Ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Crédito: Web Summit Rio 2026
Ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara

Ancestralidade, mineração e tecnologia devem andar juntas, defende Sonia Guajajara

Ex-ministra debateu proteção aos povos originários e biodiversidade como parte intrínseca às tecnologias

Por Rodrigo Conceição Santos, 3 min de leitura

Publicado em 11/06/2026

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A necessidade de minerais críticos para atender a transição energética, a demanda por data centers para processar os dados das inteligências artificiais e a escalada na produção de chips, para ficarmos em três exemplos da vida contemporânea, são simbióticas aos saberes ancestrais dos povos originários. Afinal, como definiu a  ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, uma tecnologia voltada para o futuro [inteligência artificial] consome água para resfriar data center. “E a água é o maior bem para a vida. Quando pensamos na água, portanto, voltamos ao sentido da tecnologia, que é [conceitualmente] o conhecimento aplicado para compreender e sustentar a vida”.

Sonia participou de uma conversa com a imprensa durante o Web Summit 2026, com cobertura do Radar Mineração. Ela também participou de debate com o diretor do Earthshot Prize para a América Latina, Felipe Villela, e o professor Carlos Nobre, da Fundação Black Jaguar, no palco principal do mesmo evento.

Consumo consciente também vale para IA

Para a ex-ministra, a ciência, a tecnologia e a ancestralidade andaram separadamente durante anos, mas hoje precisam estar uníssonas. E mais: o enfrentamento dos desafios ambientais – necessários para que o mundo alcance a neutralidade de carbono em 2050 –  passa essencialmente pelo aproveitamento dos saberes acumulados pelos povos indígenas ao longo de gerações, na visão dela. “Pensar em tecnologia também é pensar no manejo da terra e na proteção do meio ambiente e das nascentes de água”, argumentou.

A soberania nacional, debatida em várias seções do Web Summit Rio no âmbito da digitalização, também estaria ligada à proteção da biodiversidade e valorização da ancestralidade. Isso porque, de modo geral, as discussões sobre como garantir que os dados digitais do governo e empresas brasileiras estejam realmente protegidos em um momento de tensões geopolíticas, como o atual, é intrínseca à proteção e boa utilização dos recursos naturais do país. 

Por isso, a ex-ministra defendeu que a inteligência artificial precisa considerar todo o conjunto de pessoas e de recursos envolvidos no seu desenvolvimento. Ou seja: o consumo consciente – amplamente dominado pelos povos originários – também deve ser aplicado ao uso de IA. 

Cada interação com sistemas de IA demanda, além de água para resfriamento de data centers, infraestruturas diversas que são produzidas essencialmente com minerais. “Cada vez que alguém acessa uma ferramenta de IA e recebe uma resposta, portanto, existe um consumo por trás desse processo. Trago essa reflexão porque ainda estamos longe de alinhar a sabedoria dos povos ancestrais com a tecnologia”, disse.

Proteção ambiental e valor monetário

Para Felipe Vilela, da Earthshot Prize, além da incorporação cultural, é preciso colocar os saberes ancestrais na “conta do mundo”. Para isso, ele argumentou que mais de um terço do PIB mundial (cerca de 44 trilhões de dólares), depende comprovadamente da natureza. 

A conta inclui atividades como agricultura, infraestrutura e mineração – que dependem diretamente dos recursos naturais e da forma como a terra é utilizada. No caso brasileiro, ele destacou que cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa estão associados ao uso da terra e, ao mesmo tempo, o agronegócio responde por aproximadamente um quarto da economia nacional.

Sonia acrescentou que o Brasil tem reservas de terras raras e outros minerais considerados estratégicos para a transição energética, e por isso é preciso que o debate sobre essa riqueza seja ampliado para o público geral, considerando também a legalidade da exploração e seus possíveis impactos sobre territórios indígenas. Isto diz respeito ao combate ao desmatamento e ao garimpo ilegal, segundo a ex-ministra. 

Nos anos do seu mandato (2023 ao início deste ano), Sonia destacou que as operações realizadas no território Yanomami resultaram na retirada de mais de 98% dos garimpeiros que atuavam ilegalmente na região. Ela citou ainda ações semelhantes em outros territórios indígenas, onde também há casos de criação irregular de gado. “O enfrentamento das atividades ilegais precisa continuar uma frente de atuação essencial para a proteção dos territórios indígenas e dos recursos naturais”, concluiu.