- O setor privado brasileiro apresentou formalmente 800 soluções climáticas à COP30, com 110 iniciativas de alto grau de maturidade, posicionando o país como provedor de tecnologias para transição global.
- As soluções abrangem biocombustíveis, restauração florestal e agricultura regenerativa, já viáveis e sustentáveis, mas sua escalabilidade depende de destravar regulações e alinhamento com políticas públicas.
- O presidente Lula agendou reunião com representantes do setor privado para alinhar implementação de projetos, sinalizando que o legado da COP30 depende da interface entre capital privado e regulação governamental.
Em um movimento estratégico para posicionar o Brasil não apenas como um demandante de recursos, mas como um provedor de tecnologias para a transição global, lideranças do setor privado brasileiro entregaram formalmente à presidência da COP30 o documento “Brasil, país de soluções climáticas para o clima, natureza e pessoas”.
A entrega simbólica foi feita pela economista Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), para Ana Toni, diretora executiva da COP30 e ex-secretária nacional de Mudança do Clima. Grossi celebrou o momento como um passo crucial para a implementação de ações concretas. “Esses cases, colisões, coletivos, tudo isso é para que a gente tenha uma voz única. Minha tarefa é pegar alguns cases que a gente trabalhe mais minuciosamente para que alterem todo o ecossistema. Que sejam, de fato, alavancas”, declarou ela, elogiando o entusiasmo e a abertura do setor empresarial.
O evento simboliza uma virada de chave na conferência: o foco sai da negociação diplomática de “palavrinhas” que possam estar em documentos finais para a implementação prática de projetos industriais e ambientais.
O “Brasil, país de soluções climáticas” é fruto da união de três grandes forças empresariais: o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), a Sustainable Business COP (SB COP) — coletivo liderado por Ricardo Mussa com a função de ser o “B20” da COP — e a iniciativa C.A.S.E. (Corporações pela Ação Climática). Este último grupo reúne gigantes de setores críticos, incluindo a Vale, além de Bradesco, Itaú, Itaúsa, Marcopolo, Natura e Nestlé.
De pilotos à escala industrial

O levantamento, compilado pela consultoria Accenture, mapeou mais de 800 soluções em cinco continentes, filtrando 110 iniciativas consideradas de “alto grau de maturidade e impacto”. Segundo Patrícia Feliciano, da Accenture, trata-se de “soluções robustas, com impacto ambiental e social, e que têm uma relevância importante em toda a cadeia produtiva do país”.
Para o setor mineral e industrial, a fase de testes acabou. Filipe Bottini, também da consultoria, enfatizou que o foco não está em estágios iniciais, mas em projetos que “já são viáveis, que já se sustentam”. As soluções abrangem temas transversais cruciais para a mineração, como biocombustíveis, restauração florestal e agricultura regenerativa — áreas onde várias das empresas já têm projetos de recuperação de áreas degradadas e descarbonização logística.
O gargalo regulatório e o diálogo com Lula
Apesar da maturidade tecnológica, o setor privado alerta que a escala depende de destravar a regulação. Durante as discussões, lideranças apontaram que “a gente já sabe que essas soluções existem, a gente tem agora de partir para o que está faltando para elas serem escaladas” .
O gargalo atual reside na interface com o governo. “Como é que conversa com quem faz regulamentação, quem é que faz as regulamentações de comércio, para a gente dar um passo além?”, questionou uma liderança do setor durante o evento.
Para endereçar essas travas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitou uma reunião exclusiva com um pequeno grupo de representantes do setor privado, a ser realizada na tarde desta quarta-feira (19), incluindo as empresas da coalizão, para entender o papel empresarial na agenda. A intenção é mostrar ao presidente que a implementação depende de um alinhamento fino entre política pública e capital privado.
“Show de profissionalismo”

Ana Toni recebeu o documento e elogiou a resposta das empresas. “Tínhamos três grandes objetivos: reforçar o multilateralismo, falar com as pessoas e trabalhar pela implementação. E o setor privado apareceu, deu show de profissionalismo e soluções concretas”, afirmou Toni.
Ela reforçou que a ambição da presidência da COP é transformar exceções em regras. “A gente não quer, daqui a alguns anos, olhar para a agricultura regenerativa, os biocombustíveis e a restauração florestal apenas como cases, mas como o novo normal”, disse Toni.
Balanço e próximos passos
O movimento empresarial visa a garantir que o legado da COP30 se estenda ainda por 2026, consolidando o Brasil como hub de economia verde e reforçando os compromissos com implementação, palavrinha-chave desta 30ª Conferência. Ana Toni também fez um balanço prévio do evento, rebatendo o ceticismo inicial sobre a realização da COP30 em Belém e a instabilidade geopolítica. “Havia questões sobre a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Mas, no fim, nenhum outro país anunciou a saída. Temos representantes oficiais de 195 nações”, destacou, celebrando a apresentação de 118 NDCs (metas climáticas nacionais).
Para a mineração, que opera em prazos longos e sob intensa pressão por licenciamento e conformidade, a mensagem final do encontro é de pragmatismo. As soluções técnicas existem, o capital está mobilizado, mas a velocidade da implementação agora depende de Brasília e das regras do comércio global.
** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

