A mineração circular avança em um ambiente no qual a oferta tradicional de minerais ficou mais complexa. Nos relatórios das grandes companhias, transição energética, eletrificação e demanda por metais estratégicos aparecem lado a lado com licenciamento mais difícil, risco geotécnico, clima, uso da água e fechamento de mina. Nesse cenário, resíduos e rejeitos deixam de ser tratados apenas como passivo operacional e passam a integrar a discussão sobre eficiência, segurança e resiliência do negócio.

Por isso, a circularidade ganhou novo peso nos documentos corporativos. Em vez de surgir apenas como iniciativa ambiental, ela passa a ser associada à redução de risco, ao melhor uso do capital investido, à ampliação da vida útil de materiais e à criação de novas rotas de receita. Vale, BHP, Rio Tinto, Anglo American e Glencore registram o tema tanto em seus reportes de sustentabilidade como nos financeiros. 

Infográfico “Mineração circular” com explicação sobre circularidade, comparação antes e agora (custo, passivo e risco vs ativo, insumo e oportunidade) e passo a passo de rejeito para novo produto.
Imagem gerada digitalmente

A avaliação da Fitch Ratings ajuda a enquadrar esse pano de fundo. Em entrevista ao Radar Mineração, Oliver Schuh, head de Natural Resources and Commodities Corporate Ratings da agência, observou que “o consumo de cobre continua sendo fortemente impulsionado pela eletrificação, pelas redes de energia e pelas energias renováveis”, mas lembrou que a expansão da oferta esbarra em projetos mais caros, processos de licenciamento difíceis e minas com teor declinante, fatores que aumentam a relevância de rotas complementares de suprimento.

Segundo ele, para equilibrar esses dois pontos, as empresas precisam, cada vez mais, da disciplina de capital, que é determinada pela forma como a gestão conduz a geração de caixa e a alavancagem ao longo do ciclo. Nesse contexto, a circularidade passa a integrar discussões sobre novos investimentos, passivos, uso de materiais e geração de receita.

Vale: escala, meta e conexão direta com o negócio

Uma grande escavadeira amarela deposita material sobre uma pilha cônica em uma área industrial de mineração voltada para a mineração circular, cercada por máquinas, esteiras transportadoras e diversos edifícios.
Mineração circular (Foto: Vale)

A Vale registra a circularidade entre as oportunidades formais de geração de valor em seu Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade (IFRS).

Em 2025, a companhia informou 26 milhões de toneladas de minério de ferro produzidas por iniciativas de circularidade, alta de 107% sobre o ano anterior. Segundo a  empresa, isso representa cerca de 8% da produção total.

A meta declarada é chegar a 10% até 2030. O programa envolve reprocessamento de pilhas de estéril, barragens, coprodutos e integração com soluções de menor carbono na cadeia do aço.

A companhia também associa circularidade à menor dependência de estruturas de rejeitos, à redução de impactos ambientais e ao melhor aproveitamento de ativos.

BHP: circularidade e gestão de rejeitos

Na BHP, a gestão de rejeitos está registrada nas políticas de segurança, meio ambiente e comunidades.

A empresa informa que avalia soluções não convencionais para disposição de rejeitos quando precisa ampliar capacidade ou projetar novas estruturas. O objetivo informado pela companhia é reduzir o risco potencial e ampliar o valor social.

Em agosto de 2025, a BHP reportou 61 estruturas alinhadas ao Global Industry Standard on Tailings Management (GISTM) e outras nove ainda em processo de alinhamento. 

Nos documentos da companhia, a gestão dessas estruturas aparece associada a previsibilidade regulatória, passivos e proteção do capital investido.

Rio Tinto: transparência e conformidade no centro da agenda

A Rio Tinto registra ações relacionadas à circularidade na gestão de rejeitos e no reporte técnico. Em 2025, a companhia publicou um novo pacote de divulgação técnica alinhado ao GISTM.

O material atualizou 14 instalações classificadas como de consequência muito alta ou extrema e acrescentou outras 84 estruturas classificadas como baixa, alta ou significativa.

A empresa afirma que gerir rejeitos de forma responsável é condição para proteger pessoas, comunidades e meio ambiente e manter a licença social para operar.

Os documentos publicados pela companhia tratam de controles, passivos e informações técnicas sobre as estruturas.

Anglo American: circularidade em infraestrutura e aplicações de uso

A Anglo American informa sobre o uso de resíduos em projetos de infraestrutura. No Minas-Rio, no Brasil, a companhia registrou a produção de 293 mil blocos de pavimentação a partir de resíduos de mineração.

No Chile, a empresa cita uma estrada interna construída com mais de 95% de rejeitos e escória, em iniciativa ligada à redução da pegada física e do uso de cimento.

A companhia também informa estudos sobre uso de resíduos minerais em intemperismo acelerado para captura de carbono e em agricultura e reabilitação de áreas.

Nos relatórios da empresa, essas iniciativas aparecem associadas a operações, uso do território e comunidades.

Glencore: circularidade além dos limites da mina

A Glencore registra circularidade em operações de reciclagem de eletrônicos em fim de vida, baterias de íons de lítio e outros produtos com metais críticos.

Segundo a empresa, a operação busca fechar o ciclo de cobre, níquel, cobalto, zinco e metais preciosos. A rede envolve unidades na América do Norte, América do Sul e Europa.

A companhia informa mais de 75 anos de experiência em reciclagem e integra essa atividade à estrutura global de comercialização.

Nos documentos da empresa, a circularidade está registrada em atividades de suprimento, processamento e receita associadas à reciclagem de metais.


Fontes de pesquisa:

Vale
IFRS

BHP 
Relatório Anual
Relatório de Sustentabilide

Rio Tinto 
Relatório Anual
Relatório de Sustentabilidade

Anglo American
Relatório Anual Integrado

Dúvidas mais comuns

Mineração circular é a prática de transformar resíduos e rejeitos de mineração em recursos produtivos, em vez de tratá-los apenas como passivos operacionais. Diferencia-se da mineração tradicional por integrar a discussão sobre eficiência, segurança e resiliência do negócio, associando-se à redução de risco, melhor uso do capital investido, ampliação da vida útil de materiais e criação de novas rotas de receita. As grandes mineradoras agora registram a circularidade tanto em seus relatórios de sustentabilidade quanto nos financeiros.

As mineradoras adotam a circularidade em um ambiente onde a oferta tradicional de minerais ficou mais complexa, com licenciamento mais difícil, risco geotécnico, questões climáticas e de uso da água. A circularidade ajuda a equilibrar a crescente demanda por metais estratégicos com a necessidade de disciplina de capital, redução de riscos regulatórios e proteção da licença social para operar. Além disso, contribui para a redução de impactos ambientais e melhor aproveitamento de ativos existentes.

Os três pilares da economia circular aplicados à mineração são: eliminação de rejeitos e poluição através de gestão responsável de estruturas de rejeitos; manutenção de produtos e materiais em uso mediante reprocessamento de pilhas de estéril, barragens e coprodutos; e regeneração de sistemas naturais através de iniciativas como uso de resíduos em infraestrutura, captura de carbono e reabilitação de áreas. Esses pilares integram discussões sobre novos investimentos, passivos, uso de materiais e geração de receita.

A Vale registra a circularidade como oportunidade formal de geração de valor, tendo produzido 26 milhões de toneladas de minério de ferro por iniciativas de circularidade em 2025, representando 8% da produção total. A meta da empresa é chegar a 10% até 2030. O programa envolve reprocessamento de pilhas de estéril, barragens, coprodutos e integração com soluções de menor carbono na cadeia do aço, associando-se à menor dependência de estruturas de rejeitos e melhor aproveitamento de ativos.

A gestão de rejeitos é central na mineração circular, sendo registrada nas políticas de segurança, meio ambiente e comunidades das grandes mineradoras. Empresas como BHP avaliam soluções não convencionais para disposição de rejeitos, enquanto Rio Tinto publica divulgações técnicas alinhadas ao Global Industry Standard on Tailings Management (GISTM). A gestão responsável de rejeitos protege pessoas, comunidades e meio ambiente, além de ser condição para manter a licença social para operar e reduzir riscos regulatórios.

As mineradoras criam novas receitas através de diversas aplicações dos resíduos minerais. A Anglo American produz blocos de pavimentação a partir de resíduos de mineração e constrói estradas com rejeitos e escória, reduzindo o uso de cimento. A Glencore opera uma rede global de reciclagem de eletrônicos em fim de vida, baterias de lítio e outros produtos com metais críticos, fechando o ciclo de cobre, níquel, cobalto, zinco e metais preciosos. Essas iniciativas integram a circularidade às atividades de suprimento, processamento e receita.

A mineração circular influencia a licença social para operar ao demonstrar compromisso com a proteção de pessoas, comunidades e meio ambiente. A gestão responsável de rejeitos, o uso de resíduos em projetos de infraestrutura e a redução de impactos ambientais fortalecem a confiança regulatória e comunitária. Além disso, a transparência e conformidade com padrões internacionais, como o GISTM, reforçam a credibilidade das operações e a sustentabilidade de longo prazo do negócio.

A mineração circular está diretamente associada à disciplina de capital, que é determinada pela forma como a gestão conduz a geração de caixa e a alavancagem ao longo do ciclo. A circularidade passa a integrar discussões sobre novos investimentos, passivos, uso de materiais e geração de receita, permitindo que as empresas equilibrem a crescente demanda por metais estratégicos com a necessidade de expandir a oferta de forma mais eficiente. Isso reduz riscos financeiros e melhora o retorno sobre o capital investido.