Vista aérea de uma mina a céu aberto com estradas de terra sinuosas, grandes caminhões de mineração e equipamentos de escavação trabalhando em diferentes níveis da pedreira. A vegetação escassa e os tons terrosos dominam a paisagem.
Mina de Cobre Radomiro Tomic, Região II de Antofagasta, Chile. (Foto: Matt Hintsa via Flickr)

Chile aposta em inovação e segurança jurídica para liderar a mineração 

Exponor 2026 debate como o país busca ampliar investimentos, acelerar projetos, incorporar novas tecnologias e enfrentar desafios relacionados à segurança, mão de obra e competitividade

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 12/06/2026

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Maior produtor mundial de cobre, o Chile vê na transição energética e na crescente demanda global por minerais estratégicos uma oportunidade para impulsionar investimentos e reaquecer a produção nacional. Durante a Exponor 2026, realizada em Antofagasta, autoridades, executivos e especialistas concordaram que o futuro do setor passa pelo desenvolvimento de capital humano, captação de investimentos, incorporação de tecnologias avançadas e fortalecimento de práticas sustentáveis para atender às necessidades da transição energética e da economia digital.

Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta desafios importantes, como a queda na qualidade mineral, a necessidade de mão de obra qualificada, a modernização regulatória e os riscos associados ao crime organizado. A combinação entre inovação, segurança institucional e desenvolvimento de talentos foi apontada como caminho para garantir a competitividade da mineração chilena nas próximas décadas.

Um novo ciclo de crescimento para a mineração chilena

Com uma das maiores delegações a visitar o evento, o governo chileno dimensionou o papel do setor mineral, sobretudo no que diz respeito à produção de cobre, na estratégia econômica e de desenvolvimento do país. Em entrevista à Teletime Antofagasta, o subsecretário de mineração, Álvaro González, destacou que o governo pretende impulsionar o setor por meio da promoção de investimentos e segurança jurídica, da modernização regulatória e simplificação de projetos, e do fortalecimento das instituições de mineração. As frentes constituem os pilares do Plano de Mineração 2026-2030 do país.

A proposta inclui simplificar o sistema de patentes minerárias, reduzir burocracias e acelerar os processos de aprovação de projetos. González explicou que o objetivo é superar a escala progressiva de cobranças de patentes, que podiam chegar a 120 vezes o valor original, tornando-a pouco competitiva. Além disso, o acesso a essas patentes também era dificultado a pequenos e médios mineradores devido a exigências complexas. Nesse processo, o Serviço Nacional de Geologia e Mineração (Sernageomin) passou a atuar mais como um revisor de documentação do que como um supervisor.

Superadas essas questões, a expectativa é que o país recupere o dinamismo da indústria. Diante das metas estabelecidas para 2050, a produção anual de cobre deveria alcançar 7 milhões de toneladas até 2030. No contexto atual, a estratégia reside em manter a produção nacional em torno dos atuais 5,5 milhões de toneladas.

O esforço responde à demanda global por minerais críticos, essenciais para a eletrificação da economia, expansão dos veículos elétricos e avanço da inteligência artificial. “Hoje, mais do que nunca, a mineração é protagonista do futuro, tanto para o Chile quanto para o planeta”, afirma González.

No setor privado, as principais mineradoras que operam no país também reforçaram a necessidade de ampliar investimentos para sustentar a produção futura.

A Escondida, maior mina de cobre do mundo, mantém um programa de investimentos superior a US$ 10 bilhões para compensar a redução gradual da qualidade do minério e preservar sua capacidade produtiva. Já as operações da Pampa Norte, que incluem Spence e Cerro Colorado, trabalham em projetos que poderão ampliar sua contribuição ao abastecimento global de cobre.

Hoje, mais do que nunca, a mineração é protagonista do futuro, tanto para o Chile quanto para o planeta

Tecnologia transforma operações e amplia segurança

Uma pessoa em primeiro plano opera um joystick em uma estação de trabalho, concentrada em vários monitores, enquanto outra trabalha nas proximidades. O ambiente da sala de controle de alta tecnologia evoca a inovação esperada na Exponor 2026.
Tecnologia de controle remoto e autônoma para mineração (Foto: Caterpillar)

Por ser um espaço de discussão sobre o futuro da mineração chilena, o evento expôs soluções tecnológicas nos estandes. Inteligência artificial, automação, robótica, digitalização e monitoramento remoto estiveram entre os principais temas da feira. Além de guiar o futuro das operações minerárias, as tecnologias respondem a demandas do mercado por maior segurança e sustentabilidade no processo produtivo.

Robôs autônomos capazes de inspecionar ativos críticos em operações minerárias, por exemplo, identificam falhas em tempo real e reduzem a exposição de trabalhadores a ambientes de risco. Em outra inovação voltada para segurança operacional, a Brain Treatment Center desenvolveu um programa que utiliza neurotecnologia para monitoramento de fadiga, atenção e concentração de colaboradores, com o objetivo de melhorar o desempenho.

A estatal Codelco também apresentou seus avanços em automação, incluindo a operação remota de equipamentos de perfuração a mais de 200 quilômetros de distância e a utilização de gêmeos digitais, plataformas que replicam virtualmente as operações da mina para apoiar a tomada de decisões e otimizar o planejamento produtivo.

Os desafios das próximas décadas

Apesar das oportunidades, os participantes da Exponor alertaram para obstáculos que podem limitar o crescimento do setor. Um dos citados no evento foi a escassez de profissionais qualificados para atender às demandas da mineração cada vez mais digitalizada.

Empresas vêm ampliando programas de capacitação, bolsas de estudo e iniciativas de inclusão para atrair novos talentos, especialmente mulheres e profissionais oriundos de outros setores produtivos.

Outro desafio é a segurança da cadeia logística mineiro-portuária, apontada pelo procurador regional de Antofagasta, Juan Castro Bekios. Durante sua participação, Bekios alertou para o risco de infiltração do crime organizado no Corredor Bioceânico (que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico) e defendeu medidas como rastreabilidade do cobre por blockchain, criação de uma equipe interinstitucional para crimes de mineração, lacre eletrônico de containers e assinatura de um “protocolo de inteligência” para portos de destino.

A escassez hídrica e o clima árido da região configuram outro desafio para a mineração, devido ao grande volume de água utilizado. Apesar da complexidade da operação, a dessalinização da água do mar é uma aposta do país, com exemplos de adoção em Quebrada Blanca. Combinada com a utilização de energias renováveis, o gerente geral da Quebrada Blanca, Mario Ortiz, explica que a sustentabilidade deve ser entendida como uma tomada de decisão e não como uma função dentro da organização.

Em linhas gerais, a manutenção da liderança chilena na produção de cobre e a expansão de outras vertentes na mineração passa por combinar inovação, sustentabilidade, confiança institucional e desenvolvimento de capital humano em um cenário global cada vez mais competitivo.