Quatro homens sentam-se em um palco, em poltronas, em um painel de discussão. Atrás deles, uma grande tela azul exibe seus nomes, fotos e o tópico do painel: "Barragens: Segurança, Engenharia e Governança", destacando a segurança em barragens no Tailings Brazil 2026.

Segurança em barragens exige acompanhamento durante todo o ciclo de vida

Especialistas defendem rastreabilidade, uso de IA e integração entre engenharia e governança para garantir decisões baseadas em evidências

Por Nelson Valêncio, 4 min de leitura

Publicado em 26/05/2026

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  • A segurança em barragens é um processo contínuo que se estende do projeto até o pós-fechamento, exigindo rastreabilidade de decisões técnicas e integração entre engenharia, operação e governança corporativa.
  • Especialistas defendem análises rigorosas adaptadas aos riscos de liquefação, uso de tecnologias como satélite e dados em tempo real, além do papel central do engenheiro de registro conectando todas as disciplinas.
  • Inteligência artificial emerge como ferramenta essencial para auditar decisões, cruzar dados de múltiplas origens, realizar auditoria contínua e preservar a memória corporativa de operações de barragens.
Resumo revisado pela redação.

A segurança em barragens é um processo contínuo e não se encerra com um bom projeto. Essa é uma das conclusões do debate que reuniu quatro executivos no Tailings Brazil 2026, evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) em Belo Horizonte.

Mediado pelo diretor de Governança & Compliance em Geotecnia da Vale, Breno Castilho, o painel de abertura do seminário contou com a participação do diretor de Desenvolvimento da TPF Engenharia, André Pereira Lima; do sócio-diretor da Data Riders Consulting, Fernando Damásio; e do diretor da Analysis Consultoria Civil e Geotécnica, Fernando Schnaid.

Os três especialistas convidados enfatizaram que o cuidado, as decisões e o gerenciamento de riscos devem ocorrer durante todo o ciclo de vida da estrutura, inclusive no pós-fechamento das barragens.

Outra iniciativa defendida pelo trio de debatedores em relação à operação das barragens é a rastreabilidade e a tomada de decisão baseadas em evidências. Para Schnaid, que também é professor da UFRGS, é possível melhorar a precisão dos parâmetros e modelagens numéricas de projeto de barragens de rejeitos.

O especialista explicou que projetar barragens usando fatores de segurança tradicionais não funciona para materiais com potencial de liquefação, devido ao mecanismo de ruptura progressiva. Para mitigar esses riscos, Schnaid sugere análises técnicas rigorosas e defende que a engenharia e as normas globais mudaram, especialmente após as revisões de 2019. O cuidado maior atual estaria na suscetibilidade à liquefação, permitindo a maior precisão das tomadas de decisão dos gestores de barragens.

Lima, por sua vez, apontou a exigência de que as decisões técnicas sejam registradas, justificadas e rastreáveis. “A maior mudança recente é perceber que a segurança exige continuidade técnica durante todo o ciclo de vida da estrutura: investigação, projeto, construção, operação, fechamento e pós-fechamento”, argumentou.

O executivo defendeu que a engenharia não deve se concentrar apenas na entrega de um projeto inicial com base em fatores de segurança. Na visão sistêmica do especialista, os engenheiros devem atuar de forma integrada com a operação e a governança corporativa.

Lima destacou que o uso de tecnologias recentes, como imagens de satélite e dados em tempo real, ajuda a garantir o monitoramento contínuo e a rastreabilidade documental das decisões ao longo de décadas.

O diretor da TPF Engenharia ressaltou ainda a importância do engenheiro de registro (EoR, da sigla em inglês) como peça fundamental que conecta engenharia, operação, gestão de riscos e governança. Ao mesmo tempo, avaliou que é necessário que a indústria mineral invista na formação desse tipo de profissional na mesma velocidade em que desenvolve novos modelos matemáticos e tecnologias.

“A segurança e a previsibilidade exigem um alinhamento técnico entre projetistas, revisores independentes e o engenheiro de registro”, argumentou. “É essencial haver clareza de papéis, comunicação estruturada e definição exata de responsabilidades para que as preocupações técnicas sejam levantadas e debatidas livremente”, completou.

Já a inteligência artificial (IA), na avaliação de Damásio, aparece como a principal ferramenta para auditar e validar as evidências contínuas de segurança. O executivo justificou o uso da tecnologia pela necessidade de lidar com alto volume de dados e garantir velocidade para prestação de contas, além da rastreabilidade.

“Não basta mais saber apenas se a barragem está estável, mas sim quem decide, quem verifica, quais as evidências que sustentam as decisões”, argumentou.

Castilho destacou o amadurecimento e a mudança de paradigma do setor, principalmente após 2019, com novos padrões globais e revisões normativas, tema abordado anteriormente por Schnaid. Entre as iniciativas internacionais, o executivo da Vale ressaltou a formalização de novos papéis e linhas de defesa no ecossistema de barragens, assim como a presença de revisores independentes e do engenheiro de registro.

Leia também: Fim de barragens a montante traz mais tecnologia e sustentabilidade à mineração

A integração disciplinar também aparece como importante para os especialistas: a combinação de engenharia avançada, destacada por Schnaid, a apuração dos dados operacionais contínuos, lembrada por Lima, e as estruturas corporativas de governança e tecnologia, destacadas por Damásio, seriam componentes de um sistema único que gera transparência e credibilidade para a sociedade.

Como a IA pode ajudar na segurança de barragens

Três pessoas monitoram várias telas que exibem imagens e dados de vigilância em uma moderna sala de controle voltada para a segurança em barragens, com um grande video wall e estações de trabalho avançadas.
Atividades no CMI, Centro de Monitoramento e Inspeção, no complexo de Germano em Mariana. (Foto: NITRO Historias Visuais)

A inteligência artificial garante a rastreabilidade das decisões técnicas, principalmente, pela sua capacidade de lidar com um alto volume de dados de forma ágil e integrada. De acordo com Damásio, a tecnologia atua nos seguintes pontos para assegurar essa rastreabilidade:

  • Identificação de origem e autoria: Sistemas baseados em novas tecnologias permitem rastrear rapidamente de onde veio um dado, quem o aprovou e quem responde por cada etapa, facilitando o acesso à origem das decisões.
  • Cruzamento avançado de informações: A IA consegue cruzar dados de diferentes origens e verificar se as novas informações estão consistentes com o histórico já existente, um processo no qual a tecnologia é muito superior à capacidade humana.
  • Auditoria em tempo real: A IA promove um processo de evidência contínua, no qual todo conhecimento gerado dentro da companhia ou por construtores externos é imediatamente analisado e contextualizado, permitindo que eventuais sinais de risco cheguem muito mais cedo.
  • Gestão de mudanças e interatividade: Ferramentas com IA conseguem importar documentos existentes da companhia e criar fluxos automaticamente. Isso permite que os usuários interajam com o sistema, façam perguntas sobre probabilidades, nível de maturidade dos dados e identifiquem rapidamente o que está faltando.
  • Preservação da memória corporativa: A IA grava e salva os aprendizados e o histórico de decisões da operação, mantendo a memória do sistema ativa para que os processos possam ser continuamente melhorados no futuro.

Dúvidas mais comuns

A segurança em barragens é um processo contínuo que exige acompanhamento durante todo o ciclo de vida da estrutura, incluindo investigação, projeto, construção, operação, fechamento e pós-fechamento. O cuidado, as decisões e o gerenciamento de riscos devem ocorrer em todas essas fases, não apenas na entrega inicial do projeto. Essa abordagem garante que novos riscos sejam identificados e mitigados ao longo do tempo.

De acordo com a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), o agente privado ou governamental com direito real sobre as terras onde se localizam a barragem e o reservatório, ou que explore a barragem para benefício próprio ou da coletividade, é o responsável legal pela segurança da barragem. Essa responsabilidade deve ser exercida de forma integrada entre engenharia, operação e governança corporativa.

O Plano de Segurança da Barragem é um instrumento obrigatório da Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) que deve ser implantado pelo empreendedor. Seu objetivo é auxiliar na gestão da segurança da barragem, estabelecendo procedimentos, responsabilidades e protocolos para garantir o monitoramento contínuo e a rastreabilidade das decisões técnicas ao longo de toda a vida útil da estrutura.

A inteligência artificial atua como ferramenta principal para auditar e validar evidências contínuas de segurança, permitindo rastrear a origem dos dados, quem os aprovou e quem responde por cada etapa. A IA realiza cruzamento avançado de informações, auditoria em tempo real, gestão de mudanças automatizada e preservação da memória corporativa, garantindo que sinais de risco sejam identificados muito mais cedo e que todas as decisões sejam documentadas e justificadas.

O engenheiro de registro é uma peça fundamental que conecta engenharia, operação, gestão de riscos e governança corporativa. Esse profissional garante o alinhamento técnico entre projetistas, revisores independentes e operadores, além de assegurar clareza de papéis, comunicação estruturada e definição exata de responsabilidades. A indústria mineral precisa investir na formação desse tipo de profissional na mesma velocidade em que desenvolve novos modelos matemáticos e tecnologias.

A rastreabilidade garante que todas as decisões técnicas sejam registradas, justificadas e documentadas ao longo de décadas. Isso permite que gestores e auditores saibam não apenas se a barragem está estável, mas também quem decidiu, quem verificou e quais evidências sustentam cada decisão. O uso de tecnologias como imagens de satélite e dados em tempo real facilita o monitoramento contínuo e a manutenção dessa rastreabilidade documental.

Materiais com potencial de liquefação não podem ser projetados usando apenas fatores de segurança tradicionais, pois apresentam mecanismo de ruptura progressiva diferente. Para mitigar esses riscos, é necessário realizar análises técnicas rigorosas e considerar a suscetibilidade à liquefação nas tomadas de decisão. As normas globais foram revisadas em 2019 justamente para melhorar a precisão dos parâmetros e modelagens numéricas de projeto, permitindo maior segurança nessas estruturas.

A integração entre engenharia avançada, apuração de dados operacionais contínuos e estruturas corporativas de governança e tecnologia cria um sistema único que gera transparência e credibilidade. Essa abordagem sistêmica permite que engenheiros, operadores e gestores trabalhem de forma coordenada, compartilhando informações e responsabilidades, o que resulta em decisões mais seguras e bem fundamentadas ao longo de todo o ciclo de vida da barragem.