Rejeitos e outros materiais provenientes da mineração são um assunto sério, que vem mobilizando empresas e a sociedade civil. A enorme quantidade de finos, lamas e pedras gerados após a extração e o beneficiamento dos minérios exigem grandes áreas de contenção e trazem indiscutíveis riscos ambientais e sociais.
Foi isso que chamou a atenção da artista plástica mineira Ana Elisa Murta. A partir de resíduos minerais, ela desenvolveu tintas que começaram nas telas, avançaram para paredes e fachadas e hoje já são produzidas em escala em Minas Gerais. O trabalho também abriu uma nova frente de pesquisa: transformar resíduos gerados pela indústria mineral em matéria-prima para revestimentos.
“Percebo cada dia mais a importância de criarmos usos para os resíduos da mineração”, afirmou Ana Elisa, em entrevista ao Radar Mineração. “A mineração é uma atividade imprescindível. Precisamos que ela seja feita de forma responsável e mais sustentável.”

Parte desse percurso da artista pode ser vista em São Paulo, na exposição “Geopoéticas da Matéria”, em cartaz até 18 de dezembro na Casa de Metal Espaço Cultural, no bairro Campo Belo. As obras são produzidas com tintas desenvolvidas a partir de rejeitos minerais e exploram as cores, texturas e a própria origem dos materiais.
A proposta extrapola a arte. O contêiner que abriga a exposição também se tornou parte da experiência. Inicialmente pintado com tinta feita com material proveniente do minério de ferro, ele recebeu agora um revestimento desenvolvido com jarosita, resíduo amarelo-ocre gerado na produção de zinco.
“A intervenção permite mostrar, em um mesmo espaço, tanto as obras quanto uma possível aplicação dos materiais que deram origem a elas”, comentou a artista.
Alergia às tintas convencionais
A história das tintas minerais começou por uma razão pessoal. Artista visual, Ana Elisa desenvolveu uma forte alergia às tintas convencionais e começou a procurar alternativas atóxicas que permitissem continuar pintando.
A pesquisa a levou aos pigmentos inorgânicos e a uma técnica muito anterior à indústria moderna de tintas: extrair cores dos próprios minerais.
Comecei a pegar resíduos de minerais, misturar com diferentes óleos e fazer meus quadros.”
Ana Elisa Murta
Moradora de Minas Gerais e cercada pela atividade mineral, ela encontrou também uma solução para uma dificuldade. Para produzir pigmentos, precisava transformar pedras e outros materiais em partículas suficientemente finas para serem incorporadas às tintas. Procurou então profissionais da mineração que pudessem ajudá-la na moagem.
Foi nesse processo que percebeu a diversidade de materiais disponíveis. Nem tudo o que utiliza é tecnicamente rejeito. Ana Elisa explica que há também minerais encontrados nas cavas que não seguem para o beneficiamento por não terem o teor procurado pela mineradora, mas apresentam grande potencial de pigmentação.
“Hoje eu utilizo toda essa gama de subprodutos da mineração para produzir as tintas”, diz. “O rejeito, especificamente, é extremamente pigmentado.”
A quantidade utilizada nas telas, no entanto, era mínima diante dos volumes gerados pela mineração. Durante uma exposição, um minerador chamou sua atenção para essa diferença de escala.
“Ele me falou: ‘Ana, você está usando muito pouco. Você precisa passar lá e pegar toneladas’.”
A provocação mudou a direção do projeto. “Veio uma ideia de ampliar a arte, a arte sair do quadro e ir para as paredes, para as fachadas, para as ruas”, conta.
Produção em escala a partir de rejeitos
A transformação da experiência artística em produto exigiu pesquisa. Com apoio da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foram desenvolvidas formulações que utilizam coprodutos da mineração como carga e pigmento para tintas imobiliárias.
Segundo Ana Elisa, os minerais conferem características específicas ao produto, entre elas resistência, aderência e estabilidade da cor. A equipe também pesquisa possíveis benefícios relacionados ao conforto térmico das edificações.
Antes de chegar ao mercado, as tintas passaram por testes em ambientes reais. Nos últimos anos, elas foram utilizadas para pintar mais de 200 casas em áreas vulneráveis de Minas Gerais.
O trabalho começou na Vila Mamuca, uma comunidade quilombola, e posteriormente chegou a outras localidades, entre elas o Morro do Machadinho e o Aglomerado do Papagaio, em Belo Horizonte.
Produção e fabricação
Depois da fase de desenvolvimento, testes e certificações, as tintas começaram a ser comercializadas. A produção é feita pela empresa Origem Mineral, em Minas Gerais, em uma unidade com capacidade para fabricar 3,5 mil litros por dia. A paleta atual conta com 18 cores obtidas sem adição de pigmentos sintéticos. Outras tonalidades podem ser desenvolvidas com pigmentos inorgânicos.
O projeto prevê um modelo de produção próximo às regiões mineradoras, evitando transportar rejeitos por grandes distâncias e assim aumentar a emissão de gases de efeito estufa.
“Não faz sentido carregar rejeito. Se eu pegar um rejeito de São Paulo e trouxer para cá, já não é mais uma produção sustentável”, diz Ana Elisa. “Para a gente ser coerente com o projeto, a ideia é que seja produzida localmente.”
Além de reduzir deslocamentos, ela vê na fabricação descentralizada uma possibilidade de geração de renda em municípios cuja economia depende da atividade mineral.
Parceria com a Nexa
A pesquisa ganhou recentemente um novo capítulo com a Nexa Resources. A mineradora procurou a equipe para estudar uma aplicação para a jarosita, resíduo gerado na produção de zinco.
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Até então, Ana Elisa trabalhava principalmente com materiais ligados ao minério de ferro. O desafio exigiu uma formulação diferente e levou ao desenvolvimento de uma tinta destinada a ambientes industriais.
Segundo a artista, o revestimento desenvolvido com a jarosita apresenta característica anticorrosiva, o que favorece sua utilização em ambientes industriais mais agressivos. A tinta foi usada para repintar justamente o contêiner da exposição em São Paulo, transformando o espaço em uma demonstração do processo de pesquisa.
O projeto também testa o revestimento em estruturas de aço nas instalações da mineradora em Juiz de Fora, em Minas Gerais. O desempenho ainda está em validação, com ensaios laboratoriais e peças expostas às condições da unidade industrial.
Ana Elisa reconhece que a fabricação de tintas está longe de consumir todo o volume de resíduos gerado por uma operação mineral. A relevância, para ela, está em abrir novas possibilidades de aplicação.
“As tintas não vão resolver todo o problema”, afirma. A iniciativa, porém, pode fazer parte de um conjunto maior de pesquisas destinadas a encontrar novos usos para materiais que podem ser potencialmente perigosos e que hoje precisam ser armazenados ou descartados.