As terras raras despontam como uma das principais oportunidades para o Brasil ampliar a atração de investimentos na mineração. Com uma das maiores reservas desses minerais no mundo e uma demanda global impulsionada pela transição energética, o país reúne condições para conquistar posição mais estratégica nas cadeias globais de suprimentos. Para isso, porém, precisará superar desafios que vão além da geologia.
Especialistas ouvidos pelo Radar Mineração afirmam que o Brasil possui vantagens competitivas importantes, como abundância de recursos minerais, mão de obra qualificada e uma legislação consolidada, mas enfrenta obstáculos relacionados ao ambiente de negócios, à segurança jurídica, ao acesso ao mercado de capitais e ao financiamento de projetos de longo prazo.
O momento, avaliam, é favorável.
Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a carteira de investimentos do setor para o período de 2026 a 2030 alcança US$ 76,9 bilhões, crescimento de 12,5% em relação à projeção anterior. Desse total, US$ 21,3 bilhões serão destinados aos minerais críticos, entre eles cobre, níquel, lítio, grafita, nióbio, zinco e terras raras, segmento cuja previsão de investimentos aumentou 15,2% em comparação ao ciclo anterior.
Riscos
Para Mateus Figueiredo, sócio da KPMG, a mineração vive um ciclo positivo impulsionado pela demanda internacional, mas ainda há espaço para o Brasil ampliar sua participação na disputa por investimentos.
“A mineração está aquecida. Neste momento, estamos com alta expectativa para os próximos anos. O volume é grande e crescente, como reflexo das demandas. A pergunta é: estamos atraindo o quanto deveríamos? Esse é o ponto. Se a gente melhorar o ambiente de negócios hoje, o investimento de longo prazo se tornará mais competitivo.”
Segundo ele, o capital destinado à mineração circula globalmente e compara diferentes mercados antes de tomar decisões. Nesse cenário, fatores como previsibilidade regulatória, segurança jurídica e estabilidade institucional pesam tanto quanto o potencial mineral.
Para Miguel Nery, coordenador da Invest Mining, o principal gargalo está na fase inicial dos empreendimentos, quando empresas de pesquisa mineral encontram dificuldade para acessar recursos financeiros.
“O mercado está crescendo, o dinheiro está chegando e precisamos fazer a mobilização dos atores para que bons projetos encontrem investidores e os recursos financeiros cheguem à mineração.”
Ele explica que países como Canadá e Austrália desenvolveram mecanismos específicos para financiar empresas juniores, responsáveis pela descoberta de novas jazidas. No Brasil, esse ecossistema ainda está em consolidação.
Entre as iniciativas recentes citadas pelo especialista estão a criação do Fundo de Investimento em Participações em Empresas Emergentes de Base Mineral (FIPE), estruturado pelo BNDES. Ele também destacou as discussões conduzidas com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para adaptar instrumentos do mercado de capitais às características da mineração.
“O risco geológico sempre fará parte da atividade. O que podemos reduzir é a percepção desse risco por meio de regras adequadas e instrumentos financeiros compatíveis com o setor”, diz.
Longo prazo

A mineração é uma atividade que exige investimentos contínuos durante muitos anos antes de gerar retorno financeiro. Segundo Marcos André Gonçalves, integrante do comitê gestor da Invest Mining, um projeto mineral pode levar cerca de 16 anos entre a pesquisa e o início da produção.
“No Brasil, a mineração é um investimento de alto risco e de muita incerteza. O risco pode ser gerenciado; a incerteza, não.”
Para ele, ampliar a competitividade brasileira passa pelo fortalecimento institucional da Agência Nacional de Mineração (ANM), pela ampliação da base de informações geológicas disponíveis e pela criação de mecanismos capazes de reduzir as incertezas para investidores.
“O dinheiro existe. A questão é por que o Brasil não atrai mais investimentos. Muitas vezes acaba sendo mais interessante aplicar recursos em outros setores.”
Nesse cenário, as terras raras surgem como uma oportunidade para reposicionar o Brasil no mercado internacional. A crescente demanda por esses minerais, essenciais para a fabricação de ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos, tende a ampliar o interesse de investidores por novos projetos.
Os especialistas ouvidos pelo Radar Mineração concordam que o potencial geológico brasileiro já está consolidado. O desafio agora é criar um ambiente de negócios capaz de transformar essa vantagem natural em novos investimentos, agregação de valor e desenvolvimento da cadeia de minerais estratégicos.
A avaliação é que, se conseguir reduzir incertezas e ampliar a competitividade, o Brasil terá condições de converter a riqueza de seu subsolo em protagonismo na economia da transição energética.