BELO HORIZONTE – A geopolítica está volátil, e implica nos negócios. Na mineração, onde projetos levam décadas para serem concebidos, implantados e operados, a volatilidade precisa compor as equações nos planejamentos de risco.
O assunto foi discutido na abertura do Congresso Brasileiro de Mineração, durante a Exposibram 2026. O evento acontece nesta semana, em Belo Horizonte, em uma edição que celebra os 50 anos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
O CFO da Lundin Mining Brasil, Jean Silva Cintra, pontuou que a volatilidade geopolítica impacta na avaliação de novos projetos de mineração.
Isso é observado em muitos efeitos, nos custos operacionais. Tivemos, por exemplo, aumentos recentes de combustíveis, lubrificantes, logística, nitrato de amônio, ácido sulfúrico e outros insumos”
A Lunding opera a mina Chapada, em Alto Horizonte (GO), considerada por Cintra como de alta complexidade, pois minera com teores médios de 0,25% de cobre processado. “Independente disso, precisamos separar aquilo que está sob controle da empresa daquilo que depende de fatores externos. E agir sobre o que temos controle”, disse.
O aumento do nitrato de amônio nos últimos meses é um caso desses, no qual a Lundin buscou alternativas operacionais ao introduzir outro tipo de explosivo que, no final, melhorou a produtividade e a granulometria do desmonte, compensando parte do impacto provocado pelo aumento do insumo.
Na visão de Cintra, a mesma lógica pode ser aplicada à cadeia de suprimentos: quando um insumo depende de fornecedores localizados em regiões distantes, por exemplo, uma alta no frete marítimo (como é o caso do nitrato de amônio importado da China) pode tornar alternativas locais ou regionais mais competitivas. “E essa diversificação de fornecedores não precisa ficar restrita ao Brasil. Países da América Latina também podem fazer parte dessa estratégia”, disse.
Mariette Bylsma, presidente de ativos do portfólio de joint ventures não operadas da BHP nas Américas, avalia que a geopolítica atual não é apenas de episódios pontuais de instabilidade. Agora, ela se transformou em um cenário de volatilidade estrutural.
Segundo a executiva, essa mudança altera a forma como as empresas planejam, constroem resiliência e decidem seus investimentos. Entre os principais efeitos estão a mudança dos fluxos comerciais globais e a necessidade de garantir o acesso a recursos e a segurança das cadeias de suprimentos de minerais críticos.
Nesse ambiente, empresas com ativos de alta qualidade, resiliência construída ao longo dos ciclos e capacidade de adaptação tendem a estar melhor posicionadas para aproveitar novas oportunidades”
Nesse contexto, a executiva destaca a importância de ativos Tier 1, baixo custo operacional, resiliência e capital paciente para sustentar investimentos mesmo diante de mudanças no ambiente global.
Cadeia de valor
A vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale, Grazielle Parenti resume que “agora é preciso entender o cliente do cliente”. Ou seja: as mineradoras devem observar toda a sua cadeia de valor.
Ela pontuou que a tecnologia e a transição energética estão ligadas – e são altamente demandantes da mineração -, o que exige do setor uma aproximação desses setores e da sociedade. E o momento é oportuno.
“Não há discussão que se vá, seja em um fórum como este ou em um almoço de família, em que os assuntos não sejam inteligência artificial, geopolítica e minerais críticos. São os temas do momento”, disse.
E eles estão intimamente ligados.
Ao mesmo tempo em que a volatilidade geopolítica influencia o planejamento das empresas de mineração, ela traz para a mesa de discussão as questões de soberania. Novamente, energia, tecnologia e mineração estão juntas nesse espectro, e essa é uma boa notícia ao Brasil, que tem vastidão de reservas minerais, capacidade de mão de obra tecnológica e matriz elétrica majoritariamente renovável.
A gente tem uma oportunidade histórica, talvez uma porta [e não só uma janela] de oportunidades para fazer uma transformação, aproximando a mineração da sociedade”
Integração de sistemas globalizados
Ao mesmo tempo que as cadeias regionais de fornecimento devem ser avaliadas como alternativa, a integração de ecossistemas globalizados amplia a margem de manobra de empresas multinacionais.
É o caso da Alcoa, cuja atuação mundial ocorre há mais de cem anos. No Brasil, a companhia está instalada há mais de seis décadas, com operações de extração de bauxita até a produção de alumina e do metal alumínio.
A CFO da empresa no Brasil, Gisele Salvador, disse, na Exposibram, que a verticalização da operação permite à empresa acompanhar diferentes etapas da cadeia, mas também expõe o negócio a ciclos de mercado, mudanças tecnológicas e alterações no ambiente geopolítico.
Potém, isso não faz com que a empresa altere a sua estratégia a cada mudança de cenário, pois a governança e planejamento são capazes de preparar a organização para diferentes possibilidades.
O objetivo da governança não é acabar com as incertezas. Mas sim, ser uma ferramenta para ajudar a diminuí-la”
Para empresas globais, ela defendeu que a alternativa é construir cenários diversos e estabelecer respostas para cada possibilidade, mantendo a estratégia de longo prazo mesmo diante de mudanças no ambiente externo.
* Acompanhe a cobertura da Exposibram 2026 no Radar Mineração.