Painel "Minerais Estratégicos e Oportunidades Industriais" reúne especialistas no espaço Deep Tech Lab durante o Rio Innovation Week
Painel reúne especialistas no palco da Arena Deep Tech Lab durante o Rio Innovation Week. Da esquerda para a direita: Lucas Cunha, Monica Vianna e Antônio Martinelli (Foto: Mariana Sgarioni/ Redação Radar Mineração)

Rio Innovation Week destaca economia circular na mineração

Especialistas defenderam mais integração entre universidades e empresas para acelerar inovação no setor, enquanto Vale mostrou iniciativa bem-sucedida de circularidade

Por Mariana Sgarioni, 3 min de leitura

Publicado em 05/08/2026

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A economia circular e a aproximação entre a indústria mineral e o meio acadêmico foram apontadas como fatores decisivos para aumentar a competitividade da mineração brasileira durante o painel “Minerais Estratégicos e Oportunidades Industriais”, realizado na Rio Innovation Week, nesta terça-feira (4). 

Mediado por Monica Vianna, CEO da Sollytch e do Deep Tech Lab, o debate reuniu Lucas Cunha, engenheiro sênior da Vale, e Antonio Martinelli, vice-presidente da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec), que defenderam o aproveitamento de rejeitos, o fortalecimento das cadeias produtivas de minerais estratégicos e uma maior integração entre universidades e empresas para transformar conhecimento em inovação.

Ao apresentar a estratégia da Vale para a mineração circular, Lucas Cunha abortou o Programa Waste to Value, criado para ampliar o aproveitamento dos rejeitos da mineração de minério de ferro.

Ele explicou que cerca de 90% do material movimentado na mineração de ferro corresponde a rejeitos, e que durante muitos anos, esse volume foi tratado apenas como um passivo ambiental. A mudança ocorreu quando a empresa avaliou o potencial econômico do material e passou a aproveitá-lo.

“Percebemos que havia barragens riquíssimas em minério de ferro, algumas com teor chegando a 65%, superior ao de muitas minas. Então decidimos transformar aquilo em um produto de valor”, afirmou.

Segundo o executivo, em 2025, a Vale produziu 26,3 toneladas de minério de ferro, 107% acima do produzido em 2024, por meio de fontes circulares. Até 2030, a mineradora considera o potencial de que aproximadamente 10% da produção de minério de ferro seja proveniente da mineração circular, como resultado da ampliação e consolidação de soluções de aproveitamento de materiais ao longo da cadeia produtiva.

Leia também: Vale dobra produção de minério de ferro a partir de resíduos

A estratégia vai além da recuperação do minério de ferro. Parte dos rejeitos que não apresenta teor suficiente para retornar ao processo produtivo passou a ser utilizada como matéria-prima para coprodutos destinados à construção civil, como areia, blocos e outros materiais.

“Queremos zerar nossos rejeitos e reaproveitar tudo o que já geramos. Essa é uma ambição que temos internamente”, disse.

De acordo com Lucas Cunha, a mineração circular já está presente em todas as operações da empresa e tem contribuído inclusive para a descaracterização de barragens de rejeitos.

Desafios

Além da economia circular, o debate destacou a necessidade de ampliar o processamento industrial dos minerais produzidos no Brasil.

Para Antonio Martinelli, da Funpec, o país possui capacidade científica e recursos minerais suficientes para ocupar posição mais relevante nas cadeias globais de valor, mas ainda exporta matérias-primas sem capturar os benefícios econômicos das etapas industriais posteriores.

“Produzimos entre 4% e 6% do silício do mundo, mas não fabricamos placas solares. Acabamos exportando uma commodity para outro país agregar valor. É justamente isso que precisamos evitar em outras cadeias produtivas”, afirmou.

Na avaliação dele, o país começa a avançar em áreas como terras raras, mas ainda precisa consolidar uma estratégia capaz de dominar todas as etapas da cadeia industrial.

Martinelli citou também o potencial do nióbio brasileiro, utilizado no desenvolvimento da nova geração de baterias para veículos elétricos, além de outros minerais estratégicos, como lítio e ferro de alta pureza.

Indústria e universidades

Outro tema do painel foi a necessidade de aproximar a produção científica das demandas da indústria mineral.

Segundo Martinelli, cerca de 90% da produção científica brasileira é desenvolvida nas universidades, mas ainda existem dificuldades para transformar esse conhecimento em inovação aplicada.

“Precisamos desse conhecimento aplicado na indústria e temos que construir essa ponte, que ainda enfrenta muitos entraves. O ecossistema de inovação brasileiro precisa juntar as peças desse quebra-cabeça”, afirmou.

Na avaliação do vice-presidente da Funpec, a criação de ambientes permanentes de interação entre universidades, empresas e fundações de apoio pode acelerar o desenvolvimento tecnológico e ampliar a competitividade do setor mineral.

Lucas Cunha, por sua vez, reforçou que essa aproximação já faz parte da estratégia da Vale: “A Vale tem muita colaboração com o ambiente acadêmico e com deep techs, porque existem desafios que não conseguimos resolver sozinhos”, afirmou.

Ao encerrar o painel, Monica Vianna,  da Sollytch e do Deep Tech Lab, destacou que o desenvolvimento de novos materiais será cada vez mais importante para diferentes aplicações industriais. Ela observou que áreas como a biotecnologia também deverão ampliar sua participação nas soluções voltadas à mineração.