• O Brasil mantém competitividade no minério de ferro apesar de distâncias três vezes maiores que a Austrália ao China através de inovações logísticas e qualidade superior da matéria-prima.
  • A Vale opera navios ValeMax com capacidade de 405 mil toneladas e implementou tecnologias como drones para inspeção, inteligência artificial para gerenciar rotas e velas eólicas para reduzir emissões.
  • O minério brasileiro de médio e alto teor (52% a 67% de ferro) é preferido para ligas de aço de alta resistência, enquanto blendagem em Omã padroniza o produto em 62% de teor, acima da média global.
Resumo revisado pela redação.

A menor distância entre as costas marítimas da Austrália e da China é de 6,2 mil quilômetros. Já do Porto de Tubarão, no Espírito Santo, até Ningbo-Zhoushan, no leste da China, são 17,8 mil quilômetros. Há outras rotas e portos relevantes, mas a comparação deixa claro: o minério de ferro brasileiro percorre quase o triplo da distância do australiano até seu principal destino — a China, maior consumidora mundial do produto.

Como, então, o Brasil consegue se manter competitivo, a ponto de ter direcionado mais de 60% de suas exportações de minério de ferro ao país asiático em 2024? A resposta passa pela logística — especialmente marítimo-portuária —, pela qualidade da matéria-prima e pelas estratégias empresariais. A reportagem do Radar Mineração esteve em uma das operações portuárias da mineradora Vale para mostrar como isso funciona na prática.

Geopolítica do minério de ferro

Austrália e Brasil são os maiores produtores globais de minério de ferro. Em 2024, o Brasil beneficiou e comercializou 447 milhões de toneladas, enquanto a Austrália ultrapassou 930 milhões. Juntos, responderam por 55% da produção e do beneficiamento mundial, estimados em 2,5 bilhões de toneladas.

Do outro lado, a China consumiu sozinha metade desse total, além de figurar como terceira maior produtora global, ao lado da Índia, com 270 milhões de toneladas.

Principais países produtores de ferro beneficiado em 2024:

Apesar de os chineses se destacarem como os maiores compradores, outros mercados como Japão, Malásia e Coreia do Sul também têm relevância. Para alcançá-los, o Brasil precisa vencer a barreira da distância. “Temos desenvolvido estratégias para levar mais minério a cada viagem, além de entregar um produto de qualidade superior ao dos concorrentes”, afirma Rodrigo Vasconcelos, diretor de Operações do Porto de Tubarão.

O “bitrem” dos mares

Valemax com velas rotativas

Na logística, a aposta é em gigantes dos mares: os navios ValeMax, os maiores transportadores de minério do mundo. Cada um carrega até 405 mil toneladas — o dobro dos graneleiros convencionais. São 362 metros de comprimento (maior que a Torre Eiffel e seus 330 metros) e 65 metros de largura, o equivalente a um estádio de futebol.

O trajeto entre Vitória e a maioria dos portos chineses leva, em média, 45 dias. “Usar o ValeMax equivale a reduzir esse tempo pela metade, já que dobramos a capacidade (de carregamento) em uma só viagem”, explica Vasconcelos.

A Vale opera com frota arrendada desse gigante, que está para o transporte marítimo de minérios como um bitrem está para transporte rodoviário. A comparação não é apenas pelo fato de carregar o dobro da capacidade, mas também – e justamente por ser mais produtivo – ser o foco de inovações, como o uso de energia eólica para propulsão. 

Cinco velas rotativas de 35 metros de altura e 5 metros de diâmetro foram instaladas em algumas unidades da frota de ValeMax. Cada vela tem rotores cilíndricos que, ao girarem, criam diferença de pressão pelo efeito Magnus, empurrando o navio e reduzindo a carga do motor principal, com menor consumo de combustível (em suma, esse efeito é o mesmo fenômeno físico que o jogador de futebol Roberto Carlos impunha em seus chutes).

Embora dependam de condições favoráveis de vento, a expectativa é que as velas ampliem a eficiência de propulsão em 6% e reduzam as emissões de gases de efeito estufa em 3 mil toneladas anuais por navio.

Antes de zarpar, os ValeMax passam 48 horas ancorados em um dos dois píeres especialmente preparados em Tubarão. É o tempo necessário para carregar os sete porões, cada um com 50 mil a 60 mil toneladas de minério. Para viabilizar essa operação, o canal de navegação passou por obras de dragagem e adequação nos últimos anos. A profundidade no local passou de 22,5 para 25,3 metros, acomodando navios com calado de até 23 metros. Os píeres também foram ampliados, tanto para suportar a atracação como para a logística em solo.

Isto é necessário para verificar o limite de carregamento, em linha com a profundidade de navegação adequada. 

Imagem captada por drone em sobrevoo às embarcações

Durante o carregamento, o calado (parte submersa do casco) é inspecionado periodicamente para verificar limites de peso e segurança. Essa medição, antes feita por profissionais em pequenas embarcações, expostos ao mar e ao clima, agora é realizada por drones. “Antes, as equipes demoravam três vezes mais e ficavam sujeitas a riscos. Agora, operam de salas de controle”, diz Vasconcelos.

Os dados do calado alimentam um Centro de Controle de Operações equipado com APIs (interface de programação de aplicativos) de inteligência artificial. O sistema gerencia alocação de frota, controle de velocidade e atracação sincronizada com disponibilidade de píeres. “Temos mais de 5 mil combinações de rotas para nossos navios. A IA se tornou fundamental para gerenciá-las”, explica Allan Ayres, gerente do Centro de Controle de Operações de Tubarão.

Operação portuária completa

Além dos ValeMax, o Porto de Tubarão recebe dezenas de graneleiros convencionais, com capacidade entre 200 mil e 360 mil toneladas. O complexo embarca derivados de petróleo que abastece o Espírito Santo, sul da Bahia, norte do Rio de Janeiro e sudoeste de Minas Gerais. No total, responde por 2,2% das exportações agrícolas brasileiras, manuseia 47% do carvão importado pelas siderúrgicas e 2,4% dos fertilizantes também importados. Em 2024, Tubarão embarcou nada menos que 71,9 milhões de toneladas de minério de ferro.

O local também abriga unidades de pelotização e produção de briquetes da Vale, além de estar próximo a siderúrgicas da ArcelorMittal. Aliás, parte da pelotização já a atende diretamente, em mais uma demonstração de eficiência logística e produtiva.

Com mais de 60 anos de operação, Tubarão é o porto mais antigo da Vale, tornando-se centro de implementações tecnológicas e berço de inovações. Uma das conquistas recentes foi a redução de 93% na emissão de poeira difusa do minério.

Correia transportadora do Porto de Tubarão
Correia transportadora do Porto de Tubarão

Essa solução passou por múltiplas frentes. As correias transportadoras de minério foram totalmente cobertas por estruturas metálicas, que parecem contêineres, isolando o minério durante todo o trajeto, por exemplo. Já o pátio de estocagem ganhou telas protetoras ao redor e, diariamente, caminhões-pipa lavam as vias.

Os carregadores de navio, que despejam o minério nos porões, operam com aspersão contínua de água, o que também elimina a emissão de poeira. Cada píer tem um carregador desses e, os dedicados ao ValeMax, despejam 16 mil toneladas por hora. “A água usada nesses processos vem de reúso”, ressalta Vasconcelos.

Com toda essa infraestrutura, o Porto de Tubarão pode exportar até 120 milhões de toneladas anuais, o que consolida o porto como o segundo maior exportador brasileiro de minério de ferro, atrás apenas do Terminal Ponta da Madeira (MA), também da Vale, que embarcou 176 milhões de toneladas no ano passado.


O diferencial: teor de ferro

O minério embarcado em Tubarão vem do Quadrilátero Ferrífero (MG), região que inclui, entre outras, Itabira e Ouro Preto, e é transportado por trem pela Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), com seus 905 quilômetros. Essa produção divide-se em dois tipos: itabirítico (teor intermediário, entre 52% e 64% de ferro) e alto teor (concentração acima de 64%) e é justamente a diferença entre os dois tipos que explica a competitividade brasileira.

“O minério australiano é, em sua maioria, de baixo ou médio teor. Por isso o nosso [de médio e alto teor] é preferido em mercados que produzem ligas de aço de alta resistência”, explica Hugo Azevedo, responsável pelos embarques no Porto de Tubarão.

Um dos principais destinos desses produtos é o porto de Sohar, em Omã, no sudeste da Ásia e que também recebe carregamentos de minério de ferro extraído de Carajás (PA) e embarcado no Terminal Ponta da Madeira (MA). Neste ponto da Península Arábica, a Vale opera um centro de blendagem (processo para combinar diferentes tipos de minério de ferro) onde o produto mineiro é misturado ao paraense, que tem 67% de teor de ferro, o melhor do planeta. Esse blend resulta em um produto com características químicas e físicas mais homogêneas, atendendo às especificações dos clientes siderúrgicos, com a garantia de 62% de teor, o que é considerado um padrão acima da média global.

Essa combinação de matéria-prima superior e logística de ponta, portanto, é o que mantém o Brasil competitivo no tabuleiro global do minério de ferro, mesmo percorrendo distâncias três vezes maiores que seus concorrentes.

* Rm viajou a convite da Vale

Dúvidas mais comuns

O Brasil mantém competitividade através de três estratégias principais: logística avançada com navios ValeMax que carregam o dobro da capacidade convencional, reduzindo custos por tonelada; qualidade superior da matéria-prima, com minério de médio e alto teor (52-67% de ferro) preferido para ligas de aço de alta resistência; e operações portuárias de ponta, como o Porto de Tubarão, que utiliza inteligência artificial para gerenciar rotas e otimizar operações.

O minério de ferro brasileiro é extraído principalmente do Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais, que inclui cidades como Itabira e Ouro Preto, e da região de Carajás no Pará. Esses minérios são transportados por ferrovias especializadas até os portos de Tubarão (ES) e Ponta da Madeira (MA), que são os principais pontos de embarque para exportação.

Os ValeMax são os maiores transportadores de minério de ferro do mundo, com capacidade de até 405 mil toneladas — o dobro dos graneleiros convencionais. Com 362 metros de comprimento e 65 metros de largura, eles reduzem o tempo de viagem pela metade ao dobrar a capacidade de carregamento em uma única jornada, tornando o transporte mais eficiente e economicamente viável.

O minério australiano é predominantemente de baixo ou médio teor de ferro, enquanto o brasileiro é de médio e alto teor, com concentrações entre 52% e 67% de ferro. Essa diferença torna o minério brasileiro preferido em mercados que produzem ligas de aço de alta resistência, conferindo vantagem competitiva apesar da maior distância até os principais consumidores.

O Porto de Tubarão implementa inteligência artificial através de um Centro de Controle de Operações que gerencia mais de 5 mil combinações de rotas, controla velocidade de navios e sincroniza atracações com disponibilidade de píeres. Além disso, utiliza drones para inspecionar o calado dos navios, substituindo profissionais em pequenas embarcações, aumentando segurança e reduzindo tempo de operação em três vezes.

Blendagem é o processo de combinar diferentes tipos de minério de ferro para criar um produto com características químicas e físicas mais homogêneas. A Vale realiza essa operação no porto de Sohar, em Omã, misturando minério de Minas Gerais com o de Carajás (67% de teor), resultando em um blend com 62% de teor de ferro, padrão acima da média global que atende especificações rigorosas dos clientes siderúrgicos.

O Porto de Tubarão alcançou redução de 93% na emissão de poeira difusa através de múltiplas ações: cobertura total das correias transportadoras com estruturas metálicas, telas protetoras no pátio de estocagem, lavagem diária das vias com caminhões-pipa, e operação de carregadores de navio com aspersão contínua de água reutilizada, demonstrando compromisso com sustentabilidade.

A Austrália é o maior produtor global de minério de ferro, com 930 milhões de toneladas em 2024, seguida pelo Brasil com 447 milhões de toneladas. Juntos, os dois países respondem por 55% da produção e beneficiamento mundial, estimados em 2,5 bilhões de toneladas, consolidando sua posição dominante no mercado global.