Área de restauração florestal com mudas de árvores jovens protegidas por estacas brancas, promovendo reflorestamento sustentável e preservação ambiental
Foto: Dietrich Leppert / Shutterstock

Restauração florestal determina agenda de desenvolvimento e sustentabilidade

Governo, indústria e pesquisadores destacam a convergência entre objetivos ambientais e econômicos em estratégias de longo prazo

Por Vanderlei Campos, 4 min de leitura

Publicado em 02/02/2026

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A restauração florestal tem se consolidado como eixo central da agenda de desenvolvimento econômico e de sustentabilidade empresarial. O tema foi debatido no painel O papel crucial da restauração florestal no combate à crise climática, promovido pelos jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN. O encontro, realizado no final de setembro, reuniu a vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale, Grazielle Parenti; o coordenador-geral da iniciativa MapBiomas, Tasso Azevedo; e o diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Thiago Belote.

Mediador do painel, o jornalista do Valor Rafael Vasquez lembrou que o Brasil perdeu o equivalente a uma Bolívia em áreas naturais nos últimos 40 anos. Ele complementou que o desmatamento ao longo desse tempo esteve intimamente ligado ao avanço da urbanização e das pastagens e ressaltou que entre 97% a 98% da área convertida no país foi para uso agropecuário. Por outro lado, menos de 0,5% foi para mineração e uma pequena parte para áreas urbanas e represas. 

Segundo Azevedo, cada década dessa trajetória contou uma história diferente. “A primeira década é de muito desmatamento e pouco ou nenhum ganho de produtividade. A segunda teve a maior parte do desmatamento, com grande expansão da pecuária. A terceira, de 2005 a 2014, foi a de maior redução do desmatamento, mas também a de maior ganho de produtividade. E a última década é marcada pela retomada do desmatamento, pela degradação e pelos efeitos climáticos”, descreveu.

Azevedo advertiu que o país se aproxima de um ponto de ruptura no equilíbrio do ciclo hídrico amazônico. “A Amazônia evapora 20 bilhões de toneladas de água por dia e o rio Amazonas põe 18 bilhões de toneladas de água por dia no mar. O ponto de ruptura não é quando a floresta acabar, é quando esse superávit de 2 bilhões acabar. Quando isso acontecer, não teremos mais água suficiente para o ciclo florestal e para o abastecimento da região Centro-Sul”, avisou.

Previsibilidade é estratégica para setor privado

Com investimentos intensivos de capital e necessidade de gestão de riscos a longo prazo, o setor de mineração combina práticas sustentáveis e iniciativas de P&D (pesquisa e desenvolvimento). “O setor privado tem sido convidado à mesa”, notou Grazielle Parenti. “No caso específico da Vale, estamos muito inseridos na Amazônia e temos aprendido muito nesse tema de floresta. Hoje, protegemos no Brasil em torno de 1,1 milhão de hectares. Desses, 800 mil estão no bioma amazônico; o resto, na Mata Atlântica”, descreveu. No sudeste do Pará, a mineradora opera uma área conhecida como Mosaico de Carajás.

Segundo Grazielle, menos de 3% dessa área florestal é utilizada pela companhia. “Estamos falando de restauração, mas também temos que falar de conservação. É importante manter a floresta para manter o clima, manter a umidade, não ter incêndio. Incêndio é um risco para a nossa operação e para a floresta. É um dos maiores problemas quando se fala de restauração, porque não há seguro que pague isso”, destacou.

A executiva explicou que a Vale estabeleceu uma meta voluntária de proteger e recuperar 500 mil hectares de floresta até 2030. “A restauração é complexa, leva tempo, precisa de tecnologia e é uma indústria em amadurecimento. Temos aprendido, trazido vários parceiros, inclusive os coletores, os viveiros, as pessoas que estão na ponta. E o desafio é como escalar isso”, disse.

A executiva pontuou que a previsibilidade é essencial para o negócio da Vale. “Temos um grande grupo de meteorologistas. Quando o Tasso [Azevedo] fala dos rios voadores, quando falamos de incêndio, tudo isso é importante para a natureza e afeta diretamente a operação. Manter essa estabilidade é fundamental para o nosso negócio e para o nosso papel na Amazônia”, esclareceu.

Ela lembrou ainda que a Vale investe em pesquisa científica para compreender o ecossistema amazônico em profundidade. “Trabalhamos com o Instituto Tecnológico Vale, que fica em Belém, e fazemos o sequenciamento genético de várias espécies. Não basta cercar uma área ou jogar um monte de semente. Há muita ciência, muita tecnologia e investimento de longo prazo, que as pessoas pouco conhecem. E ainda é um mercado não muito maduro. Então, é um desafio”, afirmou.

Thiago Belote, do Ministério do Meio Ambiente, reforçou que a restauração florestal é uma agenda de desenvolvimento. “O governo entende a recuperação da vegetação nativa como uma agenda de desenvolvimento. Governos subnacionais e o setor privado estão trabalhando com restauração, entendendo-a como um caminho importante para combater as mudanças climáticas, incrementar a biodiversidade e combater a desertificação”, afirmou.

Política de recuperação vegetal e mercado de carbono

Floresta verdejante vista do chão, destacando a importância da restauração ambiental para a preservação dos ecossistemas naturais.
Foto: Sener Dagasan / Shutterstock

Belote explicou que a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg), criada em 2017, é o instrumento que orienta o país rumo à meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. “A política traz com ela o Planaveg, o plano nacional que dá o rumo para chegarmos a esses 12 milhões. E ele se baseia em quatro eixos estratégicos”, detalhou. 

O primeiro é inteligência e monitoramento, para apoiar gestores públicos e investidores com as melhores informações sobre as áreas prioritárias. O segundo é pesquisa, desenvolvimento e inovação, com foco em reduzir custos e melhorar modelos de restauração. O terceiro é o fortalecimento da cadeia produtiva da restauração, profissionalizando desde os coletores de sementes até os implementadores e monitoradores. “E o quarto é financiamento, o grande desafio, porque precisamos conectar recursos reembolsáveis e não reembolsáveis, o famoso blended finance”, enumerou.

O diretor acrescentou que o governo busca ampliar o papel da regeneração natural como complemento à restauração ativa e reforçou o caráter econômico dessa política: “A restauração é uma cadeia de valor. Ela gera renda, dignidade e oportunidades associadas a territórios sustentáveis”, disse.

Parenti chamou atenção para o custo e os riscos do trabalho de conservação. “Não é simples e é caro. Parece que passamos uma cerca, fechamos o cadeado e vamos embora, mas não é assim que funciona. Corremos risco de incêndio todos os dias. Investimos em startups que trabalham com previsão e monitoramento, usamos recursos do Fundo Vale para apoiar iniciativas de vigilância e conservação. Mas, quando falamos de restauração, estamos falando de muito dinheiro, de 40 anos de projeto”, afirmou. A executiva destacou também a importância de estruturar um mercado de carbono robusto e confiável. “Quando falamos de descarbonização, que é uma agenda que impacta o setor de mineração, precisamos de um mercado de carbono estruturado, rentável e que pague. Se conseguimos fechar a linha de baixo, pagamos o risco, pagamos o tempo e investimos nessas coisas. O Brasil tem todas as condições de ser um grande ator nesse mercado. Mas precisamos de escala para que seja mais rentável”, defendeu.