- O reflorestamento e a regeneração natural assistida são estratégias essenciais para reduzir emissões de gases de efeito estufa, pois as florestas preservadas absorvem carbono, enquanto o desmatamento libera 2,4 gigatoneladas anuais de CO2.
- O Brasil integra plataformas globais como o Desafio de Bonn e a Iniciativa 20x20, comprometendo-se a restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 através do Planaveg revisado.
- Setores como mineração enfrentam desafios técnicos na restauração pós-exploração, exigindo pesquisa contínua para seleção de espécies, monitoramento de invasoras e engajamento comunitário para viabilizar projetos em larga escala.
O conceito de manutenção da “floresta em pé” está em linha com a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), uma vez que as árvores absorvem e armazenam carbono quando preservadas, mas o liberam quando derrubadas. A ideia, portanto, é não apenas preservar as florestas existentes, com ações para reduzir o desmatamento, mas também colocar em prática iniciativas para a recuperação de áreas degradadas, como o reflorestamento e a chamada regeneração natural.
Segundo o instituto independente de pesquisa WRI Brasil, em artigo assinado por Lídia Duarte, Vinícius Dias Póvoa e Bruno Calixto, o tema é uma “emergência global”. Os autores citam que, segundo dados do Global Forest Watch, o mundo perdeu, em um ano, o equivalente a quase dez campos de futebol por minuto de florestas tropicais primárias. “Isso emitiu 2,4 gigatoneladas de CO2 na atmosfera, o que equivale a quase metade das emissões anuais dos Estados Unidos”, afirmaram os articulistas.
Além disso, eles destacaram que a manutenção das florestas é fundamental para a preservação da biodiversidade e da economia, uma vez que 1,6 bilhão de pessoas no mundo dependem diretamente de recursos florestais para o sustento.
Iniciativas públicas para incentivar o reflorestamento

Para estimular ações de preservação e reflorestamento mais ambiciosas, foram criadas algumas plataformas intergovernamentais, sendo que o Brasil integra grande parte delas. O Desafio de Bonn, que tem como objetivo a restauração de 350 milhões de hectares até 2030 no mundo, é um dos exemplos disso, citado no artigo do WRI Brasil.
O país também integra a Iniciativa 20×20, cujo objetivo é iniciar o processo de restauração de 50 milhões de hectares na América Latina até 2030. A Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU também tem o Brasil como signatário, e prevê a restauração de 30% das áreas degradadas do mundo no mesmo prazo.
O tema também foi alvo de discussões durante a COP16 da Biodiversidade, realizada na Colômbia e quando o Brasil lançou versão revista do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), reafirmando o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.
Lídia, Póvoa e Calixto destacaram em seu artigo que “a restauração em larga escala, como prevista no Planaveg, no Desafio de Bonn e outras plataformas, pode trazer avanços importantes na mitigação das mudanças climáticas, impedir a extinção de diversas espécies e evitar catástrofes ambientais”. Porém, eles alertam que algumas técnicas, em função do alto custo, podem trazer dificuldades para atingir a grande escala necessária, principalmente em países em desenvolvimento – justamente aqueles que concentram a maior parte do potencial de regeneração.
“Reduzir a ação humana e aproveitar a capacidade de regeneração dos próprios ecossistemas é uma forma de diminuir custos e garantir a restauração. Essa prática tem nome: a chamada Regeneração Natural Assistida (RNA)”, pontuam os especialistas, defendendo que ampliar as iniciativas de restauração é essencial para aproveitar o potencial de regeneração no Brasil e nos trópicos.
Desafios exigem inovação
A necessidade de recuperar e preservar áreas degradadas é relevante para todas as atividades que fazem uso do solo, como a agropecuária e a mineração. No caso do setor de extração mineral, que foi um dos primeiros a implantar métodos para restauração, o reflorestamento exige abordagens inovadoras por parte dos agentes.

Dentre os desafios está o fato de que, após a exploração mineral, o solo sofre mudanças, adquirindo novas características. Isso exige estudos específicos para a seleção das espécies a serem plantadas no local.
O monitoramento das áreas reflorestadas também é importante, pois, com a mudança do solo, podem surgir espécies “invasoras”, que afetam o crescimento das nativas. Por isso, a pesquisa contínua é considerada vital para identificar e reverter as mudanças.
Outro ponto relevante é o engajamento. É preciso envolver as pessoas no processo, por meio da educação ambiental e da conscientização. Sem o comprometimento das populações locais, os projetos de reflorestamento podem não se concretizar ou enfrentar problemas.Esses desafios foram discutidos em webinar promovido pela MORFO Brasil, que contou com a participação de alguns agentes do mercado, como a Vale. Diego Balestrin, doutor em Silvicultura pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e especialista da empresa, mencionou, na ocasião, que a Vale já realiza ações de proteção e recuperação com comunidades em áreas remotas, além de implementar sistemas agroflorestais na região amazônica. Ele citou também o desenvolvimento de tecnologia de micro cavernas em aterros, indicado para reduzir riscos humanos em ambientes de difícil acesso.