A transição energética e a corrida por minerais críticos exigem do Brasil respostas que vão muito além de medidas imediatas. Durante o Fórum LIDE Mineração, realizado nesta sexta-feira (28) na Casa LIDE, em São Paulo, o vice-presidente executivo Técnico da Vale, Rafael Bittar, destacou que o desenvolvimento do setor no país exige uma perspectiva estrutural de longo prazo e o enfrentamento de gargalos sistêmicos.
"É um negócio de longo prazo. Nós não vamos mudar a realidade deste país em termos de mineração em dois, três anos. Nós precisamos ‘começar ontem’, mas o resultado não virá no curtíssimo prazo — a não ser que a gente continue sempre investindo nos grandes projetos que já existem, na ampliação desses projetos e na implantação de outros que estão em estágio mais próximo", afirmou Bittar.
Mapeamento seletivo: “força-tarefa” para megaprojetos
O executivo ressaltou a complexidade do licenciamento ambiental no Brasil, que demanda ciclos longos de coleta de dados de campo (entre dois e três anos) para análise de águas e poços. Para contornar os entraves e a burocracia, Bittar propôs uma abordagem focada nos empreendimentos de grande impacto econômico.

“O caminho passa muito por selecionarmos de 15 a 20 grandes projetos de mineração que vão movimentar o país e dar um tratamento diferenciado a eles — sejam forças-tarefa para o licenciamento ou a celebração de um grande acordo com todos os stakeholders e comunidades locais para termos menos surpresas. Nós não podemos ter tanta surpresa num projeto mineral de 5 a 10 bilhões de dólares; você começa e, de repente, tem que pará-lo”, cobrou Bittar.
A crise de mão de obra
Além dos gargalos burocráticos, Bittar chamou atenção para a escassez de profissionais qualificados no campo e nas academias. Ele apontou um déficit crítico no país de sondadores, profissionais essenciais para o mapeamento geológico das jazidas:
Temos um déficit de sondadores; as pessoas não querem mais trabalhar com sondagem. Elas preferem trabalhar como motoristas de aplicativo a ficar em uma área remota, longe da família. Esse é um desafio do país que precisamos vencer com escolas de sondagem, investimentos, melhoria salarial e de condições de trabalho
Rafael Bittar, vice-presidente executivo Técnico da Vale
O cenário de formação acadêmica também preocupa. Traçando uma comparação com dados de 2024, Bittar apontou a assimetria entre o Brasil e outros mercados mundiais:
“O Brasil formou cerca de 80 mil engenheiros e geólogos, enquanto a China formou 1,5 milhão. São 18 vezes mais profissionais formados lá, para uma população apenas sete vezes maior. Isso sem falar que muitos engenheiros estão migrando para outras áreas porque a mineração deixou de parecer interessante. As grandes empresas precisam assumir o protagonismo para mostrar os caminhos e recrutar essa mão de obra”, destacou.
Tecnologias
Abordando a inovação tecnológica, Bittar lembrou que, se por um lado a expansão dos data centers e da inteligência artificial exige volumes crescentes de metais, por outro lado o avanço acelerado da ciência traz riscos ao valor geopolítico dos minerais tradicionais.
“A tecnologia, que hoje é uma aliada na demanda, também é uma ameaça no sentido de acelerar o desenvolvimento de outros substitutos aos metais. Antigamente, você tinha um ciclo de 20 a 30 anos para um projeto e não contava com inteligência artificial ou computação quântica. Hoje, o desenvolvimento de novos materiais avança muito rápido: coisas que demoravam dez anos de pesquisa, faz-se em muito menos tempo”, advertiu.
O executivo ressaltou ainda a necessidade de o Brasil modernizar suas tecnologias de engenharia e construção para acelerar os prazos de implantação de indústrias e infraestrutura, reduzindo a discrepância temporal em relação a países como a China.
Cobre: o “novo ouro” e o motor do PIB
Ao projetar os vetores de expansão para a economia nacional, Bittar sustentou que a base de sustentação do PIB brasileiro continuará atrelada às grandes minas e à extração dos minerais essenciais.
“O que vai mover o PIB são os grandes projetos de mineração — os projetos de cobre e os projetos de minério de ferro. A própria Vale anunciou recentemente R$ 120 bilhões em investimentos para o Novo Carajás e para operações em Minas Gerais. E o cobre, de novo, é o novo ouro. Existe uma tese de longo prazo para o cobre, de difícil substituição, que hoje gera enorme valor para as empresas”, concluiu.