado, agora todos têm de reconhecer, inclusive ambientalistas, que não haverá futuro sem mineração. Ponto. Isso é um fator importantíssimo para ser devidamente reconhecido e comunicado, o que aumenta a nossa responsabilidade.”

Pouco antes, em agosto de 2025, Jungmann tratou do tema durante o painel de abertura do Minerals Day, na Rio Climate Action Week, ao lado do presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e da ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira. Na ocasião, ele comentou sobre a liderança natural do Brasil na transição energética, em função das reservas naturais do país e das matrizes energética e elétrica limpas.

Longa trajetória política

Antes de assumir a liderança do Ibram, Jungmann teve uma longa história política, começando em Pernambuco, seu estado natal, onde foi inclusive vereador por Recife. No Congresso Nacional, foi deputado federal em três mandatos, nas legislaturas de 2003-2006; 2007-2010 e 2015-2018.

Ele também foi ministro de Estado, trabalhando com dois presidentes da República. No governo de Fernando Henrique Cardoso, chefiou as pastas da Política Fundiária (1996-1999) e do Desenvolvimento Agrário (1999-2002). Sob a presidência de Michel Temer, foi ministro da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018-2019).

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, durante votação, no Centro Integrado de Comando e Controle das Eleições Gerais de 2018 (CICCE), em Brasília.
O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, durante votação, no Centro Integrado de Comando e Controle das Eleições Gerais de 2018 (CICCE), em Brasília. – Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

O ex-ministro, que também presidiu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), começou a carreira na administração pública em 1977, de acordo com sua biografia no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Seu primeiro cargo foi a gerência de projetos do Centro de Desenvolvimento Empresarial de Pernambuco. Já em abril de 1990, ele foi nomeado secretário de Planejamento na gestão do governador Carlos Wilson Campos (1990-1991), cargo que ocupou até março de 1991.

Na sequência, em 1993, passou a ser secretário executivo da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Coordenação da Presidência da República (Seplan), inaugurando uma série de cargos importantes na esfera federal.

Em sua passagem pelo Ministério da Defesa, Jungmann ganhou destaque pelo diálogo que construiu entre os militares das três pastas e o mundo civil, fato destacado em extensa reportagem da edição brasileira da BBC em 2018.

O mesmo veículo lembrou de sua história pessoal como militante contra a ditadura militar, influenciado pelo pai, Sílvio Jungmann da Silva Pinto, que foi jornalista e servidor público conhecido em Recife.

Em função do posicionamento político de oposição ao regime, Sílvio Jungmann mudou-se para São Paulo, na década de 1960, mas Raul permaneceu na capital pernambucana, onde cursava psicologia na Universidade Católica do Estado, curso que não terminou.

Entre outras honrarias, Jungmann recebeu o título de doutor honoris causa pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em maio de 2025. A cerimônia teve a presença de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Gilmar Mendes, Flávio Dino e Dias Toffoli. Além deles, participaram da homenagem o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro da Defesa, José Múcio.

Para Flávio Dino, que discursou na cerimônia do IDP, é “impossível dissociar a trajetória de Raul Belens Jungmann Pinto do ciclo vital da redemocratização nacional”. Dino destacou Jungmann como “um patriota, um humanista, que cultua valores fundamentais que asseguram a identidade nacional”.

Para Ana Sanches, presidente do Conselho Diretor do Ibram, Raul Jungmann foi um homem público de estatura singular, defensor firme da democracia e profundamente comprometido com o Brasil e com o interesse público. Segundo ela, à frente da Diretoria Executiva do Instituto, Jungmann conduziu a entidade por um período decisivo, fortalecendo o Ibram e beneficiando todo o setor mineral, período este marcado pelo diálogo, pela visão estratégica e pela integridade.

O ex-ministro deixa dois filhos, Júlia Jungmann e Bruno Costa Jungmann, além de familiares como o irmão, André Jung, jornalista e músico com passagens pelas bandas Titãs e Ira. 

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, lamentou a morte do executivo em seu perfil no X:

A morte do ex-ministro também repercutiu no mundo político e empresarial:

A Amig Brasil (Associação Brasileira dos Municípios Mineradores) lamentou a morte de Raul Jungmann. A entidade destacou o espírito republicano do diretor-presidente do Ibram e sua atuação pautada pelo diálogo e pelo compromisso com o interesse coletivo. A associação ressaltou ainda que, desde que assumiu o comando do Instituto, em 2022, Jungmann contribuiu para o fortalecimento do diálogo institucional entre o setor mineral, o poder público e a sociedade, com foco no desenvolvimento sustentável da mineração.

A Vale também divulgou uma nota sobre a morte de Jungmann, a qual reproduzimos na íntegra:

É com profundo pesar que a Vale recebe a notícia do falecimento de Raul Jungmann, figura pública de referência cuja integridade, senso de serviço e compromisso com o país marcaram profundamente sua trajetória. Ao longo de décadas de vida pública, Raul conduziu agendas decisivas nas áreas de defesa, segurança pública e políticas agrárias, sempre pautado pelo diálogo, pela responsabilidade e pelo interesse coletivo.

À frente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), onde ocupou o cargo de diretor-presidente, exerceu papel fundamental no fortalecimento institucional do setor, contribuindo para a evolução de pautas estratégicas para a mineração brasileira e para a construção de maiores níveis de confiança entre a indústria, o governo e a sociedade.

“Raul exerceu uma liderança que aproximou o setor da sociedade e acelerou agendas essenciais – da segurança à inovação e à transição energética”, afirma Gustavo Pimenta, CEO da Vale. “Seu trabalho ajudou a construir compromissos claros para uma mineração mais responsável, sustentável e conectada ao futuro.”

Neste momento de luto, a Vale se solidariza com seus familiares, amigos e todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com Raul Jungmann. Reafirmamos nosso respeito, reconhecimento e profunda admiração por sua contribuição ao desenvolvimento do setor mineral e ao Brasil.