Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária. À tribuna, relator do PL 2.780/2024, senador Eduardo Braga
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária. À tribuna, relator do PL 2.780/2024, senador Eduardo Braga (Foto: Jonas Pereira/ Agência Senado)

Senado aprova PL dos Minerais Críticos

Projeto de Lei fomenta a pesquisa, extração, beneficiamento e a industrialização de minerais estratégicos no Brasil, e cria Conselho vinculado à Presidência da República

Por Mariana Sgarioni, 4 min de leitura

Publicado em 02/09/2026 | Atualizado em 03/09/2026

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Após um intenso debate, o Senado Federal aprovou, nesta quarta-feira (2), o PL 2.780 de 2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). A matéria agora segue para sanção presidencial.

Sob a relatoria do senador Eduardo Braga, o texto prevê fomentar a pesquisa, a lavra, o beneficiamento, a transformação mineral e a mineração urbana de minerais críticos e estratégicos de maneira sustentável. O CIMCE tem a função de orientar diretrizes para o setor. 

De acordo com Braga, o texto original, já aprovado na Câmara, recebeu nove emendas no Senado, em sua maioria, apenas ajustes pontuais de redação. “São 51 artigos em quatro capítulos, com nove instrumentos para a implementação da política, divididos em três grandes segmentos”.

Em discurso, à tribuna, o senador Eduardo Braga
Em discurso, à tribuna, o senador Eduardo Braga (Foto: Ton Molina/ Agência Senado)

“O texto deixa clara a importância dos minerais críticos para transição energética, segurança alimentar, defesa e desenvolvimento tecnológico do país. E, principalmente, pretende ampliar a agregação de valor em suas cadeias produtivas”, salientou o relator em seu pronunciamento no Plenário.

Eduardo Braga disse ainda que a regulamentação a partir de agora será tão importante quanto o PL que foi aprovado, pois será ela que dará estabilidade regulatória, segurança jurídica e previsibilidade para atrair investimentos subordinados à soberania nacional e interesse público. “Haverá parceria público e privada para o mútuo interesse da atividade econômica”, disse.

O relator ressaltou que o texto delimita as licenças de exploração: “Para evitar a especulação, colocamos um freio de regulação, estabelecendo um tempo para que as licenças se transformem em investimento (dez anos). Este tempo, no futuro, poderá ser reduzido”, observou.

Na avaliação do diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, houve um consenso entre governo, oposição e setor produtivo. “Ao instituir a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, o projeto oferece uma base positiva para financiamento, industrialização, tecnologia e inserção internacional da indústria da mineração brasileira”, afirmou, em entrevista coletiva para a imprensa.

O texto segue agora para sanção presidencial e, posteriormente, para regulamentação, etapa que o Ibram considera fundamental para garantir segurança jurídica e de previsibilidade aos investimentos. A entidade pretende apresentar propostas ao governo federal e defende um ambiente regulatório estável, considerando os longos ciclos de maturação dos projetos minerais.

O instituto também destacou a inclusão de regras de rastreabilidade, que, na sua avaliação, podem contribuir para uma mineração mais sustentável e para o combate a ilícitos no setor.

Minério de ferro de alto teor

Detalhe da textura de rocha de minério de ferro em jazida localizada em Minas Gerais.
Detalhe da textura de rocha de minério de ferro em jazida localizada em Minas Gerais (Foto: Malcoln Oliveira/ Pexels)

Outro ponto sensível do texto e que vem sendo intensamente debatido no setor é se o minério de ferro de alto teor passará a ser considerado um mineral crítico. Pela lei, o mineral já é enquadrado como estratégico, uma vez que o Artigo 2, parágrafo II, traz a definição:

  • Minerais estratégicos: recursos minerais relevantes para o país decorrente de reservas significativas e que sejam essenciais para a economia na geração de superávit da balança comercial, para desenvolvimento tecnológico, para o desenvolvimento regional, ainda que não diretamente vinculados à transição energética, ou para a redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE’s) na respectiva cadeia produtiva.

Porém, pelo texto, não é possível cravar se o minério de ferro de alto teor também será classificado como crítico. Existe uma brecha na redação do PL que aponta os minerais críticos como responsáveis pela transição energética – e o mineral é um importante elemento de descarbonização. Mas a definição final ficará nas mãos do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE).

Fontes ouvidas pelo Radar Mineração apontam que este é um ponto de insegurança jurídica, pois ainda não se sabe ao certo de que forma este conselho irá operar e quais serão seus critérios.

Conselho

A criação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE) gerou debates intensos entre o governo, o setor privado e ambientalistas devido a incertezas regulatórias e riscos socioambientais. Isso porque ele terá poder para analisar previamente operações societárias e acordos internacionais envolvendo ativos considerados estratégicos e será diretamente vinculado à Presidência da República.

Imagem gerada digitalmente representa diversidade de minerais críticos
Imagem gerada digitalmente representa diversidade de minerais críticos

“O interesse do governo não é controlar. Instrumentos eventuais de controle de exportação não serão usados de maneira indiscriminada. Cada cadeia será olhada para o que ela precisa, pois cada uma tem uma característica diferente: algumas têm questões mais geopolíticas do que mercadológicas, por exemplo. Por isso, também temos que olhar pelo ponto de vista da defesa”, afirmou Rogério da Veiga, secretário de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, durante a Exposibram, realizada na semana passada, em Belo Horizonte.

“Independentemente deste PL estamos trabalhando em diálogos com o setor de mineração para superarmos os gargalos. Estamos alinhados em um ponto: o Brasil precisa transformar esses recursos em riquezas. Mas não temos a ilusão de que poderemos verticalizar tudo. Sabemos que não tem mágica, que existe todo um arcabouço a ser desenvolvido. São pequenos passos a serem dados”, disse Veiga.

Para David Moreira, presidente do Instituto Nacional de Terras Raras, o texto aprovado avança ao inserir pesquisa, desenvolvimento tecnológico, beneficiamento e industrialização na estratégia brasileira. 

Contudo, existe uma preocupação sobre o papel atribuído ao Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos que precisaria ser exercido dentro de critérios técnicos, objetivos e transparentes.

Um homem vestindo um terno escuro e uma camisa branca sorri enquanto está em pé em um escritório com uma janela e uma planta verde ao fundo.

“O Conselho Nacional deve ser um instrumento de coordenação estratégica do Estado e não um fator de insegurança.”

“Sua atuação precisa estar submetida a critérios técnicos, governança transparente e regras claramente definidas, assegurando a proteção dos interesses nacionais sem criar entraves aos investimentos e ao desenvolvimento da cadeia mineral brasileira”, declarou David Moreira, ao Radar Mineração.