- A transição energética global aumenta a demanda por minerais críticos em até 54% até 2034, posicionando o Brasil como fornecedor estratégico devido às suas reservas de lítio, níquel, cobre e terras raras.
- O Brasil precisa agregar valor na cadeia produtiva através de refino e transformação local dos minerais, não apenas exportar matéria-prima bruta, para competir globalmente e capturar oportunidades de investimento.
- A descarbonização da mineração brasileira, combinada com governança estável e inovação tecnológica, é essencial para evitar concentração geopolítica de refino e garantir sustentabilidade ambiental e social dos projetos.
Em plena corrida global por uma economia de baixo carbono, a transição energética na mineração é o novo eixo da geopolítica dos recursos naturais. Enquanto governos e indústrias aceleram metas de descarbonização, as exigências por minerais estratégicos como lítio, cobre, níquel e terras raras disparam em ritmo sem precedentes. No centro dessa transformação está o Brasil: rico em reservas, posicionado estrategicamente para abastecer parte da demanda crescente e, ao mesmo tempo, desafiado a modernizar sua cadeia produtiva para competir globalmente.
A máxima repetida no lançamento do relatório Minerais Críticos e Estratégicos para a Transição Energética pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) resume a maior relevância da mineração: tecnologias limpas dependem de materiais intensivos em minerais. Baterias, turbinas eólicas, painéis solares e sistemas de armazenamento exigem muito mais insumos do que as tecnologias convencionais, apontando um crescimento estimado de até 54% na demanda por minerais críticos até 2034 com a expansão da matriz elétrica brasileira.
No cenário global, esse movimento é ainda mais expressivo. A International Energy Agency (IEA) projeta que a procura por minerais essenciais, incluindo manganês, lítio, grafite e níquel, pode aumentar pelo menos seis vezes nas próximas décadas, impulsionada pela eletrificação do transporte e pela expansão das energias renováveis, o que também foi reforçado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) durante a última edição do Fórum Econômico Mundial.
Brasil: entre potencial geológico e desafios estruturais
Com reservas significativas de lítio, grafite, níquel, cobre e terras raras, o Brasil vem ocupando uma posição relevante na transição energética global, e tem sido destacado como peça-chave em eventos internacionais, como o China Mining 2025, onde representantes da Agência Nacional de Mineração (ANM) destacaram o papel estratégico do país como fornecedor de materiais indispensáveis à economia verde.

Debates no Senado reforçaram essa visão: a mineração representou 4,3% do PIB e cerca de 20% das exportações brasileiras em 2023, com investimentos previstos de R$ 68 bilhões entre 2025 e 2029 para projetos ligados à transição energética. Ainda assim, governança estável, inovação tecnológica e aperfeiçoamento regulatório são vistos como condicionantes para transformar esse potencial em vantagem competitiva sustentada. O MME acredita que a demanda global por minerais críticos pode crescer até 500% até 2050 e ressalta a condição do Brasil (geológica e industrial) de se posicionar como fornecedor-chave na transição para energias limpas e descarbonização da economia mundial.
“Essa janela de oportunidade exige ações coordenadas. Não basta ter o minério, é preciso refinar, transformar e agregar valor aqui dentro”, afirmou Rodrigo Cota, na ocasião, diretor de Transformação e Tecnologia Mineral do Ministério de Minas e Energia.
No âmbito internacional, a transição energética coloca desafios duplos: intensificar a produção de minerais críticos e garantir que essa expansão ocorra de forma sustentável, socialmente responsável e diversificada, sem criar novos gargalos geopolíticos. Segundo publicação do The Wall Street Journal, alguns relatórios do setor já alertam para a concentração em poucos países de refino de minerais como lítio e cobre, o que pode gerar riscos de abastecimento e volatilidade de preços no médio prazo.
Além disso, organismos internacionais, entre os quais a Organização das Nações Unidas (ONU), têm colocado em debate a sustentabilidade de projetos de mineração, apontando desde a necessidade de normas mais rigorosas para controlar impactos ambientais até as preocupações com os efeitos sobre comunidades locais. A ONU reforça que as estratégias de transição energética devem priorizar equidade e justiça social, alertando que o aumento da demanda por minerais pode intensificar conflitos caso não seja acompanhado por políticas responsáveis.
O papel da inovação e da descarbonização no setor
Ao mesmo tempo em que fornece os minerais necessários à economia verde global, o setor de mineração também busca reduzir significativamente sua própria pegada de carbono. Segundo análises do Global Mining Review, cenários mais ambiciosos de descarbonização indicam que as emissões da mineração poderiam ser reduzidas em até 90% até 2050, desde que haja ampla adoção de eletrificação, uso intensivo de energia renovável e mudanças estruturais nos processos produtivos.
Esse movimento exige, além de tecnologia, políticas públicas coerentes e incentivos financeiros capazes de viabilizar a transição de um modelo intensivo em carbono para uma mineração mais integrada à economia de baixo carbono. Para especialistas, trata-se de uma oportunidade de ampliar a participação do Brasil no mercado internacional de minerais críticos. Mais do que explorar reservas, o país tem a chance de fortalecer cadeias produtivas locais e atrair investimentos. O protagonismo vai exigir uma coordenação entre governo, empresas e sociedade civil em uma agenda que combina competitividade industrial, segurança de abastecimento e geopolítica.